Biografias de C S Lewis – Uma Resenha

[Este artigo é publicado isoladamente, mas ele faz parte de um todo maior que será oportunamente divulgado. EC]

CONTEÚDO:

1. Preliminares

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. A Biografia Autorizada
B. O “Companion & Guide
C. Mais Duas Biografias

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. As Quatro Biografias de Alister McGrath
B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

o O o

1. Preliminares

Dentre os livros que tenho, mais de cem dizem respeito a C S Lewis. Ele podem ser divididos, mais ou menos igualmente, em duas grandes categorias: livros escritos por C S Lewis e livros escritos sobre C S Lewis. Só os meus livros de e a respeito de um outro autor são em maior número: David Hume, filósofo escocês sobre o qual escrevi minha tese de doutorado, defendida em 8 de Agosto de 1972 — daqui um mês fará 48 anos.

Entre os primeiros — livros de autoria do próprio C S Lewis — estão livros de todos os tipos: livros de poemas, livros de crítica literária e história da literatura, livros de ficção, alguns voltados para adultos e outros voltados para crianças e adolescentes, livros de cunho religioso e teológico, e livros de natureza autobiográfica (o mais importante dessa última categoria sendo uma autobiografia da primeira parte de sua vida, até meados dos anos 30 do século passado).

Entre os livro escritos sobre C S Lewis há biografias gerais, que cobrem sua vida inteira (período por período, do nascimento até a morte), há biografias que tratam de segmentos específicos de sua vida (de sua infância e juventude, por exemplo, o da fase em que ele esteve casado, seu casamento tendo se dado quando ele já era um homem maduro, se não velho: tinha quase 58 anos), há livros que analisam o mundo intelectual em que ele viveu (as ideias de seu mundo, aquelas que ele aceitou tranquilamente, e que foram poucas, e aquelas que ele criticou, em alguns casos com veemência, e rejeitou, a maioria), e há livros que analisam um ou mais aspectos de sua obra e que, em geral, por causa da quantidade enorme de seus livros, se dedicam, em regra, a um ou outro aspecto dessa obra, como sua ética, ou sua rejeição da modernidade. Não conheço nenhum livro que analise, em profundidade, toda a obra de C S Lewis, nem mesmo todas as principais, embora haja um que chega mais ou menos perto disso, e que mencionarei, no devido momento, de autoria de Walter Hooper.

Os livros escritos pelo próprio C S Lewis (ele foram todos escritos a mão, porque ele não sabia datilografar — aquilo que hoje chamamos de digitar) são sempre interessantes — mas os livros sobre ele também não deixam de ser, com uma ou outra exceção (e os que realmente não vale a pena ler eu, em geral, nem discuto — o que não quer dizer que os que não menciono neste artigo não valham a pena ler…).

Os livros sobre C S Lewis podem ser classificados de várias maneiras:

  • Livros de pessoas que conviveram com ele, como ex-alunos, colegas, e amigos, os quais em geral, gostam dele e o admiram;
  • Livros de pessoas que não conviveram com ele, os quais podem ser classificados em três tipos principais:
    • Livros de quem é simpático a ele e o defende (quando necessário) e elogia (quando recomendável);
    • Livros de quem, por uma ou mais de uma razão, não gosta muito dele e o critica;
    • Livros de quem se pretende neutro e objetivo, procurando descrever mais do que avaliar.

Das pessoas que conviveram com ele, pouquíssimas pessoas que não gostavam dele (e havia quem o detestasse) se deram ao trabalho de escrever um livro sobre ele. Neste caso, apenas fizeram referências desairosas e críticas a ele em livros cujo foco principal não era ele, era algum outro tema.

Das pessoas que não conviveram com ele, há muitos que não gostavam e ainda não gostam dele. Algumas dessas pessoas escreveram livros críticos a ele, em geral, ou, mais frequentemente, em críticos de alguns aspectos específicos de sua vida e obra (sua contribuição à crítica literária e à história da literatura; sua produção literária, tanto em prosa como em poesia, dedicada a adultos; sua produção literária dedicada a crianças; sua teologia, em especial sua defesa (apologia) do Cristianismo.

Registre-se ainda que, por vezes, alguns autores pretendem ser uma coisa, mas acabam sendo outra. O caso mais comum é o de pessoas que pretendem ou alegam ser objetivas e neutras, mas, no fundo, têm alguma antipatia para com ele, como pessoa, ou discordam frontalmente de alguns aspectos de sua obra e de suas ideias.

Isso dito, vou mencionar sucintamente os principais livros sobre C S Lewis que eu tenho usado, em maior ou menor intensidade e profundidade, para escrever meus artigos sobre ele — artigos que, oportunamente, espero transformar em um livrinho. . .

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Dentre as biografias de C S Lewis escritas por gente que o conheceu e conviveu com ele, as quatro de que mais gosto e que mais tenho utilizado são mencionadas a seguir.

A. A Biografia Autorizada

Em primeiro lugar, uma biografia a quatro mãos, escrita por duas pessoas ligadas a Lewis, Roger Lancelyn Green e Walter Hooper, com o título (atual) de C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography (Harper, New York, 1974 [1st ed], 2002 [rev. ed.]). O título da primeira edição, de 1974, era C. S. Lewis: A Biography. O título da segunda edição, de 2002, portanto, é mais incisivo: o “a” (uma) virou “the” (a) “Biography” — de C. S. Lewis: Uma Biografia passou para C. S. Lewis: A Biografia. Para que não pairassem dúvidas, foram inseridos ainda os termos “Authorised” (Autorizada) e, naturalmente, “Revised” (Revisada).

No Prefácio da segunda edição Walter Hooper, um dos autores, o mais novo deles, esclarece que, dada a morte do outro autor, em 1987, a revisão foi feita exclusivamente por ele, Hooper — embora os dois autores tenham frequentemente discutido o que precisaria ser incluído e modificado em uma nova edição. A morte de um dos autores, em si, normalmente não significa muita coisa para um livro que é reeditado: é algo que acontece com frequência. No caso, a contribuição de Green à primeira edição, também parece ter sido pequena, limitando-se ao uso feito de um diário feito por ele quando de uma viagem sua e de C S Lewis, ambos acompanhados de suas esposas, à Grécia, viagem que acabou por ser a última viagem significativa feita por Lewis e Joy Davidson Lewis, sua mulher, que já estava em seus últimos dias de vida. A viagem foi feita contra recomendação médica, para a atender ao desejo expresso de Joy de conhecer a Grécia antes de morrer. (Curioso, não? Por que a Grécia e não a Palestina, já que ela era uma judia que havia se convertido ao Cristianismo, duas religiões para as quais a Palestina era historicamente importante?)

A segunda edição contém capítulos novos e revisão dos antigos, sendo bem mais longa. Hooper poderia até mesmo ter assumido registrado apenas o nome dele como autor, dando o devido crédito, no prefácio, à contribuição de Green. Isso não seria inusitado. A razão pela qual Hooper aparentemente fez questão de manter o nome de Green como coautor, quinze anos depois de este estar morto, sem ter contribuído nada para a significativa revisão, e, assim, não tendo contribuído tanto para a obra revisada como um todo, se deve ao fato de que C S Lewis havia solicitado a Green que escrevesse sua biografia… Logo, o “Authorised” que Hooper incluiu no título da segunda edição só poderia ser mantido se Green continuasse a ser considerado um dos autores…

Consta que Hooper, que se tornou secretário particular de Lewis no final da vida deste, poucos meses antes de sua morte, em Junho de 1963, solicitou a Lewis, quando este já estava próximo da morte, permissão para escrever sua biografia autorizada, ao que Lewis teria respondido que já havia encarregado Green, seu ex-aluno e grande amigo há muito tempo, e que era um escritor (inclusive biógrafo) experiente e consagrado, que fizesse isso, e que Hooper, portanto, se entendesse com ele. O resultado foi uma coautoria, decorrente, em parte, da generosidade de Green, e, em parte, da proatividade e (até certo ponto) agressividade do jovem Hooper em relação a qualquer questão que contribuísse para que ele se tornasse, oportunamente, como de fato veio a se tornar, a grande autoridade mundial em C S Lewis.

Na qualidade de secretário pessoal de Lewis quando este morreu, e de pessoa que passou a morar na própria casa de Lewis, depois de sua morte, e que assim passou a conviver com o irmão (mais velho) de Lewis e com seu enteado mais novo (ele tinha dois), Hooper veio a ter considerável controle, desde a morte de Lewis, em 1963, dos papéis que Lewis deixou em casa ou em editoras ao morrer. Durante 12 anos, até 1975, Hooper não foi o responsável oficial pela herança intelectual de Lewis, posição que só veio a alcançar em 1975: até então era apenas um assessor literário contratado pelos testamenteiros.

De qualquer forma, essa biografia, sendo autorizada,  e sendo escrita por quem foi, tende a ser muitíssimo bem documentada, como não poderia deixar de ser, e muito sensata e equilibrada, e, portanto, confiável, embora tenha sido escrita por um grande amigo de Lewis e um admirador de Lewis (por carta, desde 1951) e que veio a ser (por pouco tempo, a partir de Junho de 1963 até sua morte), seu secretário pessoal). O único reparo a ser feito a essa biografia é que ela contem, na segunda edição, em um ou outro lugar, uma excessiva valorização do papel de Hooper na vida de Lewis, como se ele tivesse convivido presencialmente com Lewis por muito tempo — por correspondência, parece incontestável a sua alegação de que eles haviam se correspondido por doze anos antes de se conhecerem. Mas o contato pessoal, face-a-face, de Hooper com Lewis foi muito curto. Contratado em 7 de Junho de 1963, como já observado, ele teve de retornar aos Estados Unidos em Setembro para executar, por mais um período letivo, até Dezembro, o seu trabalho de professor na instituição em que trabalhava. Assim, ficou ao lado de Lewis menos de três meses. Só em Janeiro de 1964, depois de Lewis já estar morto e enterrado, ele voltou para a Inglaterra, não mais para exercer o papel de secretário pessoal, mas, agora, mediante contrato com os responsáveis pela herança de Lewis, para coletar e organizar os seus trabalhos ainda não publicados, elaborar uma lista oficial de suas publicações, e por alguma ordem nos papeis de um homem que era relativamente desleixado com seus papeis.

Mas, como já assinalei, o fato mais importante é que, a partir desse momento, ele passou a ter contato chegado, ganhando sua confiança,  com o irmão mais velho e com o enteado mais novo de Lewis, que supervisionavam a execução do legado intelectual dele. Registre-se, mais uma vez, que é sabido e notório que, a despeito de suas muitas virtudes, Lewis sempre foi meio desmazelado com seus papéis pessoais e profissionais, jogando fora, por exemplo, os originais de suas obra depois de elas terem sido publicadas, algo que muita gente, eu inclusive, acha um absurdo. Poucos manuscritos de suas obras sobraram. Quando Hooper se tornou secretário particular de Lewis, em 1963, ele tinha 32 anos e Lewis estava às portas da morte (embora não soubesse). Hooper está vivo até hoje e deverá completar 90 anos o ano que vem (2021). Mais sobre essa história, na sequência e adiante.

B. O “Companion & Guide

Em segundo lugar, mais uma obra de Walter Hooper, escrita entre as duas edições da biografia mencionada no item anterior: C. S. Lewis: Companion & Guide (Harper, San Francisco, 1996), que parece ter sido comercializado também com o título de C. S. Lewis: A Complete Guide to His Life and Works. (Provavelmente seja o mesmo livro com títulos diferentes dos dois lados do Atlântico, como acontece com livros no Brasil e em Portugal.)

Essa obra, que é bem mais do que uma simples biografia (como o título já indica), tendo 940 páginas em fonte de corpo pequeno, contém uma biografia mais resumida de Lewis, mas mesmo assim, com 120 páginas (pp.1-120), uma das mais completas e confiáveis cronologias de Lewis (pp.121-126), um longo resumo, com boa análise, de todos os seus principais escritos, devidamente classificados em “Juvenilia“, “Poetry“, “Autobiographical“, “Novels“, “Theological Phantasies“, “Theology“, “Chronicles of Narnia“, “Literary Criticism” (pp.127-548), uma discussão das “Key Ideas” de Lewis (pp.549-614), duas valiosas seções, uma, “Who’s Who“, sobre as principais pessoas na vida de Lewis (pp.615-744), e outra, “What is What“, sobre os principais lugares na vida dele (pp.745-798), e uma bem completa (até a data da sua publicação) “Bibliography of C. S. Lewis’ Writings” (pp.799-884). “Acknowledgements” (pp.885-886) e um valioso “Index” (pp.887-940) completam a obra.

