A Filosofia Pré-Moderna e a Moderna

[NOTA: Este artigo é parte de um artigo maior, escrito em 2008, com o título “A Educação no Mundo Antigo e Medieval”. Tirei a parte que tratava mais diretamente da educação e mantive apenas a parte final, que procurava resumir a filosofia do mundo pré-moderno com a do mundo moderno. E revisei o material agora em Julho de 2020 para servir de fundamentação ao capítulo acerca da Educação em um livro sobre C S Lewis que estou escrevendo com meu amigo Carlos Eduardo Martins.]

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Não pretendo, neste trabalho, abordar o tema elaborando uma crônica de eventos ou pessoas relevantes à filosofia da Antiguidade e da Idade Média.

Também não pretendo historiar o que pensaram eminentes filósofos do Mundo Antigo e Medieval.

Vou fazer algo, de um lado mais ambicioso, mas, de outro, menos trabalhoso: tentar capturar a essência da contribuição do Período Pré-Moderno (que inclui o Período Clássico e o Período Medieval) para a filosofia de hoje — e, indiretamente, para a educação que hoje temos.

Assim, não farei pesquisa histórica, no sentido estrito, nem exegese e crítica textual. Procurarei me situar no plano filosófico para procurar captar o que me parece ser a essência da contribuição do Período Pré-Moderno para a filosofia. Para os meus propósitos, a despeito das evidentes diferenças existentes entre o Período Clássico e o Período Medieval, eles compartilham um substrato de ideias que me parece essencial.

Assim, ao discutir a Filosofia Pré-Moderna, resumirei o que me parece ser a principal contribuição desses dois períodos, o Clássico e o Medieval, em seu conjunto, para algo que transcende a educação, embora seja extremamente importante para ela: a visão de mundo. A Antiguidade e a Idade Média estão de certo modo unidas em uma visão de mundo extremamente importante, e que serviu por muito tempo de alicerce para a cultura e o pensamento ocidental (greco-romano-cristão), e que, lamentavelmente, corre o risco de se esvair nos ceticismos e relativismos de nossa época que se pretende multicultural, na qual a razão, como padrão objetivo, perde lugar para modismos intelectuais admitidamente arbitrários.

Vou discutir, portanto, de forma resumida, a contribuição da Filosofia Pré-Moderna à chamada Cultural Ocidental — contribuição que corre sério risco de esvair.

Para entender a Filosofia Moderna é necessário contrastá-la com a Filosofia Pré-Moderna.

Repito o que já disse: embora haja consideráveis diferenças entre a Filosofia Antiga e a Filosofia Medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica que eu estou designando de Filosofia Pré-moderna, e que engloba elementos básicos e essenciais de uma e de outra.

Para a Filosofia Pré-moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na Filosofia Moderna se convencionou chamar de “mundo exterior”, a saber, a realidade externa à nossa mente, claramente não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Ninguém achava que isso precisasse ser demonstrado ou provado, porque não havia se tornado um problema.

Para a Filosofia Pré-moderna, em segundo lugar, essa realidade externa à nossa mente contém basicamente dois tipos de entidades: objetos (coisas) e fatos (o estado em que as coisas estão). Assim, objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos ou construídos pela nossa mente. O pecado capital da Filosofia Moderna está contido na afirmação de George Berkeley, um bispo, que afirmou que esse est percipii: ser é ser percebido, ou seja, uma coisa ou um fato só é, ou existe, se é percebido pela nossa mente através de nossos órgãos sensoriais.

Além disso, e em terceiro lugar, para a Filosofia Pré-moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a relação de causalidade. As relações das coisas e dos fatos entre si não são construídas pela nossa mente: elas fazem parte da realidade.

Assim, a relação de causalidade, para a Filosofia Pré-moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa outro, e isto é um fato que pode ser constatado. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contiguidade espaço-temporal que a nossa mente percebe entre coisas e fatos, como diria David Hume, já no período moderno (século 18).  A realidade comporta também as relações entre os objetos e os eventos, entre si, e, por conseguinte, a relação — ou o nexo — causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade, como presumia Emanuel Kant: a realidade já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe. É esse fato que possibilita o conhecimento — e, em última instância, a ciência.

A realidade, para a Filosofia Pré-moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos. Conquanto possam existir estados de coisas imaginários, fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos (ou afirmações) de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, ele é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, o juízo é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quinto lugar, temos evidência da verdade ou da falsidade de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais, nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós e suas relações. Embora seja notório que às vezes nos enganamos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia Pré-Moderna. Erros de percepção, em regra, são facilmente corrigidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sexto lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade suprassensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sétimo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos objetos e fatos que compõem a realidade (sensível ou suprassensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A Filosofia Pré-moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. No período pré-moderno não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, suspende ou até mesmo viola a ordem objetiva existente na realidade. Para a Filosofia Pré-moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Baruch Spinoza mais tarde): o milagre é uma suspensão ou violação da ordem objetiva existente na realidade, realizada por quem pode suspendê-la ou violá-la. Por isso é que se acreditava que milagres eram de suma importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente aconteceram ou ainda acontecem, ou não, é outra questão. Nem todos os filósofos pré-modernos acreditavam que milagres aconteceram ou aconteciam. Mas não tinham dificuldade com o conceito.

