Cronologia do Essencial da Vida de C S Lewis

1862 (18 Mai) – Nasce Florence (Flora) Augusta Hamilton, que virá a ser a mãe de C S Lewis, em Queenstown, Irlanda.

1863 (23 Ago) – Nasce Albert James Lewis, que virá a ser o pai de C S Lewis, em Cork, Irlanda.

1894 (29 Ago) – Albert Lewis e Flora Hamilton se casam, em Belfast, Irlanda.

1895 (16 Jun) – Nasce Warren Hamilton Lewis, em Belfast, Irlanda, que será o único irmão de Lewis.

1898 (29 Nov) – Nasce Clive Staples (C S) Lewis, em Belfast, Irlanda (hoje Irlanda do Norte).

1905 (21 Abr) – A família Lewis prospera e adquire uma enorme casa, chamada “Little Lea”, em Belfast,  para a qual a família se muda, e que será muito importante no desenvolvimento de Lewis até que ele vai para a escola, em 1908.

1908 (23 Ago) – A mãe de Lewis, Flora Hamilton Lewis, morre de câncer, em Belfast, quando Lewis tem apenas 9 anos e 9 meses.

1908 (18 Set) – Sem a esposa, e estando seu filho mais velho já internado em uma escola, Albert Lewis coloca Jack, como C S Lewis era chamado na intimidade, em uma escola internato, a Wynyard School.

1910 (Set) – Lewis muda para uma escola chamada Campbell College, em Belfast, que ele acha simplesmente insuportável.

1911 (Jan) – Lewis muda para uma escola chamada Cherbourg House (que, em sua autobiografia, ele chama de Chartres), em Malvern, Worcestershire, na Inglaterra. Ele tem 12 anos completos (embora em sua autobiografia da primeira metade de sua vida, Surprised by Joy, capítulo 4, ele afirme que em Jan 1911, ele “tinha acabado de fazer 13 anos”, é um erro: ele havia acabado de fazer 12 anos em 29.11.1910. Ali, diz ele, também em sua autobiografia, “realmente começa a sua educação”.

1911 – Enquanto frequenta Cherbourg House, Lewis admite “ter deixado de ser um cristão”. Na verdade, ele não converteu para uma outra religião: ele se tornou ateu, pura e simplesmente. O momento em que ele descobriu isso não é identificado com precisão. Diz ele, na autobiografia: “A cronologia deste desastre é um pouco vaga, mas eu tenho certeza de que o processo não havia começado quando eu cheguei lá, e que estava completo logo depois que eu de lá saí”. [Como se verá no próximo item, Lewis saiu de Cherbourg House (Chartres) em meados de 1913, para ir para o Malvern College, na mesma cidade — na verdade, quase em frente da Cherbourg House.

1913 (Set) – Lewis se matricula no Malvern College, em Malvern.

1914 (19 Set) – Lewis deixa Malvern College, que também detestou, e, nessa data, vai estudar, em um sistema “one-to-one“, com um conhecido tutor, William T. Kirkpatrick, em Great Bookham, Surrey, Inglaterra, tendo Kirkpatrick, um ex-presbiteriano que havia se tornado ateu, sido tutor de seu irmão mais velho, Warren, e professor de seu pai, Albert Lewis, na infância deste. A experiência de estudar com Kirkpatrick foi marcante para o desenvolvimento intelectual de Lewis.

1917 (29 Abr) – Tendo completado seu estudo com Kirkpatrick, que era preparatório para ingresso na universidade, e tendo solicitado ingresso na Universidade de Oxford, Lewis é, nessa data, aceito pela Universidade.

1917 (8 Jun) – Lewis se muda para Oxford, onde passa morar, com outros futuros estudantes da Universidade, numa república na casa de Mrs. Janie Moore, de cujo filho havia se tornado amigo.

1917 (25 Set) – Antes de começar a estudar em Oxford, Lewis, que havia se alistado, é convocado para servir no Exército Britânico, na Divisão de Infantaria Leve de Somerset, com o objetivo vir a participar da Primeira Guerra Mundial.

1917 (17 Nov) – Lewis é enviado para lutar na França, onde chega em 29 Nov.

1918 (1-28 Fev) – Lewis, ferido, fica em um hospital.

1918 (15 Abr) – Lewis novamente ferido em combate.

1918 (Abr) – O filho de Mrs. Moore é declarado morto em combate.

1918 (25 Mai) – Lewis é devolvido para a Inglaterra, para convalescer de outro ferimento, ficando em hospitais e casas de convalescença até 17 Nov.