Pode parecer esquisito dizer que a Bibliografia é bem completa “até a data da sua publicação”, porque, se Lewis morreu em 1963, e o livro foi publicado em 1996, que outra publicação poderia vir à tona depois dessa data? A questão é que até hoje aparecem livros inéditos de Lewis, resultado de manuscritos que são encontrados e que não haviam ainda sido publicados, cartas dele para várias pessoas, que só foram localizadas recentemente, etc. E Hooper é um incansável caçador dessas relíquias. Na opinião de alguns, publica até o que Lewis, possivelmente, não considerava para publicação, ou digno de publicação.

Apesar de a ter colocado em segundo lugar nesta minha lista, por ser muito longa e muito mais do que uma biografia, este “Companion & Guide” talvez seja a obra mais útil para consultas por quem não tem aceso a muita literatura secundária sobre Lewis.

C. Mais Duas Biografias

Em terceiro lugar, uma outra biografia escrita por um dos ex-alunos de C S Lewis (que foi aluno dele lá no início da sua vida profissional), que também se tornou seu grande amigo ao longo do tempo, George Sayer. O título dessa biografia é Jack: A Life of C. S. Lewis (Crossway Books, Wheaton, IL, 1988, 1994). Percebe-se a intimidade que o autor tinha com o biografado já no título da obra: “Jack”, o apelido de C S Lewis. Embora muita gente o chamasse de Lewis, ninguém o chamava de Clive, seu nome de batismo. Desde que ele era pequeno, ficou Jack — na sua família, Jacks.

Se essa biografia é considerada por alguns como, até certo ponto, hagiográfica (não concordo que seja), por ter sido escrita por um ex-aluno e bom amigo, alguém que, claramente, gosta do biografado e o admira com sinceridade, que sobre ele escreve com o maior respeito, e que, na dúvida, fica na posição que entende ser a favor dele, ela não é menos útil por isso. Pelo contrário. Mesmo que possa ser considerada, em um ou outro aspecto, hagiográfica, ela é um trabalho sério de historiografia, e, talvez mais importante, serve de excelente contrapeso e contraponto às duas biografias de C S Lewis escritas por A. N. Wilson, que são, em muitos aspectos, bastante críticas, como irei mencionar adiante, quando uma interpretação mais branda e neutra seria cabível. No caso de Wilson, em caso de dúvida, ele geralmente toma uma posição que deslustra a memória de Lewis.

Em quarto lugar, um outro livro biográfico interessante, também escrito por gente que conheceu bem C S Lewis, é o editado por James T. Como, C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences (Harcourt, New York, 1979, 1992 [New Edition]), que contém reminiscências de vinte e quatro pessoas, além de um artigo introdutório de Como (que, curiosamente, é o único que não conheceu Lewis pessoalmente).

Vale a pena ler essa obra, embora a natureza de cada reminiscência seja muito pessoal e, até certo ponto, subjetiva. Mas várias delas são bastante interessantes e mesmo curiosas. No conjunto, há uma razoável desigualdade na contribuição das diversas publicações.

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Entre as biografias escritas por gente que não conviveu com Lewis, mas que por ele tem simpatia, menciono seis. As quatro primeiras são de um mesmo autor, o conhecido teólogo e historiador do pensamento cristão e da igreja, Alister E. McGrath, que, nascido em 1953, tinha dez anos quando Lewis morreu. É surpreendente que uma só pessoa tenha escrito quatro livros diferentes sobre um mesmo autor, cada um enfatizando um aspecto dele ou de sua obra!

A. As Quatro Biografias de Alister McGrath

A primeira biografia, e aquela que é uma biografia no sentido mais estrito da palavra, é C. S. Lewis: A Life, que traz na capa (mas não dentro) o subtítulo Eccentric Genius, Reluctant Prophet (Hodder & Stoughton, Londres, 2013 – ano em que a morte de Lewis completou 50 anos!). Há tradução para o Português com o título A Vida de C. S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia, que nada tem que ver com o título original. Em comentário incluído na capa do livro, N. T. Wright, famoso teólogo contemporâneo, afirma: “A penetrating and illuminating study” — a biografia vem bem recomendada, portanto.

O livro tem uma organização cronológica, em cinco partes.

  • A primeira parte, com três capítulos, vai de 1898 a 1918, ou seja, do nascimento até o final da educação básica (pré-universitária) de Lewis e o início, propriamente dito, depois do atendimento de uma convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial, dos estudos de Lewis em Oxford.
  • A segunda parte, com sete capítulos, vai de 1918 a 1954, cobre a sua participação na guerra, quando já havia sido aceito pela Universidade de Oxford e morava na cidade, e sua vida em Oxford, incluindo os seus anos de estudos (1919-1925) e os seus quase trinta anos de trabalho naquela famosa universidade (1925-1954).
  • A terceira parte, curiosamente, tem dois capítulos não vinculados, em senso estrito, a um período, em particular, da vida de Lewis, mas dedicados a discutir um conjunto específico de obras: The Chronicles of Narnia (que foram sete crônicas, originalmente publicadas separadamente, em diferentes datas). O primeiro dos dois capítulos foca a questão de como Lewis chegou a escrever essa importante obra de ficção para crianças e adolescentes e de como ele veio a encarar o papel da imaginação na vida de uma pessoa, em especial de um escritor, ao lado da razão, da experiência, e das emoções. O segundo dos dois capítulos da terceira parte discute, de forma mais profunda, a (cronologicamente) primeira (e, no entender de McGrath, a melhor) das sete crônicas que compõem Narnia: “The Lion, the Witch and the Wardrobe“.
  • A quarta parte, com dois capítulos, vai de 1954 a 1963, um capítulo cobrindo de sua ida para Cambridge (1954) até a morte de sua mulher (1960), o outro cobrindo da morte da mulher até a sua própria morte (1963).
  • A quinta parte, final, com um capítulo só, não está, da mesma forma que a terceira parte, vinculada a um período específico de sua vida, na verdade discutindo sua pós-vida: “The Lewis Phenomenon“.

A quinta parte contém uma discussão que eu, pessoalmente, reputo fantástica de um tema  que é retomado no último capítulo da segunda obra, a seguir descrita.

A segunda biografia de McGrath é mais uma biografia intelectual, The Intellectual World of C. S. Lewis (John Wiley & Sons, Chichester, 2014), publicada um ano depois do livro anterior. Nessa obra McGrath se preocupa mais com as ideias de Lewis, que, na obra, são discutidas na forma de “ideias chave” (“key ideas“). De cada uma dessas ideias, sete ao todo, McGrath estuda o seu pedigree, por assim dizer, e o seu mérito. O oitavo capítulo trata do mesmo assunto da quinta parte do livro anterior.

  • Em primeiro lugar, a ideia de uma autobiografia, tipificada especialmente por Surprised by Joy [Surpreendido pela Alegria, na tradução para o Português], mas que é retomada em Grief Observed [A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação, na tradução para o Português], tendo também sido usada, de forma alegórica, em The Pilgrim’s Regress, livro que é unanimemente considerado autobiográfico.
  • Em segundo lugar, o tipo de ateísmo que Lewis adotou durante cerca de 25 anos, dos dez ou onze anos aos cerca de trinta e cinco ou trinta e seis anos, nas décadas de 10, 20 e 30 do século 20 — que não foi, como muitas vezes é o caso, um “ateísmo relutante”, que sente saudade dos tempos de fé, mas um ateísmo abraçado com gosto, visto como uma espécie de liberação.
  • Em terceiro lugar, a questão dos mitos, e até que ponto eles podem revelar a verdade, e o seu papel na sua conversão para o Cristianismo (que ele não considerava uma reconversão, porque concluiu que nunca havia se convertido ao Cristianismo antes).
  • Em quarto lugar, o que McGrath chama de “a metáfora ocular”, que envolve o uso dos conceitos de luz, sol, e visão, na obra de Lewis, aparentemente dando uma importância maior ao visual do que ao audível e aos demais processos sensoriais.
  • Em quinto lugar, o conceito de Alegria, termo sempre escrito com inicial maiúscula, que é relacionado ao chamado “argumento do desejo”, apresentado por Lewis.
  • Em sexto lugar, o método apologético de Lewis, envolvendo razão, experiência e imaginação. (Talvez falte explicitar a emoção nesse contexto, fazendo de uma trindade uma quaternidade.)
  • Em sétimo lugar, a proposta de um “Mero Cristianismo”, um Cristianismo focado nos essenciais, que não considera, e mesmo desdenha, as questões secundárias de doutrina, conduta e organização eclesiástica, em grande parte responsáveis pelos cismas e pelas divisões do Cristianismo, e, no caso do Protestantismo, pelo denominacionalismo.
  • Por fim, em oitavo lugar, a tese (de McGrath) de que a ideia de um “Mero Cristianismo” solapou as ideias de igreja e denominação, bem como a ideia de que uma boa teologia é feita somente por teólogos profissionais, nunca por teólogos leigos e populares, em linguagem acessível, em livros curtos e baratos…

Vale a pena ler, em especial a tese desse oitavo capítulo. Ela explica a aceitação de C S Lewis por pessoas de basicamente todas as denominações protestantes, e até por católicos e por desigrejados. E explica por que parece haver, a partir de meados dos ano oitenta, uma verdadeira guerra de bastidores sobre quem vai conseguir “engaiolar” o livre pássaro que é Lewis: se os evangélicos conservadores de Wheaton, nos Estados Unidos, ou os católicos conservadores ligados a Walter Hooper, que, apesar de americano, se radicou na Inglaterra, e representa, em relação a Lewis, uma tendência mais conservadora ainda do que a dos evangélicos de Wheaton, apresentando um Lewis menos evangélico e mais “high church” e, por conseguinte, mais próximo da Igreja Católica. Registre-se que Walter Hooper, que foi ordenado sacerdote na Igreja Anglicana, posteriormente se converteu à Igreja Católica e é hoje um padre católico, devidamente aposentado de seus deveres sacerdotais, mas ainda zelando, aos quase 90 anos, pela obra e pelo bom nome de C S Lewis, que ainda é seu ídolo, mas que encontrou no Papa João Paulo II um significativo concorrente…

A terceira biografia de McGrath não é bem uma biografia: é uma tentativa de aplicar o pensamento de C S Lewis para os dias atuais — algo parecido com uma coleção de sermões baseados em textos lewiseanos. Mas é interessante, porque ilumina o entendimento que McGrath tem do pensamento de Lewis. O título, curioso e chamativo, é If I Had Lunch with C. S. Lewis: Exploring the Ideas of C. S. Lewis on the Meaning of Life (Tyndale, Carol Stream, 2014). Há tradução para o Português, com o título, mais uma vez não fielmente traduzido, Conversando com C. S. Lewis. Para quem nunca leu nada de C S Lewis, esta é uma excelente — e cativante — introdução ao seu pensamento.

A quarta biografia de McGrath, bem mais recente (2019), é bem pequena (60 páginas) e também não é bem uma biografia. Mesmo assim, opto por incluí-la aqui, como o fiz no caso anterior. Trata-se de Richard Dawkings, C S Lewis and the Meaning of Life. Parece que McGrath aproveitou materiais que já havia publicado sobre os dois autores — três livros sobre Lewis e um (e parte de outro) sobre Dawkins — para escrever um livro sobre os dois. O título do livro é autoexplicativo. Dawkins talvez seja o mais famoso (ou pelo menos o mais conhecido) ateu da atualidade.

B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

Em quarto lugar, para um tratamento mais acadêmico de Lewis, focado em sua obra mais do que em sua pessoa, há uma livro centrado em suas ideias, editado por Robert MacSwain & Michael Ward, The Cambridge Companion to C. S. Lewis (Cambridge University Press, Cambridge, 2010). Há vinte e um artigos, incluindo uma Introdução por MacSwain. Vale a pena ler, se você está interessado numa análise mais acadêmica das ideias de Lewis. Em geral, o mundo acadêmico na área da Teologia e da Filosofia olha para Lewis com um certo ar de superioridade e desdém… Confira isso lendo esse livro.

Por fim, em quinto lugar, para um tratamento mais focado na teologia de C S Lewis, propriamente dita, recomendo a edição revisada e atualizada do livro C. S. Lewis and the Search for Rational Religion (Prometheus, Amherst, 1985, 2007 [rev. & upd]), de John Beversluis. O livro tem como mote uma importante citação de Lewis que fundamenta o título do livro: “Não peço a ninguém que aceite o Cristianismo se sua razão [‘o seu melhor raciocínio’] lhe diz que o peso da evidência é contrário a ele”. Essa citação explica o título do livro, que defende a tese de que Lewis buscava uma “religião racional”. Essa tese desafia o autor a explicar o que Lewis entende pela graça e pela fé. Desafia também a acomodar a abordagem racional com a abordagem imaginativa, que toca as emoções, que era tão importante para C S Lewis.

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

Com isso eu chego à discussão do último biógrafo de C S Lewis que me interessa mais de perto, a saber, A N Wilson — um biógrafo que, no início, em especial ao longo do seu primeiro livro sobre Lewis, permaneceu meio desconfiado e bastante distanciado de seu biografado, criticando-o levemente aqui, mais fortemente ali, elogiando-o em outro lugar e, por vezes, até mesmo reconhecendo o seu gênio.