Para a Filosofia Pré-moderna, por fim, e em oitavo lugar, a pedagogia é o processo através do qual a criança é levada a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A Filosofia Moderna, iniciada por René Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Emanuel Kant e George Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Baruch Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (John Locke, George Berkeley e David Hume), infelizmente veio a questionar todos esses oito pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era considerada, pelos pré-modernos, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na Filosofia Moderna, entretanto, a razão é frequentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século 20 um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.

Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos pontos de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem esdrúxulos e estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista. Tolerar, neste caso, não é admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão inválidos quanto os nossos.

Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as ideias de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto as ideias de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as ideias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o Budismo a partir do Catolicismo Romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. Tolerar, neste caso, não é apenas admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão válidos quanto os nossos.

A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de ideias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento (em um determinado contexto), então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que defender este — e não aquele — ponto de vista? Por que criticar este — e não aquele — ponto de vista? Porque preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A Filosofia Pré-moderna (antiga e medieval) sabia como resolver essas questões. A filosofia moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infraestruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que escrever história é contar estória, isto é, construir a narrativa que mais bem nos convém; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas ou estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as interpretações decorrentes de trabalho sério e rigoroso de exegese e hermenêutica; em que auto expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra sugestionáveis (se tanto) são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

As chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da Antiguidade e da Idade Média — são hoje desprezadas. Essas leis são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da Filosofia Pré-moderna, como, por exemplo, que eram essenciais na atribuição de sentido à vida:

  • A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  • A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
  • A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
  • Existe conhecimento moral: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra o chamado Emotivismo Ético, etc.);
  • Existe objetividade na arte (contra o chamado Expressionismo, etc.)

No período pré-moderno havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas no período moderno. A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da visão de mundo da pré-modernidade.

Essa é a principal tese de C S Lewis na área da educação.

Em São Paulo, Agosto de 2008, revisto em Julho de 2020, publicado aqui em 11 de Julho de 2020.

Eduardo Chaves é Ph.D. em Filosofia pela University of Pittsburgh, 1972. Professor Titular de Filosofia Política e Filosofia da Educação da UNICAMP de 1974 a 2007, ele está desde 2007 aposentado da UNICAMP e desde 2017 aposentado de qualquer trabalho com vínculo empregatício.).

O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis

Conteúdo

  1. Preâmbulo.
  2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento
  3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

1. Preâmbulo

Meu interesse neste artigo está mais na biografia de C S Lewis — suas ideias e sua vida — do que na questão de como o cristianismo, em especial o protestantismo, encara o casamento. Em suma: neste artigo estou, aqui, mais interessado no subtítulo do que no título que dei ao artigo.

Já discuti a questão de diferentes visões do casamento dentro do cristianismo, em geral, e do protestantismo, em particular, abordando quase todas as questões que lhe são conexas, como poligamia, monogamia, divórcio, sexo, virgindade, celibato clerical, casamento entre pessoas do mesmo sexo, incesto, o que hoje se chama de poliamor, etc., em vários artigos no meu blog Liberal Space. O leitor interessado no que penso sobre o assunto pode consultar alguns desses artigos que a seguir listo, em ordem cronológica:

Tenho ainda um artigo sobre C S Lewis, que não menciona suas ideias sobre o casamento nem o fato de seu casamento tardio, que pode ser consultado por quem não está muito certo acerca de quem foi o homem:

Recentemente (dois dias atrás, antes de escrever este artigo), publiquei um outro artigo sobre C S Lewis, este no meu blog “carro chefe”, Chaves Space, que é, entre outras coisas, um blog meio autobiográfico:

2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento

É virtualmente impossível discutir casamento sem discutir sexo. Vou me limitar aqui a resumir o que C S Lewis afirma sobre sexo e casamento, da perspectiva da moral cristã, em Mere Christianity (Cristianismo Puro e Simples, anteriormente A Razão do Cristianismo, em Português), seu livro de não ficção mais famoso, que consiste, basicamente, da edição de uma série de falas pelo rádio que C S Lewis transmitiu, durante a Segunda Guerra, a convite da emissora, pela BBC, de 1942 a 1944, visando, em especial, as tropas britânicas em guerra no Continente Europeu. Revisadas e ampliadas, elas foram inicialmente publicadas em três livros, um por ano, e, posteriormente, em 1952, em um só volume com o título que ficou famoso e consagrou o autor como um dos maiores apologetas do cristianismo no século 20.