No início de seu segundo livro sobre Lewis, Wilson critica bastante, não tanto Lewis, mas os seus seguidores. Acusando os seguidores mais militantes de Lewis de criarem um “culto” em que o irlandês se tornou basicamente um santo, do qual os eventuais erros, exageros e pecadilhos precisam ser removidos ou escondidos, Wilson divide o “culto” em basicamente dois grupos, que serão mencionados adiante.

Fora do “culto”, que é muito criticado, em suas duas vertentes, Wilson mantém as críticas a certos aspectos da pessoa e do pensador que ele nunca aceitou, mas tem palavras extremamente elogiosas sobre o famoso irlandês. Declara, ainda, que, em muitos aspectos, ele mudou de opinião, em especial em relação à pessoa de Lewis, enquanto pesquisava para escrever o segundo livro e fazer um programa de televisão sobre Lewis para a BBC.

A N Wilson é o que poderíamos chamar de “biógrafo profissional”, embora ele escreva também “biografias de períodos históricos”, se é que é possível usar o termo “biografia” nesse sentido, e também se dedica, talvez nas horas vagas, a escrever ficção. Ele, como Alister McGrath, nasceu em 1953, dez anos antes de Lewis morrer, e já escreveu biografias sobre gente do mais alto coturno. De um lado, Rainha Victoria, Príncipe Albert (marido da Rainha Victoria), Rainha Elizabeth, Hitler, pessoas importantes no mundo político. De outro lado, pessoas importantes no mundo intelectual também foram biografadas por ele: Dante Alighieri, John Milton, Charles Darwin, Lev Tolstoy, John Betjeman, Iris Murdoch. Mas ele escreveu também biografias de Jesus e do Apóstolo Paulo — apesar de ser crítico do Cristianismo — e das religiões, em geral. Em 1991, quando começou a surgir o terror de fundo religioso, com a perseguição do escritor Salman Rushdie pelos muçulmanos, ele escreveu Against Religion: Why We Should Live Without It.

Quanto ao que chamo de “biografia de período”, escreveu vários livros sobre o período Vitoriano (além da biografia da Rainha Vitória e de seu marido, obras sobre os pré-vitorianos, os vitorianos, propriamente dito, os pós-vitorianos, o legado do período vitoriano) e, em 1995, uma obra importante, já mencionada, sobre os céticos, agnósticos e ateus do século 19 (o século da Rainha Victoria), principalmente na Inglaterra: God’s Funeral. Só se concebe um funeral de Deus, se ele está morto, ou se se imagina que ele morreu de vez…

É curioso que uma pessoa que acha que devemos viver sem religião tenha escrito biografias, entre outras, de pessoas que davam (ou, pelo menos, parecem ter dado) enorme importância à religião, como Jesus, Paulo, Dante, Milton, Tolstoy e C S Lewis! E, sobre Lewis, Wilson escreveu dois livros e participou da elaboração de um programa de televisão para a BBC!

Wilson confessa, em seu segundo livro sobre Lewis, que a biografia que anteriormente havia publicado sobre ele, C. S. Lewis: A Biography, de 1990, foi a única biografia que ele escreveu “sob encomenda e pressão”, isto é, porque insistiram que ele a escrevesse (e, provavelmente, pagaram bem). Ele admite que não gostava do biografado (embora reconhecesse alguns dos seus méritos e o seu gênio). No seu segundo livro sobre Lewis, um livro pequeno (72 páginas), na série “Kindle Single”, que tem como título C. S. Lewis: The Man Behind Narnia (Amazon, Seattle, 2013), Wilson faz algumas admissões e confissões importantes. O primeiro capítulo dessa segunda biografia contém algo que parece fora de lugar em um livro que parece prometer uma descrição de como surgiu Narnia, que é indicado no título: “C. S. Lewis and I”. Ou seja: neste primeiro capítulo Wilson inclui uma pequena parte de sua própria autobiografia na biografia de Lewis…

O primeiro livro de A N Wilson sobre Lewis, C. S. Lewis: A Biography (Norton, New York & London, 1990, 2002), faz críticas ao biografado (e aos seus seguidores), mas é um livro bem pesquisado e que levanta algumas questões bastante curiosas, raramente tratadas fora desse livro (e do segundo que escreveu sobre Lewis).

O livro, além de um interessante Prefácio, tem 21 capítulos, dos quais o primeiro trata da pré-vida de Lewis, com o título “Antecedents“, e o último, do pós-vida, com o sugestivo título “Further Up and Further In“. Os dezenove capítulos que tratam da sua vida a quebram em blocos de anos, que abrangem de dois a oito anos (o de maior abrangência cronológica cobrindo os anos 1898-1905, e o de menor abrangência, os anos 1959-1960). As questões mais controvertidas estão no Prefácio e no capítulo 21.

No Prefácio, que tem o título de “The Quest for a Wardrobe“, Wilson conta um pouco da sua busca por aquele que pode ter sido o guarda-roupa que teve papel importante na primeira crônica de Narnia (primeira, cronologicamente falando, porque na versão do livro compilada em um volume ela curiosamente não aparece em primeiro lugar, nem na versão original, nem na versão em Português. Curiosamente, o guarda-roupa aparentemente está em Wheaton, a grande cidadela do Evangelicalismo americano…

No último capítulo do primeiro livro, Wilson discute a questão do “Culto de/a Lewis” (Lewis Cult), em suas duas versões (que é como ele vê esse culto).

O segundo livro de A N Wilson, como já disse, é pequeno. Tem o título de The Man Behind Narnia (Amazon, Kindle Single, s/d). Embora o livro (na edição Kindle, da Amazon) não tenha a sua data de publicação explicitada, por suas primeiras frases depreende-se que ele foi escrito 25 anos depois do livro anterior — vale dizer, em 2015. Quando Wilson publicou o primeiro livro, tinha 37 anos. Ao publicar o segundo, tinha 62. Teve tempo suficiente para amadurecer.

No já mencionado primeiro capítulo desse segundo livro, que é intitulado “C. S. Lewis and I“, ele faz referência a uma “crise de meia idade” que ele, Wilson, teve nesse longo intervalo, e se pergunta se C S Lewis teve alguma coisa que ver com essa crise. Só ele admitir a existência dessa crise e fazer essa pergunta já é algo significativo. Mas ele vai além e é incrivelmente franco e transparente nas coisas que admite e confessa.

Para realçar o significado e a importância dessa crise de meia idade, Wilson conclui a primeira seção do primeiro capítulo desse segundo livro fazendo uma constatação e uma admissão. Faço questão de citar a passagem inteira:

“Quando eu estava escrevendo minha vida de Lewis, eu comecei a pensar que, talvez, sua apresentação da fé pudesse estar certa, se a encarássemos de forma ampla. Mas em vez de me persuadir da verdade do Cristianismo, essa apresentação de Lewis teve o efeito oposto. Lewis, como já disse, apresenta um Cristianismo sem compromissos. Ou você acredita em Deus — ou não acredita. Ou milagres acontecem — ou eles não acontecem. Ou Jesus é o Filho de Deus — ou não é. Ou ele nasceu de uma Virgem, e ressuscitou dentre os mortos — ou não. Os livros de Lewis não deixam nenhuma dúvida de que lado ele está. Mas quanto mais eu lia, mais claro me ficava que eu não estava do lado dele. Seria uma grande injustiça dizer que a leitura de Lewis me converteu ao ateísmo, mas foi enquanto eu lia que eu percebi que ia perdendo a minha fé. Eu não acreditava, pelo menos não do jeito que ele acreditava. Enquanto escrevia o livro, porém, eu fui desenvolvendo uma certa afeição por Lewis, o homem, mesmo reconhecendo que ele era tão diferente de mim quanto era possível ser.”

Mais adiante, ainda no primeiro capítulo da segunda biografia, mas agora na terceira seção, Wilson faz outra afirmação interessante:

“Quando minha biografia foi publicada, eu fui convidado a discuti-la numa igreja famosa de Londres. . . . O vigário ficou em um púlpito e eu em outro. Não sabia, quando subi ao púlpito, que se esperava que eu desse um ‘testemunho’… Mas no curso da discussão, alguma coisa baixou em mim. Quando eu subi para o púlpito, eu ainda acreditava (mais ou menos) no Cristianismo. Quando eu desci do púlpito, eu era um ateu fervoroso. Era a primeira vez que eu era fervoroso em alguma coisa. Na verdade, eu tive algo parecido com uma experiência de conversão evangélica, só que pelo avesso. Enquanto a gente discutia Mero Cristianismo e as falsas certezas e a fantasiosa consolação que ele oferecia, eu fui subitamente possuído de um tipo de ira, ali mesmo no púlpito. [ . . . ] E comecei a gritar que eu não acreditava no Mero Cristianismo, nem em nenhum outro tipo de Cristianismo. Percebi, de súbito, que eu era um ateu, e que tudo aquilo que o livro continha não passava de lixo. Mas, em um sentido, Lewis estava certo: ou você crê ou você não crê. Mas quanto a mim, perguntava-me: como é que pode haver gente que crê? Andar na água? Transformar água em vinho? Anjos?” [Ênfases acrescentadas.]

Diferentemente do que ele fazia com outros biografados, Wilson, ao terminar a primeira biografia de C S Lewis, nunca leu mais nada que Lewis escreveu: fez greve de Lewis, passou 25 anos sem ler nada de sua pena (e, no caso, era literalmente uma pena…). Na verdade, Wilson fugia de Lewis. No fundo, ele culpava Lewis por tê-lo tornado um ateu convertido, um ateu nascido de novo…

Mas, acaso ou providência, ele foi convidado pela BBC para fazer um programa sobre Lewis para a TV britânica.

No processo de fazer esse programa, ele releu vários livros de C S Lewis, conversou com (na sua estimativa) quase todas as pessoas que conheceram Lewis e, em 2015, ainda estavam vivas, visitou vários dos lugares em que foram importantes na vida de Lewis: a casa em que ele morou, que Wilson descreve como tendo dimensões palacianas, cheia dos livros de seu pai, e em que começou a sua trajetória de escritor, escrevendo suas primeiras obras (na coleção que Hooper descreve como “Juvenilia”), as várias casas em que morou com Mrs. Moore, e, finalmente, a casa chamada “The Kilns”, que foi comprada, em sociedade não igualitária, por Mrs. Moore, Lewis e seu irmão Warren, e em que todos esses três moraram até morrer, conforme acordado em contrato. Depois da morte do último deles (Warren), a casa passou para a propriedade da filha de Mrs. Moore.

(Parêntese: Caso você não saiba, Mrs. Moore, ou Janie King Askins Moore, foi uma mulher, mais de 20 anos mais velha do que Lewis, que viveu com ele de 1917 até a morte dela, em 1951, ou seja, durante 34 anos. Quando se conheceram, ela era casada mas separada do marido já há cerca de dez anos. Embora, oficialmente, o relacionamento entre Lewis e Moore tenha sido de “filho adotado” e “mãe substituta”, hoje é aceito por vários autores (que não consideram Lewis um santo, inclusive A N Wilson), que eles viveram juntos como homem e mulher esse tempo todo — ou, pelo menos, até que Lewis se converteu ao Cristianismo. Wilson, em 2015, entrevistou a filha de Mrs. Moore, hoje uma baronesa, que teria admitido para ele que ele estava certo ao presumir que o relacionamento da mãe dela com Lewis havia sido marital e sexual, até mesmo agradecendo a ele por ter finalmente revelado a verdade, com todas as letras, em sua primeira biografia de Lewis, publicada em 1990. Mais detalhes neste artigo: https://www.essentialcslewis.com/2017/06/10/cmcsl-3-lewis-and-mrs-moore-were-secret-lovers/. Entretanto, registre-se que William O’Flaherty, que escreveu e publicou esse artigo, provavelmente não havia lido a admissão da filha de Mrs. Moore, que é transcrita na segunda biografia de Lewis publicada por Wilson em 2015. Fim do parêntese.)

Enfim, em decorrência das novas pesquisas feitas para a elaboração do programa de televisão da BBC, e relatadas em The Man Behind Narnia, é possível concluir que Wilson mudou sua avaliação de Lewis, o homem, concordando com seus admiradores que Lewis, depois de uma infância sofrida, após a morte da mãe, quando ele tinha nove anos, e de juventude meio complicada, tornou-se uma pessoa de excelente caráter, magnânimo e generoso. Quanto à sua avaliação da obra de C S Lewis, Wilson continua a admirar sua obra estritamente acadêmica, como crítico literário e historiador da literatura, continua a detestar a maior parte de sua obra mais teológica, em especial Mere Christianity, mas passou a apreciar bastante livros como A Grief Observed. Quanto a The Chronicles of Narnia, Wilson, depois de reler a coleção, em voz alta, junto das filhas, a pedido delas, que adoravam o livro, passou a achar que há, no livro, trechos geniais, ao lado de passagens que ele continua a detestar. A propósito, A N Wilson voltou para a Igreja Anglicana. Se foi por influência de Lewis, é de duvidar, porque Lewis, embora também anglicano, não defendia as características mais “high church” de sua denominação, e Wilson parece sentir prazer nelas.

Wilson fecha seu segundo livro sobre C S Lewis com esta sóbria conclusão: “Assim, embora a experiência de revisitar Lewis e sua obra tenha inspirado em mim uma admiração pela sua bondade pessoal, creio que eu gosto de sua obra menos ainda do que eu gostava anteriormente”.

Mas, enfim: nada como viver a vida, aprendendo com a vida da gente e a dos outros.

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

A N Wilson não tem dúvida de que existe um “Culto de/a Lewis” — que Lewis está no processo de ser “mitologizado” — e que esse culto tem duas vertentes, que duelam, entre si, não só para abocanhar manuscritos e memorabilia de Lewis, mas para controlar a narrativa acerca dele que é geralmente aceita.

Por volta de 1966, três anos depois da morte de Lewis, os esforços de Walter Hooper controlar o que se sabe e se conhece sobre Lewis ganhou um forte concorrente: Clyde S Kilby, do Wheaton College, de Wheaton, IL, a cidadela do Evangelicalismo americano, que tem um centro para preservar as memórias e relíquias de Billy Graham, criou um centro para fazer o mesmo, não só em relação a C S Lewis, mas em relação a todos os seus amigos de Oxford que formavam o grupo, criado e liderado por Lewis, e que durou mais de 30 anos, com reuniões semanais, chamado “The Inklings“. (Além de C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams, Owen Barfield, Warren Lewis, e vários outros faziam parte do grupo). Há inúmeros livros sobre The Inklings: Clyde S. Kilby, A Well of Wonder: Essays on C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and The Inklings; Philip Zaleski & Carol Zaleski, The Fellowship: The Literary Lives of the Inklings: J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis, Owen Barfield, Charles Williams; Humphrey Carpenter, The Inklings: C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams and their Friends; Colin Duriez, The Oxford Inklings; Harry Lee Poe & James Ray Veneman, The Inklings of Oxford: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and Their Friends; etc.

Kilby conseguiu convencer Warren Lewis, o irmão de C S Lewis, a legar os seus papéis (e ele era o historiador da Família Lewis) para o centro de Wheaton — o que criou um certo ciúme em Walter Hooper, que havia se anglicizado e defendia a tese que os papéis de C S Lewis deveriam ir para a Bodleian Library, de Oxford. Como já dito atrás, Hooper estudou teologia, tornou-se sacerdote anglicano, e, depois de uma audiência com o Papa João Paulo II, que confirmou que gostava muito dos livros de C S Lewis, Hooper se converteu ao catolicismo, passando a ser um padre católico, que continua a ser, apesar de aposentado.

Enfim, as duas vertentes do “Culto de/a Lewis” são:

Essas duas instituições, o Wade Center e a Bodleian Library, se comprometeram a compartilhar os seus recursos através de cópias da melhor qualidade possível, de modo que o ambas pudessem ter uma cópia completa, ou quase, do acervo.

Não haveria problema em haver dois Centros de alta qualidade acumulando documentos e memorabilia de C S Lewis. Pelo contrário: a duplicação é benéfica. O problema é que cada um desses centros está tentando a construir uma narrativa acerca de C S Lewis, e uma imagem dele, aquilo que A N Wilson chama de “uma mitologia”, que não corresponde ao C S Lewis real.

De um lado, em Wheaton, que é um college evangélico-conservador, o fumo, a bebida,  o uso de palavrões, etc., tudo isso é condenado. No entanto, Lewis é uma pessoa que fumava três maços de cigarro por dia, e, nos intervalos, fumava um cachimbo, que bebia cerveja em doses generosas, bem como bebidas bem mais forte, que não hesitava, dependendo do contexto, em usar palavrões e contar piadas de gosto duvidoso, que, se confirmada a história do relacionamento entre ele e Mrs. Moore, teve um relacionamento prolongado com uma mulher casada, que nunca se divorciou, e que, depois, se apaixonou por uma mulher que era separada, antes de seu divórcio se concretizar, vindo a se casar com ela quando o divórcio foi finalizado. Isso tudo, apesar de ter afirmado, em Mere Christianity, que o Cristianismo só admite relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência, e que o Cristianismo não admite o divórcio, com a consequência de que um casamento de um solteiro com uma pessoa divorciada, ou um segundo casamento de uma pessoa divorciada, se consumado, implica em adultério (vide a esse respeito meu artigo “O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis”, em meu blog C S Lewis Space, em https://cslewis.space/2020/07/02/o-cristianismo-tem-uma-visao-unica-do-casamento-a-proposito-das-ideias-e-da-vida-de-c-s-lewis/). Diante desses fatos, essas características inegáveis da vida de Lewis (fumar, beber, linguagem de mau gosto, etc.) têm de ser, se não ignoradas, desenfatizadas e abrandadas na narrativa evangélica, para que Lewis, que inegavelmente é um ícone do evangelicalismo americano, possa parecer menos incoerente com o ideário evangélico.

De outro lado, o grupo que reconhece o inegável papel de Hooper na preservação da memória e das ideias de C S Lewis, têm que conviver com um processo de quase beatificação de Lewis. Nesse processo, Hooper não só tem negado que Lewis viveu maritalmente com Mrs. Moore, o que muita gente nega, mas tem sugerido que ele chegou virgem ao seu casamento com Joy Davidman, e, que, depois de casado com ela, não consumou o casamento, tendo vivido até a morte em virgindade perpétua… Acontece, que para poder, se não afirmar, mesmo sugerir isso, Hooper afronta evidência manifesta ao contrário deixada, por escrito, não só por Joy Davidman Lewis, mas pelo próprio C S Lewis.

Como diz A N Wilson, nem o Lewis dos Evangélicos, nem o Lewis dos Católicos, corresponde ao Lewis real, ao Lewis histórico, por assim dizer, que foi uma pessoa de caráter bom e generoso — mas que não foi, em sua vida, nem o evangélico ideal nem o santo que estão tentando fazer dele. Isso em relação à sua pessoa. Em relação às suas ideias, elas não conflitam com os ideários evangélico e católico — embora bem menos no primeiro caso do que no segundo.

Para fechar este capítulo do que será um trabalho maior, cito algumas passagens da primeira biografia de Wilson:

“As disputas entre estudiosos e guardiães da memória de C. S. Lewis não são edificantes, mas elas refletem muito mais do que um debate acadêmico ou um desejo mercenário de ter mais manuscritos valiosos. Na verdade, a despeito do que alguns cínicos afirmam, parece não haver avareza nesses embates. O que emerge é uma profunda divergência de visões imaginativas de mitologias rivais. Aqueles que têm podido testemunhar o espetáculo têm sido capazes de observar, em microcosmo, algo que talvez seja sintomático do pensamento religioso como um todo: a necessidade de construir imagens e adorá-las. O Marion E. Wade Center do Wheaton College mantém viva a imagem de um Lewis evangélico, simples em sua devoção a um ‘mero Cristianismo’, e preocupado com questões teológicas, quase de forma exclusiva, sem quase nenhum outro interesse. Não é uma imagem totalmente falsa. O próprio Lewis ajudou a construir essa ‘persona‘, tanto nos escritos religiosos que ele publicou como nas cartas que ele enviou às pessoas que, aos milhares, lhe escreviam pedindo ajuda para sua busca religiosa. [ . . . ] Mas há algo que chega perto de uma farsa quando se constata a discrepância que existe entre o que se propõe e a realidade. O mesmo sentimento de choque surge quando se participa de uma reunião da C. S. Lewis Society de Oxford, com a presença da Walter Hooper, onde um C. S. Lewis celibatário e defensor da ‘High Church’ é reverenciado. A evidência é apenas de interesse periférico quando a imaginação idólatra está em ação. [ . . . ] Como disse um outro dos autores do panteão de Wheaton, ‘A espécie humano não pode suportar uma dose muito grande de realidade’. [ . . . ] C. S. Lewis se tornou uma figura mitológica, e, portanto, parece legítimo para algumas pessoas recontar sua história sem levar muito em conta a evidência empírica, da mesma forma que os poetas contaram e recontaram as histórias da mitologia grega ou nórdica”.

É legítimo perguntar: ou da mesma forma que os evangelistas contaram a história de Jesus?

Fico por aqui nesta resenha de biografias…

Em Salto, no dia 4 de Julho de 2020 (Dia da Independência Americana), com uma pequena adição, também em Salto, em 19 de Novembro de 2020.

O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis

Conteúdo

  1. Preâmbulo.
  2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento
  3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

1. Preâmbulo

Meu interesse neste artigo está mais na biografia de C S Lewis — suas ideias e sua vida — do que na questão de como o cristianismo, em especial o protestantismo, encara o casamento. Em suma: neste artigo estou, aqui, mais interessado no subtítulo do que no título que dei ao artigo.

Já discuti a questão de diferentes visões do casamento dentro do cristianismo, em geral, e do protestantismo, em particular, abordando quase todas as questões que lhe são conexas, como poligamia, monogamia, divórcio, sexo, virgindade, celibato clerical, casamento entre pessoas do mesmo sexo, incesto, o que hoje se chama de poliamor, etc., em vários artigos no meu blog Liberal Space. O leitor interessado no que penso sobre o assunto pode consultar alguns desses artigos que a seguir listo, em ordem cronológica:

Tenho ainda um artigo sobre C S Lewis, que não menciona suas ideias sobre o casamento nem o fato de seu casamento tardio, que pode ser consultado por quem não está muito certo acerca de quem foi o homem:

Recentemente (dois dias atrás, antes de escrever este artigo), publiquei um outro artigo sobre C S Lewis, este no meu blog “carro chefe”, Chaves Space, que é, entre outras coisas, um blog meio autobiográfico:

2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento

É virtualmente impossível discutir casamento sem discutir sexo. Vou me limitar aqui a resumir o que C S Lewis afirma sobre sexo e casamento, da perspectiva da moral cristã, em Mere Christianity (Cristianismo Puro e Simples, anteriormente A Razão do Cristianismo, em Português), seu livro de não ficção mais famoso, que consiste, basicamente, da edição de uma série de falas pelo rádio que C S Lewis transmitiu, durante a Segunda Guerra, a convite da emissora, pela BBC, de 1942 a 1944, visando, em especial, as tropas britânicas em guerra no Continente Europeu. Revisadas e ampliadas, elas foram inicialmente publicadas em três livros, um por ano, e, posteriormente, em 1952, em um só volume com o título que ficou famoso e consagrou o autor como um dos maiores apologetas do cristianismo no século 20.

Nos Capítulos 5 e 6 do Livro III desse seu best seller, que têm como títulos, respectivamente, “Moralidade Sexual” e “O Casamento Cristão”, Lewis discute sexo e casamento a partir daquela que ele entende como a perspectiva cristã. O Livro III de Cristianismo Puro e Simples tem como título “O Comportamento Cristão” (“A Conduta Cristã”, na tradução brasileira publicada pela Martins Fontes, 3a edição, 2009; citações e referências segundo essa edição).

Embora C S Lewis tenha sido, depois do período em que foi ateu, membro da Igreja Anglicana, que é uma igreja até certo ponto fruto da Reforma Protestante, o ponto de vista de Lewis acerca do sexo e do casamento, é, em alguns aspectos, mais semelhante ao ponto de vista da igreja católica do que do ponto de vista das igrejas protestantes, “s’il y en a” — isto é, se é que há um único ponto de vista que possa ser caracterizado como sendo das igrejas protestantes, como um bloco.

a. A Moralidade Sexual Cristã

A moralidade sexual cristã é discutida por Lewis a partir da perspectiva da virtude da castidade (virtude essa que, reconhece ele, “é a menos popular das virtudes cristãs” – p.126). No entender dele, essa virtude, em sua essência, prescreve, no tocante ao sexo, a seguinte regra de conduta: “Ou relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência” (p.126; alterei aqui, levemente, o texto da tradução e acrescentei o negrito). Tertium non datur — não existe outra opção. Assim, não há como o cristão possa escapar dessa alternativa.

Mas, é forçoso reconhecer, e Lewis o reconhece, essa regra conflita com os impulsos, apetites e desejos sexuais da maioria das pessoas. Diante disso, ele se vê levado a construir mais esta alternativa: ou o cristianismo está totalmente errado em relação a essa questão, ou nossos impulsos, apetites e desejos sexuais estão seriamente corrompidos e deturpados. Ele, naturalmente, como cristão, não acredita que a primeira opção seja verdadeira: logo, aceita a segunda (p.126).