Nos Capítulos 5 e 6 do Livro III desse seu best seller, que têm como títulos, respectivamente, “Moralidade Sexual” e “O Casamento Cristão”, Lewis discute sexo e casamento a partir daquela que ele entende como a perspectiva cristã. O Livro III de Cristianismo Puro e Simples tem como título “O Comportamento Cristão” (“A Conduta Cristã”, na tradução brasileira publicada pela Martins Fontes, 3a edição, 2009; citações e referências segundo essa edição).

Embora C S Lewis tenha sido, depois do período em que foi ateu, membro da Igreja Anglicana, que é uma igreja até certo ponto fruto da Reforma Protestante, o ponto de vista de Lewis acerca do sexo e do casamento, é, em alguns aspectos, mais semelhante ao ponto de vista da igreja católica do que do ponto de vista das igrejas protestantes, “s’il y en a” — isto é, se é que há um único ponto de vista que possa ser caracterizado como sendo das igrejas protestantes, como um bloco.

a. A Moralidade Sexual Cristã

A moralidade sexual cristã é discutida por Lewis a partir da perspectiva da virtude da castidade (virtude essa que, reconhece ele, “é a menos popular das virtudes cristãs” – p.126). No entender dele, essa virtude, em sua essência, prescreve, no tocante ao sexo, a seguinte regra de conduta: “Ou relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência” (p.126; alterei aqui, levemente, o texto da tradução e acrescentei o negrito). Tertium non datur — não existe outra opção. Assim, não há como o cristão possa escapar dessa alternativa.

Mas, é forçoso reconhecer, e Lewis o reconhece, essa regra conflita com os impulsos, apetites e desejos sexuais da maioria das pessoas. Diante disso, ele se vê levado a construir mais esta alternativa: ou o cristianismo está totalmente errado em relação a essa questão, ou nossos impulsos, apetites e desejos sexuais estão seriamente corrompidos e deturpados. Ele, naturalmente, como cristão, não acredita que a primeira opção seja verdadeira: logo, aceita a segunda (p.126).

Para Lewis, a sexualidade humana existe para que nós, humanos, possamos nos reproduzir e, assim, dar continuidade à espécie, povoando a terra: “o objetivo biológico do sexo são os filhos”, diz ele (p.126). Segundo ele acredita, no plano biológico não haveria nenhuma outra razão para a existência de nossa sexualidade. A obtenção de prazer não faz parte da razão de ser do sexo, se este é visto do ângulo exclusivamente biológico — mesmo que o prazer em regra acompanhe o ato sexual.

Na visão de Lewis, não há nada de errado ou imoral nessa forma sexuada de reproduzir a espécie humana, nem no prazer que os seres humanos em geral sentem ao praticar o ato sexual. Diz ele:

“Bem sei que que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo. [ … ] O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião.  Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.” (p.130).

Mas isso não quer dizer que tudo esteja em ordem com os nossos impulsos, apetites e desejos sexuais. Eles existem, é forçoso reconhecer, mas sua concretização precisa ser controlada e disciplinada: o atendimento deles precisa ser regrado, isto é, submetido a regras. A razão pela qual nossos impulsos, apetites e desejos sexuais precisam ser controlados está no fato de que eles foram corrompidos e pervertidos pelo pecado original de nossos primeiros pais. Para que possamos ser curados do pecado que o atendimento desregrado de nossos impulsos, apetites e desejos sexuais provoca é preciso, em primeiro lugar e acima de tudo, que queiramos ser curados. No entanto, “para o homem moderno até mesmo esse desejo [de querer ser curado] é difícil de ter”. (pp.130-131).

A dificuldade em resistir à tentação de uma vida sexual desregrada, ou em tentar ser curado dela, caso já tenhamos a ela sucumbido, se explica de várias maneiras.

Em primeiro lugar, porque tendo nossa natureza sido corrompida pela queda, a publicidade e a propaganda modernas, que certamente não duvidam disso, apelam para a nossa natureza pervertida, tentando nos convencer de que é a resistência aos nossos impulsos, apetites e desejos sexuais que representa uma anomalia — e não os impulsos, apetites e desejos, em si… (pp.131-132). Essa tese é falsa, segundo Lewis — embora parta de uma verdade. A verdade é que o sexo, em si, praticado como deve ser praticado, dentro da regra da castidade cristã, é algo bom. Contudo, praticado fora dessa regra, o sexo se torna pervertido e anômalo. Qualquer ato sexual que não esteja coberto pela regra de castidade é pecaminoso. Para ele, não há como fugir disso. Ao sugerir que todo impulso, apetite e desejo sexual deve ser satisfeito, porque sua não satisfação é danosa à nossa saúde mental, e, assim, à nossa natureza humana, a publicidade e a propaganda modernas invertem as coisas. O que é danoso à nossa natureza humana é, segundo Lewis, o sexo desregrado.

Em segundo lugar, é difícil querer ser controlado nessa área porque fomos levados a acreditar, erroneamente, que o ideal cristão da castidade é inalcançável, posto que utópico, estando acima das forças humanas (p.133). Lewis reconhece que a “castidade perfeita”, assim como a “caridade perfeita”, “não será alcançada pelo mero esforço humano”, sem a ajuda divina. O fato de ser necessária a ajuda de Deus para alcançar o ideal cristão da castidade não deve de modo algum levar as pessoas ao desânimo, provocar o abandono do ideal, fazendo com que se acomodem “com qualquer coisa que não a perfeição” (pp.133-134). Para ele, a verdade é que o ser humano é capaz de prodígios quando seriamente decide e tenta fazer aquilo que Deus prescreve e espera dele (p.134).

Em terceiro lugar, a cultura moderna, especialmente a incorporada em algumas tendências psicológicas, pretende combater formas repressivas de vida e acusa o cristianismo de reprimir a vida sexual das pessoas que optam por segui-lo. Segundo Lewis, há um engano nesse entendimento da repressão. Reprime-se algo, como um pensamento ou uma conduta, quando se tenta esconder esse algo no fundo do inconsciente (ou subconsciente), negando a sua ocorrência ou existência, e, assim, fazendo com que aquilo cuja ocorrência ou existência foi negada possa reaparecer de uma outra forma, com uma feição diferente. Reconhecer a ocorrência ou existência de um impulso, apetite ou desejo pecaminoso, e livre e conscientemente decidir resistir a ele, não sucumbindo ao que ele tenta nos induzir a fazer, nada tem de repressão. Muito pelo contrário: é um exercício exemplar de nosso livre arbítrio. É isso que afirma Lewis (pp.145-135).

Lewis termina esse capítulo com uma passagem lapidar, que, a seu ver, coloca as coisas em perspectiva:

“Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito do sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. É por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. É claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.” (pp.135-136).

b. O Casamento Cristão

Coerente com essa visão da moral sexual cristã, Lewis vê o casamento cristão, instituído, segundo ele acredita, pelo próprio Deus, na criação do homem, como tendo a finalidade de permitir que os seres humanos procriem, de forma regrada, assim se multiplicando e povoando a terra. É por isso que, para ele, o único lugar correto da atividade sexual humana, no cristianismo, é a instituição do casamento (p.137).

Lewis reconhece que essa visão é, hoje, e, talvez sempre tenha sido, “extremamente impopular”. Reconhece ainda que, não sendo casado na ocasião em que escreveu o livro, não discorria sobre o assunto por experiência própria. Mas alegou que esse fato não o impedia de discutir a questão (p.137).

Afirma ele que a Bíblia, ao afirmar que, no casamento, o homem e a mulher se tornam uma só carne, quis sublinhar o fato de que o casal se torna como se fosse um só organismo, com duas metades. Diz ele:

“O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo.” (p.138).

Embora não seja óbvia a inferência, Lewis conclui, dessas considerações, que o casamento cristão “deve durar a vida toda”, não admitindo o divórcio. Reconhece ele, ao afirmar isso, que existem divergências entre as igrejas cristãs em relação a essa questão. Diz ele:

“Algumas [igrejas cristãs] não admitem o divórcio em hipótese alguma; outras o admitem com relutância em casos específicos. É uma grande lástima que os cristãos divirjam quanto a essa questão; para um leigo, porém, o fato a notar é que, no que diz respeito ao casamento, todas as igrejas concordam muito mais umas com as outras do que concordam com o que vem do mundo exterior. Todas encaram o divórcio como se fosse algo que cortasse ao meio um organismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. [ … ] O que todas elas repudiam é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parceiros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas uma pela outra, ou quando uma delas se apaixona por outra pessoa.” (pp.138-139).

A principal razão que Lewis invoca para negar que, na visão cristã, o divórcio seja uma possibilidade na situação em que, não só a paixão inicial, mas o próprio amor deixa de existir, é que, quando o casamento cristão tem lugar, os nubentes se prometem ficar juntos, quaisquer que sejam as circunstâncias, “até que a morte os separe”. Essa promessa dá, ao casamento cristão, na opinião de Lewis, uma dimensão jurídica, que, na hipótese de um divórcio desejado unilateralmente, por apenas uma das partes, criaria uma injustiça para com a outra parte. O argumento de Lewis, porém, não parece provar que uma promessa feita entre duas pessoas de ficar juntas até que a morte as separe não possa ser rescindida ou revogada, vale dizer, desfeita, de comum acordo entre as partes, sem que haja injustiça para com uma delas — a menos, talvez, que se revista o casamento cristão de um caráter sacramental adicional, como o faz a Igreja Católica (mas não as igrejas protestantes), que torna o casamento  mais do que um contrato entre os nubentes, transformando-o em um pacto transcendente que envolve os dois e Deus, este representado pela igreja, na pessoa do sacerdote que oficia o casamento.