Para Lewis, a sexualidade humana existe para que nós, humanos, possamos nos reproduzir e, assim, dar continuidade à espécie, povoando a terra: “o objetivo biológico do sexo são os filhos”, diz ele (p.126). Segundo ele acredita, no plano biológico não haveria nenhuma outra razão para a existência de nossa sexualidade. A obtenção de prazer não faz parte da razão de ser do sexo, se este é visto do ângulo exclusivamente biológico — mesmo que o prazer em regra acompanhe o ato sexual.

Na visão de Lewis, não há nada de errado ou imoral nessa forma sexuada de reproduzir a espécie humana, nem no prazer que os seres humanos em geral sentem ao praticar o ato sexual. Diz ele:

“Bem sei que que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo. [ … ] O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião.  Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.” (p.130).

Mas isso não quer dizer que tudo esteja em ordem com os nossos impulsos, apetites e desejos sexuais. Eles existem, é forçoso reconhecer, mas sua concretização precisa ser controlada e disciplinada: o atendimento deles precisa ser regrado, isto é, submetido a regras. A razão pela qual nossos impulsos, apetites e desejos sexuais precisam ser controlados está no fato de que eles foram corrompidos e pervertidos pelo pecado original de nossos primeiros pais. Para que possamos ser curados do pecado que o atendimento desregrado de nossos impulsos, apetites e desejos sexuais provoca é preciso, em primeiro lugar e acima de tudo, que queiramos ser curados. No entanto, “para o homem moderno até mesmo esse desejo [de querer ser curado] é difícil de ter”. (pp.130-131).

A dificuldade em resistir à tentação de uma vida sexual desregrada, ou em tentar ser curado dela, caso já tenhamos a ela sucumbido, se explica de várias maneiras.

Em primeiro lugar, porque tendo nossa natureza sido corrompida pela queda, a publicidade e a propaganda modernas, que certamente não duvidam disso, apelam para a nossa natureza pervertida, tentando nos convencer de que é a resistência aos nossos impulsos, apetites e desejos sexuais que representa uma anomalia — e não os impulsos, apetites e desejos, em si… (pp.131-132). Essa tese é falsa, segundo Lewis — embora parta de uma verdade. A verdade é que o sexo, em si, praticado como deve ser praticado, dentro da regra da castidade cristã, é algo bom. Contudo, praticado fora dessa regra, o sexo se torna pervertido e anômalo. Qualquer ato sexual que não esteja coberto pela regra de castidade é pecaminoso. Para ele, não há como fugir disso. Ao sugerir que todo impulso, apetite e desejo sexual deve ser satisfeito, porque sua não satisfação é danosa à nossa saúde mental, e, assim, à nossa natureza humana, a publicidade e a propaganda modernas invertem as coisas. O que é danoso à nossa natureza humana é, segundo Lewis, o sexo desregrado.

Em segundo lugar, é difícil querer ser controlado nessa área porque fomos levados a acreditar, erroneamente, que o ideal cristão da castidade é inalcançável, posto que utópico, estando acima das forças humanas (p.133). Lewis reconhece que a “castidade perfeita”, assim como a “caridade perfeita”, “não será alcançada pelo mero esforço humano”, sem a ajuda divina. O fato de ser necessária a ajuda de Deus para alcançar o ideal cristão da castidade não deve de modo algum levar as pessoas ao desânimo, provocar o abandono do ideal, fazendo com que se acomodem “com qualquer coisa que não a perfeição” (pp.133-134). Para ele, a verdade é que o ser humano é capaz de prodígios quando seriamente decide e tenta fazer aquilo que Deus prescreve e espera dele (p.134).

Em terceiro lugar, a cultura moderna, especialmente a incorporada em algumas tendências psicológicas, pretende combater formas repressivas de vida e acusa o cristianismo de reprimir a vida sexual das pessoas que optam por segui-lo. Segundo Lewis, há um engano nesse entendimento da repressão. Reprime-se algo, como um pensamento ou uma conduta, quando se tenta esconder esse algo no fundo do inconsciente (ou subconsciente), negando a sua ocorrência ou existência, e, assim, fazendo com que aquilo cuja ocorrência ou existência foi negada possa reaparecer de uma outra forma, com uma feição diferente. Reconhecer a ocorrência ou existência de um impulso, apetite ou desejo pecaminoso, e livre e conscientemente decidir resistir a ele, não sucumbindo ao que ele tenta nos induzir a fazer, nada tem de repressão. Muito pelo contrário: é um exercício exemplar de nosso livre arbítrio. É isso que afirma Lewis (pp.145-135).

Lewis termina esse capítulo com uma passagem lapidar, que, a seu ver, coloca as coisas em perspectiva:

“Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito do sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. É por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. É claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.” (pp.135-136).

b. O Casamento Cristão

Coerente com essa visão da moral sexual cristã, Lewis vê o casamento cristão, instituído, segundo ele acredita, pelo próprio Deus, na criação do homem, como tendo a finalidade de permitir que os seres humanos procriem, de forma regrada, assim se multiplicando e povoando a terra. É por isso que, para ele, o único lugar correto da atividade sexual humana, no cristianismo, é a instituição do casamento (p.137).

Lewis reconhece que essa visão é, hoje, e, talvez sempre tenha sido, “extremamente impopular”. Reconhece ainda que, não sendo casado na ocasião em que escreveu o livro, não discorria sobre o assunto por experiência própria. Mas alegou que esse fato não o impedia de discutir a questão (p.137).

Afirma ele que a Bíblia, ao afirmar que, no casamento, o homem e a mulher se tornam uma só carne, quis sublinhar o fato de que o casal se torna como se fosse um só organismo, com duas metades. Diz ele:

“O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo.” (p.138).

Embora não seja óbvia a inferência, Lewis conclui, dessas considerações, que o casamento cristão “deve durar a vida toda”, não admitindo o divórcio. Reconhece ele, ao afirmar isso, que existem divergências entre as igrejas cristãs em relação a essa questão. Diz ele:

“Algumas [igrejas cristãs] não admitem o divórcio em hipótese alguma; outras o admitem com relutância em casos específicos. É uma grande lástima que os cristãos divirjam quanto a essa questão; para um leigo, porém, o fato a notar é que, no que diz respeito ao casamento, todas as igrejas concordam muito mais umas com as outras do que concordam com o que vem do mundo exterior. Todas encaram o divórcio como se fosse algo que cortasse ao meio um organismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. [ … ] O que todas elas repudiam é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parceiros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas uma pela outra, ou quando uma delas se apaixona por outra pessoa.” (pp.138-139).

A principal razão que Lewis invoca para negar que, na visão cristã, o divórcio seja uma possibilidade na situação em que, não só a paixão inicial, mas o próprio amor deixa de existir, é que, quando o casamento cristão tem lugar, os nubentes se prometem ficar juntos, quaisquer que sejam as circunstâncias, “até que a morte os separe”. Essa promessa dá, ao casamento cristão, na opinião de Lewis, uma dimensão jurídica, que, na hipótese de um divórcio desejado unilateralmente, por apenas uma das partes, criaria uma injustiça para com a outra parte. O argumento de Lewis, porém, não parece provar que uma promessa feita entre duas pessoas de ficar juntas até que a morte as separe não possa ser rescindida ou revogada, vale dizer, desfeita, de comum acordo entre as partes, sem que haja injustiça para com uma delas — a menos, talvez, que se revista o casamento cristão de um caráter sacramental adicional, como o faz a Igreja Católica (mas não as igrejas protestantes), que torna o casamento  mais do que um contrato entre os nubentes, transformando-o em um pacto transcendente que envolve os dois e Deus, este representado pela igreja, na pessoa do sacerdote que oficia o casamento.

Enfim, como se mostrará no capítulo seguinte, anos depois C S Lewis veio a se tornar vítima de seu próprio argumento, quando solicitou que a sua igreja, a igreja anglicana, realizasse o seu casamento com uma mulher divorciada.

Para concluir este capítulo, mais dois elementos interessante na posição de C S Lewis.

O primeiro elemento diz respeito à sua proposta de que haja, num país que não é oficial ou majoritariamente cristão, dois tipos de casamento. Diz ele:

“Antes de deixar a questão do divórcio, gostaria de esclarecer a distinção entre duas coisas que geralmente se confundem. Uma delas é a concepção cristã de casamento; a outra, completamente diferente, é se os cristãos, enquanto eleitores ou membros do Parlamento, devem impor sua visão do casamento sobre o restante da comunidade, incorporando essa visão às leis estatais que regem o divórcio. Um grande número de pessoas parece pensar que, se você é cristão, deve tentar tornar o divórcio difícil para todo o mundo. Eu não penso assim. Pelo menos creio que ficaria bastante zangado se os muçulmanos tentassem proibir que o restante da população tomasse vinho. Minha opinião é que as igrejas devem reconhecer francamente que a maioria dos britânicos não são cristãos, e, portanto, que não se deve esperar que levem uma vida cristã. Deve haver dois tipos distintos de casamento: um governado pelo Estado, com regras aplicáveis a todos os cidadãos, e outro governado pela igreja, com regras que ela mesma aplica a seus membros. A distinção entre os dois tipos deve ser bastante nítida, de tal forma que se saiba sem sombra de dúvida quais casais são casados pela igreja e quais não.” (p.148).

Concordo 100% com C S Lewis em relação a essa questão. Em dois dos artigos mencionados no Preâmbulo (Capítulo 1), defendo exatamente o mesmo ponto de vista. Os artigos são estes, e eles defendem um ponto de vista bem mais radical do que o C S Lewis:

Mas C S Lewis foi severamente criticado, até por grandes amigos seus, como J R R Tolkien, autor de Lord of the Rings (Senhor dos Anéis), por defender a ideia de um “duplo casamento”. Vide, a propósito, o artigo “Why C.S. Lewis Was Wrong on Marriage (and J.R.R. Tolkien Was Right)”, de Jake Meador, em Mere Orthodoxy (interessante o nome do site…), no endereço https://mereorthodoxy.com/why-c-s-lewis-is-wrong-on-marriage/.

O segundo elemento tem que ver com sua defesa de que o casal casado pela igreja deva ter uma “cabeça”, ou chefia, ou liderança, alguém que decide quando os dois discordam, e que esse cabeça deva ser o homem. Diz ele:

“(1) Por que a necessidade de uma ‘cabeça’ – por que não a igualdade? [ … ] Na medida em que o marido e a esposa estão de acordo, a necessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fazer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da ideia de que tentaram fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. [ … ] Se o casamento é permanente, [como é o caso do casamento cristão,] uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir a política familiar.” (p.149).

“(2) Por que a ‘cabeça’ deve ser o homem?” (p.149). “As esposas cristãs fazem o voto de obedecer ao marido.” (p.148). “Deve haver algo de antinatural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam o marido que se submete. [ … ] As relações da família com o mundo exterior — o que poderíamos chamar de política externa — devem depender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mundo. [ … ] A mulher é a curadora especial dos interesses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predominar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa.” (pp.149-150).

Sem comentários, a não ser um que nada tem que ver com a questão do casamento cristão, em si, mas, sim, com a questão da hermenêutica, ou seja, da interpretação bíblica.

C S Lewis é razoavelmente coerente em sua interpretação da Bíblia. No geral, o Novo Testamento, Jesus, nos Evangelhos, e Paulo, na primeira carta aos Coríntios, é contra o divórcio, mas reconhece que às vezes ele é virtualmente inevitável (como no caso de adultério, por exemplo). Paulo, em particular, ao admitir a possibilidade do divórcio, é contra um outro casamento. Muitos cristãos conservadores, dentro e fora do protestantismo, concordam com Paulo e com C S Lewis a esse respeito, apelando para o texto bíblico. Mas quando se trata de a mulher obedecer ao marido, que seria o cabeça do casal, algo que está contido no mesmíssimo Novo Testamento, boa parte dessas pessoas refuga, mesmo sendo conservadora — em especial, no caso das mulheres. Por que dois pesos e duas medidas? Por que aceitar a oposição ao divórcio e recusar-se a aceitar a submissão ao marido, se ambas as posições têm fundamentação bíblica? C S Lewis é coerente, e usa um só peso e uma só medida. Mas é criticado por fazer isso, em geral pelas mulheres.

3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

Para quem já leu alguma biografia de C S Lewis, e há inúmeras, ou para quem já assistiu ao belíssimo filme Shadowlands, que conta um pedaço de sua vida, o período em que ele ficou conhecendo a escritora judia americana Joy Davidman Gresham, e, oportunamente, se apaixonou por ela e com ela se casou, já imagina a questão que vou levantar aqui, de forma sucinta.