Enfim, como se mostrará no capítulo seguinte, anos depois C S Lewis veio a se tornar vítima de seu próprio argumento, quando solicitou que a sua igreja, a igreja anglicana, realizasse o seu casamento com uma mulher divorciada.

Para concluir este capítulo, mais dois elementos interessante na posição de C S Lewis.

O primeiro elemento diz respeito à sua proposta de que haja, num país que não é oficial ou majoritariamente cristão, dois tipos de casamento. Diz ele:

“Antes de deixar a questão do divórcio, gostaria de esclarecer a distinção entre duas coisas que geralmente se confundem. Uma delas é a concepção cristã de casamento; a outra, completamente diferente, é se os cristãos, enquanto eleitores ou membros do Parlamento, devem impor sua visão do casamento sobre o restante da comunidade, incorporando essa visão às leis estatais que regem o divórcio. Um grande número de pessoas parece pensar que, se você é cristão, deve tentar tornar o divórcio difícil para todo o mundo. Eu não penso assim. Pelo menos creio que ficaria bastante zangado se os muçulmanos tentassem proibir que o restante da população tomasse vinho. Minha opinião é que as igrejas devem reconhecer francamente que a maioria dos britânicos não são cristãos, e, portanto, que não se deve esperar que levem uma vida cristã. Deve haver dois tipos distintos de casamento: um governado pelo Estado, com regras aplicáveis a todos os cidadãos, e outro governado pela igreja, com regras que ela mesma aplica a seus membros. A distinção entre os dois tipos deve ser bastante nítida, de tal forma que se saiba sem sombra de dúvida quais casais são casados pela igreja e quais não.” (p.148).

Concordo 100% com C S Lewis em relação a essa questão. Em dois dos artigos mencionados no Preâmbulo (Capítulo 1), defendo exatamente o mesmo ponto de vista. Os artigos são estes, e eles defendem um ponto de vista bem mais radical do que o C S Lewis:

Mas C S Lewis foi severamente criticado, até por grandes amigos seus, como J R R Tolkien, autor de Lord of the Rings (Senhor dos Anéis), por defender a ideia de um “duplo casamento”. Vide, a propósito, o artigo “Why C.S. Lewis Was Wrong on Marriage (and J.R.R. Tolkien Was Right)”, de Jake Meador, em Mere Orthodoxy (interessante o nome do site…), no endereço https://mereorthodoxy.com/why-c-s-lewis-is-wrong-on-marriage/.

O segundo elemento tem que ver com sua defesa de que o casal casado pela igreja deva ter uma “cabeça”, ou chefia, ou liderança, alguém que decide quando os dois discordam, e que esse cabeça deva ser o homem. Diz ele:

“(1) Por que a necessidade de uma ‘cabeça’ – por que não a igualdade? [ … ] Na medida em que o marido e a esposa estão de acordo, a necessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fazer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da ideia de que tentaram fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. [ … ] Se o casamento é permanente, [como é o caso do casamento cristão,] uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir a política familiar.” (p.149).

“(2) Por que a ‘cabeça’ deve ser o homem?” (p.149). “As esposas cristãs fazem o voto de obedecer ao marido.” (p.148). “Deve haver algo de antinatural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam o marido que se submete. [ … ] As relações da família com o mundo exterior — o que poderíamos chamar de política externa — devem depender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mundo. [ … ] A mulher é a curadora especial dos interesses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predominar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa.” (pp.149-150).

Sem comentários, a não ser um que nada tem que ver com a questão do casamento cristão, em si, mas, sim, com a questão da hermenêutica, ou seja, da interpretação bíblica.

C S Lewis é razoavelmente coerente em sua interpretação da Bíblia. No geral, o Novo Testamento, Jesus, nos Evangelhos, e Paulo, na primeira carta aos Coríntios, é contra o divórcio, mas reconhece que às vezes ele é virtualmente inevitável (como no caso de adultério, por exemplo). Paulo, em particular, ao admitir a possibilidade do divórcio, é contra um outro casamento. Muitos cristãos conservadores, dentro e fora do protestantismo, concordam com Paulo e com C S Lewis a esse respeito, apelando para o texto bíblico. Mas quando se trata de a mulher obedecer ao marido, que seria o cabeça do casal, algo que está contido no mesmíssimo Novo Testamento, boa parte dessas pessoas refuga, mesmo sendo conservadora — em especial, no caso das mulheres. Por que dois pesos e duas medidas? Por que aceitar a oposição ao divórcio e recusar-se a aceitar a submissão ao marido, se ambas as posições têm fundamentação bíblica? C S Lewis é coerente, e usa um só peso e uma só medida. Mas é criticado por fazer isso, em geral pelas mulheres.