Quando Lewis começou a se corresponder com Joy, no início do ano de 1950, por iniciativa dela (ele recebeu a primeira carta dela em 10.1.1950), ele ficou bastante impressionado com ela, e ela ainda mais com ele, cujos livros haviam sido o principal instrumento de sua conversão ao cristianismo, depois de perambular pelo comunismo e pelo ateísmo. A conversa entre os dois evoluiu bastante e rapidamente (Lewis era um compulsivo escrevedor de cartas), e Joy trocava ideias com ele sobre um livro que estava escrevendo sobre o Sermão da Montanha. Ela, que tinha dois filhos com menos de dez anos, e estava tendo dificuldades em seu casamento (o marido, também escritor, era alcoólatra, dado a violência, chegado ao abuso verbal, e contumaz mulherengo), num dado momento resolveu ir visitar Lewis em Oxford. Em Agosto de 1952 ela viajou de navio para a Inglaterra, onde chegou no final do verão europeu. Encontraram-se pela primeira vez em 24.9.1952, para um almoço outonal. Nos mais de três meses que ela permaneceu na Inglaterra, eles se encontraram amiúde, tendo ela até mesmo sido hóspede em sua residência durante quinze dias no período das festas de fim de ano. (Registre-se que ela havia deixado os filhos em Nova York, com uma parente que se dispôs a ficar em sua casa cuidando deles para ela). No final de 1952, enquanto gozava da hospitalidade de Lewis, Joy recebeu uma carta do marido pedindo divórcio, por ter se apaixonado pela parente de Joy, que cuidava dos seus filhos. Isso precipitou o retorno de Joy para os Estados Unidos, no início de Janeiro de 1953. O divórcio foi levado adiante, mas se arrastou. Antes de ser concedido, Joy, em Novembro daquele ano de 1953, voltou para a Inglaterra, passando a morar em Londres, agora com os dois filhos, David e Douglas, que tinham, respectivamente, nove e oito anos, tendo nascido em 1944 e 1945. Joy tinha 38 anos na ocasião (nasceu em Abril de 1915) e Lewis completou 55 naquele mês de Novembro (nasceu em 1898).

O inevitável aconteceu. Joy ficou apaixonada por Lewis, que, no entanto, embora muito interessado nela como parceira intelectual, tinha por ela, segundo tudo indica, apenas uma grande admiração e um afeto platônico. Em Agosto de 1954 o divórcio dela foi consumado. A situação econômica dela na Inglaterra se deteriorou, porque o ex-marido deixou de pagar pensão para os filhos, e Lewis precisou socorrê-la, alugando uma casa para ela em Oxford. Provavelmente o relacionamento continuaria no mesmo pé se o visto de Joy não estivesse por expirar. Ela teria de voltar para os Estados Unidos, a menos que se casasse com um britânico. Lewis resolveu se casar com ela, apenas no papel, e em segredo, em um gesto humanitário, para que ela pudesse permanecer na Inglaterra com os filhos, como desejava. O casamento secreto aconteceu em 23 de abril de 1956.

Mas o destino, mestre em dar nós, interveio… Ou, quem sabe, tenha sido a providência divina, agindo, de forma misteriosa, para frustrar a ortodoxia humana… Em Outubro daquele ano, seis meses depois do casamento secreto, Joy descobriu que estava com câncer, já em estado avançado. Aparentemente o câncer havia surgido no seio, mas se espalhou para o sistema ósseo e evoluiu rapidamente, a ponto de os médicos lhe darem pouco tempo de vida. Esse fato chocou Lewis, que, traumatizado, diante da possibilidade de ela vir a falecer em pouco tempo, resolveu se casar com ela para valer, com a bênção da igreja anglicana e tudo.

Nesse ponto começou o drama que colocou a vida de Lewis em conflito com o que ele havia escrito em 1943 sobre o casamento cristão e o divórcio… Lewis consultou o bispo de sua região se poderia receber autorização para se casar com Joy, uma divorciada, e a permissão foi negada. Lewis se viu obrigado a argumentar, casuisticamente, que o casamento anterior de Joy não podia, à luz da doutrina da igreja, ser considerado válido, porque seu primeiro marido já era divorciado quando ela se casou com ele. Se a Igreja Anglicana não reconhecia a validade de casamentos em que pelo menos um dos “casantes” era divorciado, o casamento anterior dela era claramente inválido e, por conseguinte, ela poderia se casar com Lewis… O argumento, apesar de logicamente bem construído, não convenceu o bispo. Lewis, diante da iminência da morte de Joy, recorreu a um pastor anglicano que havia sido seu aluno e que se deixou persuadir pela sua lógica…  Em 21 de Março de 1957, cerca de onze meses depois do casamento civil, realizou-se o casamento cristão de Lewis e Joy, em pleno hospital em que ela estava internada, e à revelia de seu bispo. No dia seguinte o mundo que admirava Lewis ficou chocado com um breve comunicado do casamento no jornal.

Em Abril, os médicos liberaram Joy da internação para que pudesse morrer em casa, ao lado do marido e dos filhos. Ela se mudou para a casa de Lewis, adaptada, rapidamente, para recebê-la. E daí o que Lewis considerou um milagre aconteceu. Ele vinha orando para que Deus pelo menos aliviasse a dor de Joy, ainda que fosse necessário transferi-la para ele. E, como se a vida imitasse a arte, ele começou a sofrer dores terríveis nas pernas (local mais severamente atingido pelo câncer de Joy), diagnosticadas como decorrentes de osteoporose, e ela começou a melhorar, contra todas as expectativas médicas! Em Dezembro daquele ano ela conseguiu até mesmo a voltar a andar… Em Junho de 1958 os médicos declararam que a progressão do câncer havia sido interrompida e Lewis e Joy puderam até mesmo, e finalmente, ter sua viagem de lua-de-mel para a Irlanda, terra natal de Lewis. Mas em Outubro de 1959 o câncer retornou com violência e em 13 de Julho de 1960 ela faleceu, deixando a vida de Lewis em crise — não só pelo sofrimento de sua perda mas também em decorrência de sua própria doença, que não o abandonou…

Lewis veio a falecer um pouco mais de três anos depois de Joy, em 22 de Novembro de 1963, dia em que o Presidente John F. Kennedy, e o escritor G. K. Chesterton, este um amigo e colega de Lewis, também faleceram. Os filhos de Joy já tinham 19 e 18 anos, respectivamente, na ocasião. O mais novo acompanhou Lewis até o fim da vida dele e escreveu uma história do relacionamento de sua mãe com Lewis e uma biografia de Lewis.

[Os dados sobre as datas dos acontecimentos retirei da Cronologia da Vida de C S Lewis, contida no livro C. S. Lewis: Companion & Guide, de Walter Hooper, que também é coautor de uma biografia de Lewis. Os títulos dos livros de Douglas Gresham são Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidson and C. S. Lewis (de 1988) e Jack’s Life: The Life Story of C. S. Lewis (de 2005; Jack era o apelido pelo qual C S Lewis era chamado por todos os seus amigos).

Se o leitor está com lágrimas nos olhos, não deixe de ver Shadowlands. Vai chorar ainda mais diante das brilhantes e comoventes interpretações de Anthony Hopkins e Debra Winger.

Ironias do destino. Como diz Jake Meador no artigo já citado, será difícil encontrar um caso mais apto e pungente em que a vida obrigou um grande autor a engolir algumas das coisas que havia escrito.

Em Salto, 20 de Junho de 2020 – dia em que começa o inverno no Brasil e o verão, na terra que foi de C S Lewis.

Livros de C S Lewis que foram importantes em minha vida…

Dias atrás, em 16.6.2020, meu jovem amigo Carlos Eduardo Martins, seminarista em final de curso no Seminário Presbiteriano de Campinas, que eu também frequentei, e que tem em C S Lewis seu escritor favorito (para mim ele é um dos favoritos), fez o seguinte desafio em sua linha do tempo (às vezes chamada de perfil) no Facebook:

“Aproveitando que recentemente conversei um pouco sobre C S Lewis, vai mais um desafio. E agora é sobre o próprio C S Lewis. Aos amantes de Lewis, quais são os três livros dele que vocês mais gostam?

Eis o meu “pódio”:

3º) O Grande Abismo [The Great Divorce, em Inglês] – Para mim, é um dos livros mais geniais que já li. A forma como Lewis desenha diante de nossos olhos a condição dos preteridos é incrível. Foi o livro (não bíblico) que mais citei nos sermões que preguei até hoje.

2º) “As Crônicas de Nárnia: O Cavalo e Seu Menino” – A meu ver, é de longe a melhor das crônicas. O ponto alto do livro é quando Shasta e Aslam se encontram. Chorei rios quando li.

1º) “Até Que Tenhamos Rostos” – Jamais li qualquer coisa parecida. A releitura que Lewis fez da lenda de Cupido e Psiquê resultou numa obra que concentra, a meu ver, toda a genialidade de C S Lewis. É um livro que fiz questão de ler para a minha namorada, Iehonalla.

Se eu tivesse lido apenas um dos livros acima, eu já teria lido o suficiente para ser apaixonado por C S Lewis. São incríveis.

Mas e aí, quais são os seus preferidos?”

Entre os convocados a se manifestar, estava eu, e me manifestei neste sentido, no mesmo dia, com direito a pequenas revisões nos dias seguintes:

“Gosto basicamente de todos os livros dele, até mesmo (ou especialmente) das cartas… Reduzir a preferência a três é difícil… Assim, resolvi ‘dobrar a meta’ e expandir minha lista para seis livros… (com a devida vênia do Carlos Eduardo e da Dilma Rousseff, criadora da expressão ‘quando a gente alcança a meta, a gente dobra a meta’).

1) The Abolition of Man, porque trata da educação no contexto da modernidade, e trata a educação de uma forma que considero basicamente correta, como uma luta da racionalidade, na busca da verdade, do bem e da beleza, contra o ceticismo e o relativismo, em suas versões radicais.

2) Mere Christianity, porque foi o primeiro livro dele que eu li, quando o título em Português ainda era A Razão do Cristianismo, em vez de Cristianismo Puro e Simples, e porque é uma apresentação simples e inteligível de questões importantes da teologia cristã, para que o cristão entenda melhor a sua fé e o não cristão, na maior das vezes ex cristão, possa se sentir movido a adotá-la, ou a readotá-la.

3) Till we Have Faces, porque é uma excelente obra de ficção para adultos — concordo plenamente com a avaliação do Carlos Eduardo aqui, que os casais deveriam ler esse livro juntos.

4) Miracles, porque talvez seja o melhor tratamento, basicamente filosófico, de uma questão teológica importante, escrito por ele, questão essa sobre a qual escrevi um longo artigo, quando ainda estudante, e que se tornou um dos meus primeiros artigos publicados, depois de eu vir para a UNICAMP em 1974.

5) An Experiment in Criticism, porque é um excelente ensaio sobre o tema do qual ele era especialista, a saber, literatura: um livrinho fino que trata de questões importantes, especialmente para quem passa a vida em meio a livros, lendo-os e escrevendo-os.

6) Surprised by Joy, porque é uma autobiografia da primeira parte da vida dele e eu gosto muito de biografias, em geral, e de autobiografias, em particular, e ele trate de sua perda de fé e de sua recuperação da fé, em novos termos.”

Carlos Eduardo generosamente comentou:

“Os limites sempre são pequenos demais para o senhor. Para o senhor, somente o céu é o limite. Só o céu para que o senhor não pense em dobrá-lo.

Gostei demais da lista, Mestre. Sempre me perguntei que avaliação o senhor daria ao ‘A Abolição do Homem’. Agora, finalmente, tive a resposta.”

A esse comentário eu respondi assim:

“Carlos Eduardo:

Eu me entusiasmo…

Os dois primeiros livros de C S Lewis que eu comprei foram:

* Razão do Cristianismo (Mere Christianity], em 18.8.64

* Cartas do Inferno (Screwtape Letters), em 13.10.1964

Preste atenção às datas… Comprei-os na Biblioteca do Seminário de Campinas, que tinha uma pequena Livraria. O Diretor da Biblioteca e Bibliotecário, bem como Gerente da Livraria, era o Prof. Dr. Rev. Waldyr Carvalho Luz.

O terceiro livro dele que eu obtive (como um presente de Natal) foi:

* A Grief Observed

Ganhei o livro de presente de Natal de Susan Brownlee em 25.12.1968, meu segundo ano nos Estados Unidos. Eu era ‘Student Pastor‘ (algo parecido ao que o Carlos Eduardo Martins é na Igreja Presbiteriana de Salto) na (então assim chamada) United Presbyterian Church of the USA na cidade de Evans City, PA. Susan era filha do Rev. John T. Brownlee, do qual eu fui assistente durante o ano de 1968. Passei o Natal na casa deles e ganhei esse livro de presente.

Capas de livros de C S Lewis

Só muitos anos depois vim a ver o filme Shadowlands e resolvi investir na leitura dos demais livros de Lewis (e os de Joy Davidman, depois Joy Davidman Gresham, e depois ainda Joy Davidman Lewis). [Vide: https://www.imdb.com/title/tt0108101/%5D.