3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

Para quem já leu alguma biografia de C S Lewis, e há inúmeras, ou para quem já assistiu ao belíssimo filme Shadowlands, que conta um pedaço de sua vida, o período em que ele ficou conhecendo a escritora judia americana Joy Davidman Gresham, e, oportunamente, se apaixonou por ela e com ela se casou, já imagina a questão que vou levantar aqui, de forma sucinta.

Quando Lewis começou a se corresponder com Joy, no início do ano de 1950, por iniciativa dela (ele recebeu a primeira carta dela em 10.1.1950), ele ficou bastante impressionado com ela, e ela ainda mais com ele, cujos livros haviam sido o principal instrumento de sua conversão ao cristianismo, depois de perambular pelo comunismo e pelo ateísmo. A conversa entre os dois evoluiu bastante e rapidamente (Lewis era um compulsivo escrevedor de cartas), e Joy trocava ideias com ele sobre um livro que estava escrevendo sobre o Sermão da Montanha. Ela, que tinha dois filhos com menos de dez anos, e estava tendo dificuldades em seu casamento (o marido, também escritor, era alcoólatra, dado a violência, chegado ao abuso verbal, e contumaz mulherengo), num dado momento resolveu ir visitar Lewis em Oxford. Em Agosto de 1952 ela viajou de navio para a Inglaterra, onde chegou no final do verão europeu. Encontraram-se pela primeira vez em 24.9.1952, para um almoço outonal. Nos mais de três meses que ela permaneceu na Inglaterra, eles se encontraram amiúde, tendo ela até mesmo sido hóspede em sua residência durante quinze dias no período das festas de fim de ano. (Registre-se que ela havia deixado os filhos em Nova York, com uma parente que se dispôs a ficar em sua casa cuidando deles para ela). No final de 1952, enquanto gozava da hospitalidade de Lewis, Joy recebeu uma carta do marido pedindo divórcio, por ter se apaixonado pela parente de Joy, que cuidava dos seus filhos. Isso precipitou o retorno de Joy para os Estados Unidos, no início de Janeiro de 1953. O divórcio foi levado adiante, mas se arrastou. Antes de ser concedido, Joy, em Novembro daquele ano de 1953, voltou para a Inglaterra, passando a morar em Londres, agora com os dois filhos, David e Douglas, que tinham, respectivamente, nove e oito anos, tendo nascido em 1944 e 1945. Joy tinha 38 anos na ocasião (nasceu em Abril de 1915) e Lewis completou 55 naquele mês de Novembro (nasceu em 1898).

O inevitável aconteceu. Joy ficou apaixonada por Lewis, que, no entanto, embora muito interessado nela como parceira intelectual, tinha por ela, segundo tudo indica, apenas uma grande admiração e um afeto platônico. Em Agosto de 1954 o divórcio dela foi consumado. A situação econômica dela na Inglaterra se deteriorou, porque o ex-marido deixou de pagar pensão para os filhos, e Lewis precisou socorrê-la, alugando uma casa para ela em Oxford. Provavelmente o relacionamento continuaria no mesmo pé se o visto de Joy não estivesse por expirar. Ela teria de voltar para os Estados Unidos, a menos que se casasse com um britânico. Lewis resolveu se casar com ela, apenas no papel, e em segredo, em um gesto humanitário, para que ela pudesse permanecer na Inglaterra com os filhos, como desejava. O casamento secreto aconteceu em 23 de abril de 1956.

Mas o destino, mestre em dar nós, interveio… Ou, quem sabe, tenha sido a providência divina, agindo, de forma misteriosa, para frustrar a ortodoxia humana… Em Outubro daquele ano, seis meses depois do casamento secreto, Joy descobriu que estava com câncer, já em estado avançado. Aparentemente o câncer havia surgido no seio, mas se espalhou para o sistema ósseo e evoluiu rapidamente, a ponto de os médicos lhe darem pouco tempo de vida. Esse fato chocou Lewis, que, traumatizado, diante da possibilidade de ela vir a falecer em pouco tempo, resolveu se casar com ela para valer, com a bênção da igreja anglicana e tudo.

Nesse ponto começou o drama que colocou a vida de Lewis em conflito com o que ele havia escrito em 1943 sobre o casamento cristão e o divórcio… Lewis consultou o bispo de sua região se poderia receber autorização para se casar com Joy, uma divorciada, e a permissão foi negada. Lewis se viu obrigado a argumentar, casuisticamente, que o casamento anterior de Joy não podia, à luz da doutrina da igreja, ser considerado válido, porque seu primeiro marido já era divorciado quando ela se casou com ele. Se a Igreja Anglicana não reconhecia a validade de casamentos em que pelo menos um dos “casantes” era divorciado, o casamento anterior dela era claramente inválido e, por conseguinte, ela poderia se casar com Lewis… O argumento, apesar de logicamente bem construído, não convenceu o bispo. Lewis, diante da iminência da morte de Joy, recorreu a um pastor anglicano que havia sido seu aluno e que se deixou persuadir pela sua lógica…  Em 21 de Março de 1957, cerca de onze meses depois do casamento civil, realizou-se o casamento cristão de Lewis e Joy, em pleno hospital em que ela estava internada, e à revelia de seu bispo. No dia seguinte o mundo que admirava Lewis ficou chocado com um breve comunicado do casamento no jornal.

Em Abril, os médicos liberaram Joy da internação para que pudesse morrer em casa, ao lado do marido e dos filhos. Ela se mudou para a casa de Lewis, adaptada, rapidamente, para recebê-la. E daí o que Lewis considerou um milagre aconteceu. Ele vinha orando para que Deus pelo menos aliviasse a dor de Joy, ainda que fosse necessário transferi-la para ele. E, como se a vida imitasse a arte, ele começou a sofrer dores terríveis nas pernas (local mais severamente atingido pelo câncer de Joy), diagnosticadas como decorrentes de osteoporose, e ela começou a melhorar, contra todas as expectativas médicas! Em Dezembro daquele ano ela conseguiu até mesmo a voltar a andar… Em Junho de 1958 os médicos declararam que a progressão do câncer havia sido interrompida e Lewis e Joy puderam até mesmo, e finalmente, ter sua viagem de lua-de-mel para a Irlanda, terra natal de Lewis. Mas em Outubro de 1959 o câncer retornou com violência e em 13 de Julho de 1960 ela faleceu, deixando a vida de Lewis em crise — não só pelo sofrimento de sua perda mas também em decorrência de sua própria doença, que não o abandonou…

Lewis veio a falecer um pouco mais de três anos depois de Joy, em 22 de Novembro de 1963, dia em que o Presidente John F. Kennedy, e o escritor G. K. Chesterton, este um amigo e colega de Lewis, também faleceram. Os filhos de Joy já tinham 19 e 18 anos, respectivamente, na ocasião. O mais novo acompanhou Lewis até o fim da vida dele e escreveu uma história do relacionamento de sua mãe com Lewis e uma biografia de Lewis.

[Os dados sobre as datas dos acontecimentos retirei da Cronologia da Vida de C S Lewis, contida no livro C. S. Lewis: Companion & Guide, de Walter Hooper, que também é coautor de uma biografia de Lewis. Os títulos dos livros de Douglas Gresham são Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidson and C. S. Lewis (de 1988) e Jack’s Life: The Life Story of C. S. Lewis (de 2005; Jack era o apelido pelo qual C S Lewis era chamado por todos os seus amigos).

Se o leitor está com lágrimas nos olhos, não deixe de ver Shadowlands. Vai chorar ainda mais diante das brilhantes e comoventes interpretações de Anthony Hopkins e Debra Winger.

Ironias do destino. Como diz Jake Meador no artigo já citado, será difícil encontrar um caso mais apto e pungente em que a vida obrigou um grande autor a engolir algumas das coisas que havia escrito.

Em Salto, 20 de Junho de 2020 – dia em que começa o inverno no Brasil e o verão, na terra que foi de C S Lewis.

Livros de C S Lewis que foram importantes em minha vida…

Dias atrás, em 16.6.2020, meu jovem amigo Carlos Eduardo Martins, seminarista em final de curso no Seminário Presbiteriano de Campinas, que eu também frequentei, e que tem em C S Lewis seu escritor favorito (para mim ele é um dos favoritos), fez o seguinte desafio em sua linha do tempo (às vezes chamada de perfil) no Facebook:

“Aproveitando que recentemente conversei um pouco sobre C S Lewis, vai mais um desafio. E agora é sobre o próprio C S Lewis. Aos amantes de Lewis, quais são os três livros dele que vocês mais gostam?

Eis o meu “pódio”:

3º) O Grande Abismo [The Great Divorce, em Inglês] – Para mim, é um dos livros mais geniais que já li. A forma como Lewis desenha diante de nossos olhos a condição dos preteridos é incrível. Foi o livro (não bíblico) que mais citei nos sermões que preguei até hoje.

2º) “As Crônicas de Nárnia: O Cavalo e Seu Menino” – A meu ver, é de longe a melhor das crônicas. O ponto alto do livro é quando Shasta e Aslam se encontram. Chorei rios quando li.

1º) “Até Que Tenhamos Rostos” – Jamais li qualquer coisa parecida. A releitura que Lewis fez da lenda de Cupido e Psiquê resultou numa obra que concentra, a meu ver, toda a genialidade de C S Lewis. É um livro que fiz questão de ler para a minha namorada, Iehonalla.

Se eu tivesse lido apenas um dos livros acima, eu já teria lido o suficiente para ser apaixonado por C S Lewis. São incríveis.

Mas e aí, quais são os seus preferidos?”