Hoje tenho 90 livros (incluindo na conta as duplicatas e triplicatas, bem como as traduções para o Português e os e-books) DE ou SOBRE Lewis (e mais vários PDFs e inúmeros PodCasts). Lewis é um dos autores com os quais ganho mais tempo (ganho, porque o tempo que se gasta lendo Lewis nunca é perdido: é sempre ganho — investimento puro, pessoal e profissional).”

É isso. Como não raro faço, achei conveniente transformar a troca no Facebook em um artigo de blog para me proteger das loucuras de Mark Zuckerberg, que, nos últimos tempos, tem fechado contas à torto e à direito, sem a menor justificativa e sem dar aos prejudicados o direito sequer de se se defender, contra-argumentando.

Em Salto, 19 de Junho de 2020.

Livros de/sobre C S Lewis que eu Tenho (20200521)

LIVROS DE LEWIS QUE EU TENHO

C S Lewis, A Abolição do Homem (The Abolition of Man) [Printed] **

C S Lewis, A Grief Observed [Printed] **

C S Lewis, A Grief Observed [Printed] ** +

C S Lewis, A Última Noite do Mundo e Outros Ensaios (The World’s Last Night and Other Essays) [Printed] ** +

[01] A Eficácia da Oração

[02] Sobre a Obstinação na Crença

[03] Lírios que Apodrecem

[04] Maldanado Propõe um Brinde

[05] Boa Obra e Boas Obras

[06] Religião e Foguetes

[07] A Última Noite do Mundo

C S Lewis, All my Road Before Me – 1922-1927: The Diary of C. S. Lewis [Printed] ** +

C S Lewis, An Experiment in Criticism [Printed] **

C S Lewis, As Crônicas de Narnia (The Chronicles of Narnia) [Printed] **

C S Lewis, Até que Tenhamos Rostos: A Releitura de um Mito (Till we Have Faces: A Myth Retold) [Printed] **

C S Lewis, Cartas do Inferno (Screwtape Letters) [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, Cartas a uma Senhora Americana (Letters to an American Lady) [Printed] **

C S Lewis, Christian Reflections [Kindle E-Book] *

[01] Christianity and Literature

[02] Christianity and Culture

[03] Peace Proposals for Brother Every and Mr Bethell

[04] Religion: Reality or Substitute

[05] On Ethics

[06] De Futilitate

[07] The Poison of Subjectivism

[08] The Funeral of a Great Myth

[09] On Church Music

[10] Historicism

[11] The Psalms

[12] The Language of Religion

[13] Petitionary Prayer: A Problem Without an Answer

[14] Modern Theology and Biblical Criticism

[15] The Seeing Eye

C S Lewis, Cristianismo Puro e Simples (Mere Christianity) [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, Essay Collection on Faith, Christianity and the Church [Kindle E-Book] *

[Part 1] The Search For God

[01] The Grand Miracle

[02] Is Theology Poetry?

[03] The Funeral Of A Great Myth

[04] God In The Dock

[05] What Are We To Make Of Jesus Christ?

[06] The World’s Last Night

[07] Is Theism Important?

[08] The Seeing Eye

[09] Must Our Image Of God Go?

[Part 2] Aspects Of Faith

[10] Christianity And Culture

[11] Evil And God

[12] The Weight Of Glory

[13] Miracles

[14] Dogma And The Universe

[15] ‘Horrid Red Things’

[16] Religion: Reality Or Substitute?

[17] Myth Became Fact

[18] Religion And Science

[19] Christian Apologetics

[20] Work And Prayer

[21] Religion Without Dogma?

[22] The Decline Of Religion

[23] On Forgiveness

[24] The Pains Of Animals

[25] Petitionary Prayer: A Problem Without An Answer

[26] On Obstinacy In Belief

[27] What Christmas Means To Me

[28] The Psalms

[29] Religion And Rocketry

[30] The Efficacy Of Prayer

[31] Fern-Seed And Elephants

[32] The Language Of Religion

[33] Transposition

[Part 3] The Christian In The World

[34] Why I Am Not A Pacifist

[35] Dangers Of National Repentance

[36] Two Ways With The Self

[37] Meditation On The Third Commandment

[38] On Ethics

[39] Three Kinds Of Men

[40] Answers To Questions On Christianity

[41] The Laws Of Nature

[42] Membership

[43] The Sermon And The Lunch

[44] Scraps

[45] After Priggery – What?

[46] Man Or Rabbit?

[47] ‘The Trouble With “X”…’

[48] On Living In An Atomic Age

[49] Lilies That Fester

[50] Good Work And Good Works

[51] A Slip Of The Tongue

[52] We Have No ‘Right To Happiness’

[Part 4] The Church

[53] Christian Reunion

[54] Priestesses In The Church?

[55] On Church Music

[Part 5] Letters

[56] The Conditions For A Just War

[57] The Conflict In Anglican Theology

[58] Miracles

[59] Mr C. S. Lewis On Christianity

[60] A Village Experience

[61] Correspondence With An Anglican Who Dislikes Hymns

[62] The Church’s Liturgy, Invocation, And Invocation Of Saints

[63] The Holy Name

[64] Mere Christians

[65] Canonisation

[66] Pittenger-Lewis And Version Vernacular

[67] Capital Punishment And Death Penalty

C S Lewis, George MacDonald [Printed] **

C S Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics [Kindle E-Book] *

[PART I]

[01] Evil and God

[02] Miracles

[03] Dogma and the Universe

[04] Answers to Questions on Christianity

[05] Myth Became Fact

[06] ‘Horrid Red Things’

[07] Religion and Science

[08] The Laws of Nature

[09] The Grand Miracle

[10] Christian Apologetics

[11] Work and Prayer

[12] Man or Rabbit?

[13] On the Transmission of Christianity

[14] ‘Miserable Offenders’

[15] The Founding of the Oxford Socratic Club

[16] Religion without Dogma?

[17] Some Thoughts

[18] ‘The Trouble with “X”…’

[19] What Are We to Make of Jesus Christ?

[20] The Pains of Animals

[21] Is Theism Important?

[22] Rejoinder to Dr Pittenger

[23] Must Our Image of God Go?

[PART II]

[24] Dangers of National Repentance

[25] Two Ways with the Self

[26] Meditation on the Third Commandment

[27] On the Reading of Old Books

[28] Two Lectures

[29] Meditation in a Toolshed

[30] Scraps

[31] The Decline of Religion

[32] Vivisection

[33] Modern Translations of the Bible

[34] Priestesses in the Church?

[35] God in the Dock

[36] Behind the Scenes

[37] Revival or Decay?

[38] Before We Can Communicate

[39] Cross-Examination

[PART III]

[40] ‘Bulverism’

[41] First and Second Things

[42] The Sermon and the Lunch

[43] The Humanitarian Theory of Punishment

[44] Xmas and Christmas

[45] What Christmas Means to Me

[46] Delinquents in the Snow

[47] Is Progress Possible?

[48] We Have No Right to Happiness

[PART IV]

[49] Letters

C S Lewis, Mere Christianity [Printed] **

C S Lewis, Mere Christianity [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Miracles [Printed] **

C S Lewis, Miracles [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, Miracles [PDF] ***

C S Lewis, Oração: Cartas a Malcom (Prayer: Letters to Malcom) [Printed] **

C S Lewis, Razão do Cristianismo (Mere Christianity) [Printed] **

C S Lewis, Reflections on Psalms [Printed] **  (Pocket)

C S Lewis, Studies in Words [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Surprised by Joy [Printed] **

C S Lewis, The Abolition of Man [Printed] **

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 1 [Printed] **

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 2 [Printed] **

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 3 [Printed] **

C S Lewis, The Four Loves [Printed] **

C S Lewis, The Four Loves [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, The Great Divorce [Printed] **

C S Lewis, The Personal Heresy: A Controversy (with E M W Tillyard) [Printed] **

C S Lewis, The Pilgrim’s Regress [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Problem of Pain [Printed] **

C S Lewis, The Screwtape Letters [Printed] **   [Vr The]

C S Lewis, The Weight of Glory [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The World’s Last Night and Other Essays [Printed] **  [Fill in]

C S Lewis, Till we Have Faces: A Myth Retold [Printed] **

SUB-TOTAL: 39 [Pr 31+ Kn 7+PDF 1]

LIVROS SOBRE LEWIS QUE EU TENHO

A N Wilson, C S Lewis, A Biography [Kindle E-Book] *

A N Wilson, The Man Behind Narnia  [Kindle E-Book] *

Alister E. McGrath, C. S. Lewis: A Life – Eccentric Genius, Reluctant Prophet [Kindle E-Book] *

Alister E. McGrath, The Intellectual World of C. S. Lewis  [Kindle E-Book] *

Armand M. Nichol Jr, Deus em Questão: C. S. Lewis s Freud [Printed] **

Beatrice Gormley, C S Lewis: The Man Behind Narnia [Printed] **

Bob Johnson, An Answer to C S Lewis ‘Mere Christianity [Kindle E-Book] *

Christian History and Biography, C.S. Lewis: His Simple Life and Extraordinary Legacy [Kindle E-Book] *

Corey Latta, C. S. Lewis and the Art of Writing [Kindle E-Book] *

David Baggett et al, C S Lewis as a Philosopher: Truth, Goodness and Beauty [Kindle E-Book] *

David Downing, C S Lewis: O Mais Relutante dos Convertidos [Printed] **

Derick Bingham, A Shiver of Wonder: A Life of C. S. Lewis [Kindle E-Book] *

Douglas H Gresham, Jack’s Life: The Story of C S Lewis [Printed] ** +

Douglas H Gresham, Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidman & C S Lewis [Printed] **

Ênio Starosky, Amor & Educação em C. S. Lewis e Joseph Piper [Printed] **

Gabriele Greggersen, A Magia das Crônicas de Narnia [Printed] **

Gabriele Greggersen, A Pedagogia Cristã na Obra de C S Lewis [Printed] **

Gabriele Greggersen, Antropologia Filosófica de C S Lewis [Printed] **

Gabriele Greggersen, O Evangelho de Narnia [Printed] **

George M. Marsden, C. S. Lewis’s Mere Christianity [Kindle E-Book] *

George Sayer & Lyle W Dorsett, Jack: A Life of C S Lewis [Printed] **

George Sayer & Lyle W Dorsett, Jack: A Life of C S Lewis [Kindle E-Book] *

James T. Como, ed., C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences [Printed] **

Joel D. Heck, From Atheism to Christianity: The Story of C. S. Lewis [Kindle E-Book] *

John Beversluis, C S Lewis and the Search for Rational Religion [Printed] **

Jordan Ferrier, Calvin and C S Lewis: Solving the Riddle of the Reformation [Kindle E-Book] *

Joy Davidman, Out of my Bone: The Letters of Joy Davidman [Printed] ** +

Joy Davidman, Smoke on the Mountain: An Interpretation of the Ten Commandments [Printed] **

Lyle W Dorsett, And God Came in: The Extraordinary Story of Joy Davidman [Printed] ** +

Peter Kreeft, O Diálogo (Entre Kennedy, Lewis e Huxley) [Printed] **

Peter Kreeft, C S Lewis for the Third Millenium [Kindle E-Book] *

Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography [Printed] **

Ruth Jackson, An Analysis of C. S. Lewis’s The Abolition of Man [Kindle E-Book] * (Sample)

Stephen R. Turley, Awakening Wonder: A Classical Guide to Truth, Goodness, and Beauty [Kindle E-Book] *

Stephen R. Turley, Classical Education vs. Modern Education: A Vision from C.S. Lewis [Kindle E-Book] *

Stephen R. Turley, The Abolition of Sanity: C.S. Lewis on the Consequences of Modernism [Kindle E-Book] *

The C S Lewis Encyclopedia [Printed] **  +

The Cambridge Companion to C S Lewis [Printed] **

Victor Reppert, C S Lewis’ Dangerous Idea: In Defense of the Argument from Reason [Kindle E-Book] *

Walter Hooper, C S Lewis: A Complete Guide to His Life and Works [Printed] **   Check title

Wayne Martindale, Beyond the Shadowlands: C S Lewis on Heaven and Hell [Kindle E-Book] *

SUB-TOTAL: 41 [Pr 21+ Kn 20]

TOTAL = 80

(+) Hardbound

20200521

20200521 – 27 Kindle E-Books

20200521 – 52 Books Printed

20200521 – 01 Book PDF

20200512 – 80 Books TOTAL  (39 SUB-TOTAL BY LEWIS, 41 SUB-TOTAL ABOUT LEWIS)

Em Salto, 21 de Maio de 2020

Livros de/sobre C S Lewis que eu Tenho (20131122)

NOTA:

A lista a seguir é de livros de ou sobre C S Lewis que eu possuo, até a data da elaboração da lista, que foi 22/11/2013. (Daquela data até hoje, quase quatro anos, não comprei mais nenhum). Os livros estão listados um por linha,  pelo título, em ordem alfabética, o título aparecendo língua em que eu possuo o exemplar, desprezados artigos definidos ou indefinidos. Indico sempre quando se trata de um e-book o exemplar que eu possuo. Em alguns casos, quando o tinha à mão, forneci o título original em colchetes.