Entre os convocados a se manifestar, estava eu, e me manifestei neste sentido, no mesmo dia, com direito a pequenas revisões nos dias seguintes:

“Gosto basicamente de todos os livros dele, até mesmo (ou especialmente) das cartas… Reduzir a preferência a três é difícil… Assim, resolvi ‘dobrar a meta’ e expandir minha lista para seis livros… (com a devida vênia do Carlos Eduardo e da Dilma Rousseff, criadora da expressão ‘quando a gente alcança a meta, a gente dobra a meta’).

1) The Abolition of Man, porque trata da educação no contexto da modernidade, e trata a educação de uma forma que considero basicamente correta, como uma luta da racionalidade, na busca da verdade, do bem e da beleza, contra o ceticismo e o relativismo, em suas versões radicais.

2) Mere Christianity, porque foi o primeiro livro dele que eu li, quando o título em Português ainda era A Razão do Cristianismo, em vez de Cristianismo Puro e Simples, e porque é uma apresentação simples e inteligível de questões importantes da teologia cristã, para que o cristão entenda melhor a sua fé e o não cristão, na maior das vezes ex cristão, possa se sentir movido a adotá-la, ou a readotá-la.

3) Till we Have Faces, porque é uma excelente obra de ficção para adultos — concordo plenamente com a avaliação do Carlos Eduardo aqui, que os casais deveriam ler esse livro juntos.

4) Miracles, porque talvez seja o melhor tratamento, basicamente filosófico, de uma questão teológica importante, escrito por ele, questão essa sobre a qual escrevi um longo artigo, quando ainda estudante, e que se tornou um dos meus primeiros artigos publicados, depois de eu vir para a UNICAMP em 1974.

5) An Experiment in Criticism, porque é um excelente ensaio sobre o tema do qual ele era especialista, a saber, literatura: um livrinho fino que trata de questões importantes, especialmente para quem passa a vida em meio a livros, lendo-os e escrevendo-os.

6) Surprised by Joy, porque é uma autobiografia da primeira parte da vida dele e eu gosto muito de biografias, em geral, e de autobiografias, em particular, e ele trate de sua perda de fé e de sua recuperação da fé, em novos termos.”

Carlos Eduardo generosamente comentou:

“Os limites sempre são pequenos demais para o senhor. Para o senhor, somente o céu é o limite. Só o céu para que o senhor não pense em dobrá-lo.

Gostei demais da lista, Mestre. Sempre me perguntei que avaliação o senhor daria ao ‘A Abolição do Homem’. Agora, finalmente, tive a resposta.”

A esse comentário eu respondi assim:

“Carlos Eduardo:

Eu me entusiasmo…

Os dois primeiros livros de C S Lewis que eu comprei foram:

* Razão do Cristianismo (Mere Christianity], em 18.8.64

* Cartas do Inferno (Screwtape Letters), em 13.10.1964

Preste atenção às datas… Comprei-os na Biblioteca do Seminário de Campinas, que tinha uma pequena Livraria. O Diretor da Biblioteca e Bibliotecário, bem como Gerente da Livraria, era o Prof. Dr. Rev. Waldyr Carvalho Luz.

O terceiro livro dele que eu obtive (como um presente de Natal) foi:

* A Grief Observed

Ganhei o livro de presente de Natal de Susan Brownlee em 25.12.1968, meu segundo ano nos Estados Unidos. Eu era ‘Student Pastor‘ (algo parecido ao que o Carlos Eduardo Martins é na Igreja Presbiteriana de Salto) na (então assim chamada) United Presbyterian Church of the USA na cidade de Evans City, PA. Susan era filha do Rev. John T. Brownlee, do qual eu fui assistente durante o ano de 1968. Passei o Natal na casa deles e ganhei esse livro de presente.

Capas de livros de C S Lewis

Só muitos anos depois vim a ver o filme Shadowlands e resolvi investir na leitura dos demais livros de Lewis (e os de Joy Davidman, depois Joy Davidman Gresham, e depois ainda Joy Davidman Lewis). [Vide: https://www.imdb.com/title/tt0108101/%5D.

Hoje tenho 90 livros (incluindo na conta as duplicatas e triplicatas, bem como as traduções para o Português e os e-books) DE ou SOBRE Lewis (e mais vários PDFs e inúmeros PodCasts). Lewis é um dos autores com os quais ganho mais tempo (ganho, porque o tempo que se gasta lendo Lewis nunca é perdido: é sempre ganho — investimento puro, pessoal e profissional).”

É isso. Como não raro faço, achei conveniente transformar a troca no Facebook em um artigo de blog para me proteger das loucuras de Mark Zuckerberg, que, nos últimos tempos, tem fechado contas à torto e à direito, sem a menor justificativa e sem dar aos prejudicados o direito sequer de se se defender, contra-argumentando.

Em Salto, 19 de Junho de 2020.