Na primeira categoria estão livros que são uma obra completa, publicada isoladamente. Os títulos dos livros não são precedidos de nada e estão ordenados alfabeticamente.

Na segunda categoria estão livros que são coleções de ensaios ou artigos escritos por C S Lewis. O título dos ensaios ou artigos é fornecido, numerado, dentro de colchetes, na ordem em que aparecem dentro do livro.

Na Terceira categoria estão livros sobre C S Lewis.

Esta lista foi elaborada em 22/11/2013, data em que se comemorava o Jubileu de Ouro – 50 Anos – da Morte de C S Lewis.

Esta lista foi originalmente publicada em meu blog Liberal Space, https://liberal.space, em 22/11/2013, data do Jubileu de Ouro da Morte de C S Lewis, com o título “Livros de C S Lewis que eu tenho (22-11-2013)”, em https://liberal.space/2013/11/22/livros-de-c-s-lewis-que-eu-tenho-22-11-2013/, e foi acompanhada de um artigo sobre os 50 anos da sua morte, com o título “50 Anos Sem C S Lewis (1898-1963)”, em https://liberal.space/2013/11/22/50-anos-sem-c-s-lewis-1898-1963/, que foi republicado aqui como o primeiro post deste blog.

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[Categoria 1]

C S Lewis, A Abolição do Homem [The Abolition of Man. (Ver abaixo)]

C S Lewis, A Grief Observed

C S Lewis, As Crônicas de Narnia [The Chronicles of Narnia]

C S Lewis, Cartas a uma Senhora Americana [Letters to an American Lady]

C S Lewis, Cristianismo Puro e Simples [Mere Christianity]

C S Lewis, George MacDonald

C S Lewis, Mere Christianity

C S Lewis, Mere Christianity (Kindle E-Book)

C S Lewis, Miracles

C S Lewis, Miracles (PDF)

C S Lewis, Oração: Cartas a Malcom (Letters to Malcom)

C S Lewis, Screwtape Letters

C S Lewis, Surprised by Joy

C S Lewis, The Abolition of Man [ver acima, A Abolição do Homem]

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 1

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 2

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 3

C S Lewis, The Four Loves

C S Lewis, The Pilgrim’s Regress  (Kindle E-Book)

C S Lewis, The Problem of Pain

C S Lewis, The Weight of Glory  (Kindle E-Book)

C S Lewis, The World’s Last Night

C S Lewis, Till we Have Faces

C S Lewis, Till we Have Faces (Kindle E-Book)

[Categoria 2]

C S Lewis, Christian Reflections  (Kindle E-Book)

[01] Christianity and Literature

[02] Christianity and Culture

[03] Peace Proposals for Brother Every and Mr Bethell

[04] Religion: Reality or Substitute

[05] On Ethics

[06] De Futilitate

[07] The Poison of Subjectivism

[08] The Funeral of a Great Myth

[09] On Church Music

[10] Historicism

[11] The Psalms

[12] The Language of Religion

[13] Petitionary Prayer: A Problem Without an Answer

[14] Modern Theology and Biblical Criticism

[15] The Seeing Eye

C S Lewis, Essay Collection on Faith, Christianity and the Church  (Kindle E-Book)

[Part 1] The Search For God

[01] The Grand Miracle

[02] Is Theology Poetry?

[03] The Funeral Of A Great Myth

[04] God In The Dock

[05] What Are We To Make Of Jesus Christ?

[06] The World’s Last Night

[07] Is Theism Important?

[08] The Seeing Eye

[09] Must Our Image Of God Go?

[Part 2] Aspects Of Faith

[10] Christianity And Culture

[11] Evil And God

[12] The Weight Of Glory

[13] Miracles

[14] Dogma And The Universe

[15] ‘Horrid Red Things’

[16] Religion: Reality Or Substitute?

[17] Myth Became Fact

[18] Religion And Science

[19] Christian Apologetics

[20] Work And Prayer

[21] Religion Without Dogma?

[22] The Decline Of Religion

[23] On Forgiveness

[24] The Pains Of Animals

[25] Petitionary Prayer: A Problem Without An Answer

[26] On Obstinacy In Belief

[27] What Christmas Means To Me

[28] The Psalms

[29] Religion And Rocketry

[30] The Efficacy Of Prayer

[31] Fern-Seed And Elephants

[32] The Language Of Religion

[33] Transposition

[Part 3] The Christian In The World

[34] Why I Am Not A Pacifist

[35] Dangers Of National Repentance

[36] Two Ways With The Self

[37] Meditation On The Third Commandment

[38] On Ethics

[39] Three Kinds Of Men

[40] Answers To Questions On Christianity

[41] The Laws Of Nature

[42] Membership

[43] The Sermon And The Lunch

[44] Scraps

[45] After Priggery – What?

[46] Man Or Rabbit?

[47] ‘The Trouble With “X”…’

[48] On Living In An Atomic Age

[49] Lilies That Fester

[50] Good Work And Good Works

[51] A Slip Of The Tongue

[52] We Have No ‘Right To Happiness’

[Part 4] The Church

[53] Christian Reunion

[54] Priestesses In The Church?

[55] On Church Music

[Part 5] Letters

[56] The Conditions For A Just War

[57] The Conflict In Anglican Theology

[58] Miracles

[59] Mr C. S. Lewis On Christianity

[60] A Village Experience

[61] Correspondence With An Anglican Who Dislikes Hymns

[62] The Church’s Liturgy, Invocation, And Invocation Of Saints

[63] The Holy Name!

[64] Mere Christians

[65] Canonisation

[66] Pittenger-Lewis And Version Vernacular

[67] Capital Punishment And Death Penalty

C S Lewis, God in the Dock: Essays  (Kindle E-Book)

[Part 1]

[01] Evil and God

[02] Miracles

[03] Dogma and the Universe

[04] Answers to Questions on Christianity

[05] Myth Became Fact

[06] ‘Horrid Red Things’

[07] Religion and Science

[08] The Laws of Nature

[09] The Grand Miracle

[10] Christian Apologetics

[11] Work and Prayer

[12] Man or Rabbit?

[13] On the Transmission of Christianity

[14] ‘Miserable Offenders’

[15] The Founding of the Oxford Socratic Club

[16] Religion without Dogma?

[17] Some Thoughts

[18] ‘The Trouble with “X”…’

[19] What Are We to Make of Jesus Christ?

[20] The Pains of Animals

[21] Is Theism Important?

[22] Rejoinder to Dr Pittenger

[23] Must Our Image of God Go?

[Part 2]

[24] Dangers of National Repentance

[25] Two Ways with the Self

[26] Meditation on the Third Commandment

[27] On the Reading of Old Books

[28] Two Lectures

[29] Meditation in a Toolshed

[30] Scraps

[31] The Decline of Religion

[32] Vivisection

[33] Modern Translations of the Bible

[34] Priestesses in the Church?

[35] God in the Dock

[36] Behind the Scenes

[37] Revival or Decay?

[38] Before We Can Communicate

[39] Cross-Examination

[Part 3]

[40] ‘Bulverism’

[41] First and Second Things

[42] The Sermon and the Lunch

[43] The Humanitarian Theory of Punishment

[44] Xmas and Christmas

[45] What Christmas Means to Me

[46] Delinquents in the Snow

[47] Is Progress Possible?

[48] We Have No Right to Happiness’

[Part 4]

[49] Letters

[Categoria 3]

A N Wilson, C S Lewis: A Biography

Alister McGrath, Mere Apologetics: How to Help Seekers and Skeptics Find Faith (Kindle E-Book)

Alister McGrath: C S Lewis: A Life – Eccentric Genius, Reluctant Prophet (Kindle E-Book)

Alister McGrath: The Intellectual World of C S Lewis (Kindle E-Book)

Beatrice Gormley, C S Lewis: The Man Behind Narnia

Bob Johnson, An Answer to C S Lewis’ Mere Christianity  (Kindle E-Book)

David Baggett et al, C S Lewis as a Philosopher: Truth, Goodness and Beauty (Kindle E-Book)

David Downey, C S Lewis: O Mais Relutante dos Convertidos

Douglas H Gresham, Jack’s Life: The Story of C S Lewis

Douglas H Gresham, Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidman & C S Lewis

Gabriele Greggersen, A Magia das Crônicas de Narnia [original em Português]

Gabriele Greggersen, A Pedagogia Cristã na Obra de C S Lewis [original em Português]

Gabriele Greggersen, Antropologia Filosófica de C S Lewis [original em Português]

Gabriele Greggersen, O Evangelho de Narnia [original em Português]

George Sayer & Lyle W Dorsett, Jack: A Life of C S Lewis

John Beversluis, C S Lewis and the Search for Rational Religion

Jordan Ferrier, Calvin and C S Lewis: Solving the Riddle of the Reformation  (Kindle E-Book)

Joy Davidman, Out of my Bone: The Letters of Joy Davidman

Joy Davidman, Smoke on the Mountain: An Interpretation of the Ten Commandments

Lyle W Dorsett, And God Came in: The Extraordinary Story of Joy Davidman

Peter Kreeft, C S Lewis for the Third Millenium  (Kindle E-Book)

The C S Lewis Encyclopedia

The Cambridge Companion to C S Lewis

Victor Reppert, C S Lewis’ Dangerous Idea: In Defense of the Argument from Reason

Walter Hooper, C S Lewis: A Complete Guide to His Life and Works

Wayne Martindale, Beyond the Shadowlands: C S Lewis on Heaven and Hell  (Kindle E-Book)

Em São Paulo, 22 de Novembro de 2013 [Revisado em Salto, 01 de Agosto de 2017]

 

50 Anos sem C S Lewis (1898-1963)

NOTA:

O post abaixo foi escrito em 22 de Novembro de 2013, ocasião em que se comemorou o Jubileu de Ouro da morte de C S Lewis (Clive Staples Lewis). Na ocasião, não tinha planos de ter um blog especificamente sobre C S Lewis, razão pela qual publiquei o artigo em meu blog Liberal Space, em https://liberal.space/2013/11/22/50-anos-sem-c-s-lewis-1898-1963/. Agora, em que criei este blog, republico-o aqui, sem maiores alterações, como o primeiro post do novo blog.

C S Lewis morreu no mesmo dia (22 de Novembro de 1963) em que morreram duas outras pessoas famosas: John Fitzgerald Kennedy e Aldous Huxley. Ao morrer, Kennedy tinha 46 anos, Huxley, 69, e Lewis, 64 (faltando uma semana para completar 65). (Vide, no site On this Day, o artigo localizado em http://www.onthisday.com/deaths/date/1963/november/22.

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50 Anos sem C S Lewis (1898-1963)

Hoje faz 50 anos que morreu C S Lewis (29-11-1898 / 22-11-1963). Escritor, acima de tudo. Especialista em literatura medieval. Escritor de livros para crianças. E teólogo que escreveu para o grande público. Dentro da teologia, foi um apologeta – um defensor do Cristianismo. Mas não foi sempre um defensor da fé cristão. Por um bom tempo foi ateu. Depois se converteu ao Cristianismo.

Trabalhou nas duas grandes universidades inglesas: Oxford e Cambridge. Mais em Oxford, onde trabalhou primeiro.

Durante a maior parte de sua vida foi um solteirão, que morava com seu irmão, historiador, também solteirão. [Chamo de “solteirão” uma pessoa mais velha que optou por não se casar.] Em 1956 se casou com Joy Davidman, uma escritora americana, divorciada, com dois filhos, dezessete anos mais nova que ele. Ela morreu de câncer quatro anos depois do casamento. A história da amizade, da admiração mútua, da parceria e finalmente do amor deles tem sido objeto de vários livros e de mais de um filme. O mais lindo deles, na minha avaliação, é Shadowlands (Terras de Sombra), em que Lewis é representado pelo incomparável Anthony Hopkins e Debra Winger faz o papel de Davidson.

Seu livro mais interessante, do ponto de vista teológico e apologético, é Mere Christianity Cristianismo Puro e Simples, em Português. Foi escrito durante a Segunda Guerra na forma de conversas ao rádio com as tropas ingleses que estavam no campo de batalha. É um bestseller até hoje.

The Chronicles of Narnia (As Crônicas de Narnia) já gerou quatro filmes de cinema, filmes de TV, programas de rádio. Lewis era amigo chegado de J. R. R. Tolkien, que escreveu a série The Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis).

Um grande intelectual, um grande autor, um grande cristão, e, acima de tudo, um grande homem.

Em São Paulo, 22 de Novembro de 2013 (revisto em Salto, 1 de Agosto de 2017)