1918 (11 Nov) – Assinado o armistício, a guerra acaba.

1918 (23 Nov) – Lewis chega de volta em casa de seu pai, na Irlanda.

1918 – Os outros quatro (além do filho de Mrs. Moore) dos seis membros da república de Mrs. Moore, em que Lewis morava, morreram na guerra, sendo Lewis o único sobrevivente.

1919 (13 Jan) – Lewis volta para Oxford, onde Mrs. Moore aluga uma casa, passando ele a morar com ela e sua filha adolescente Maureen, por haver prometido ao filho dela que cuidaria da mãe dele, caso ele viesse a morrer na guerra.

1919 (20 Mar) – O primeiro livro de Lewis, Spirits in Bondage (Espíritos em Cativeiro), é publicado quando ele tem 20 anos.

1920 (31 Mar) – Depois de um pouco mais de um ano de estudos (equivalente a um bacharelado), Lewis completa o Estudo dos Clássicos, com honras (Classical Honours Moderation).

1922 (4 Ago) – Lewis completa seu segundo programa de estudos, equivalente a um segundo bacharelado, este em Literatura (Literae Humaniores).

1922-1923 – Depois de complicados processos políticos a parte centro-sul da Ilha da Irlanda, predominantemente católica, se separa da parte norte, predominantemente protestante (anglicana), e se torna independente do Reino Unido, passando a primeira a se chamar República da Irlanda, com capital em Dublin, e a segunda, que continua parte do Reino Unido, Irlanda do Norte, com capital em sua maior cidade, Belfast, na província de Ulster, a cidade em que Lewis nasceu.

1923 (16 Jul) – Lewis completa seu terceiro programa de estudos, este em Língua e Literatura Inglesa (English Language and Literature), equivalente a um terceiro bacharelado, depois de quatro anos e meio na Universidade, proeza rara em Oxford, que o torna famoso na instituição, na cidade e além.

1924 – Lewis é convidado a dar aulas como substituto na Universidade de Oxford.

1925 (20 Mai) – Lewis é eleito “Fellow da Universidade de Oxford”, no Magdalen College, na função de “Tutor” (Tutor) e “Lecturer” (Preletor), posição que vai exercer durante 30 anos, até o final de 1954.

1929 – Morre o pai de Lewis, Albert Lewis.

1930 – Lewis, seu irmão Warren, e Mrs. Moore compram a casa em Oxford em que ele vai residir o resto de sua vida, The Kilns, através de um contrato complexo em que os dois irmãos entram com parte do dinheiro (herdado do pai) e Mrs. Moore entra com a parte majoritária dos recursos, ficando acordado que os três serão proprietários da casa até a morte do primeiro deles que morrer, ficando a casa propriedade dos outros dois até que morra mais um, e, depois de mortos os três, ficaria a casa propriedade da filha de Mrs. Moore, Maureen Moore. [As mortes vieram nesta ordem: Mrs. Moore, em 1951, Lewis, em 1963, e Warren, em 1973.]

1931 – Depois de ter atravessado um processo complicado de conversão em três estágios, em que ele passou a acreditar, primeiro, na existência de uma “força maior” que controlaria o universo, tornando-se um teísta; segundo, passou a admitir que essa força maior poderia ser identificada com o Deus dos cristãos; e, terceiro, e finalmente, passa a crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e que sua morte e ressurreição de fato expia os pecados da raça humana, tornando-se um cristão no sentido pleno (segundo alguns, nem tanto…) do termo. A cronologia desses três passos é disputada. O maior desacordo é quanto à data do primeiro estágio. A maior parte dos biógrafos, com base em uma afirmação explícita de Lewis em Surprised by Joy, afirma que a data aproximada em que ele passou a acreditar em uma força genérica é o segundo trimestre de 1929. Alister McGrath, em sua primeira biografia de Lewis, afirma que Lewis errou de ano ao fazer referência ao primeiro estágio de sua conversão, e que a data correta é Março a Junho de 1930. Todos concordam que em Outubro de 1931 a conversão ao Cristianismo estivesse basicamente completada. O processo todo durou, para McGrath, basicamente um ano menos do que o próprio Lewis (que era ruim de datas) e todos os seus biógrafos, menos McGrath, acreditavam. [Confesso que acho os argumentos de McGrath, em sua primeira biografia, e no primeiro capítulo de sua segunda biografia, incontestáveis.]

1932 – Lewis publica sua primeira biografia, de forma alegórica, The Pilgrim’s Regress, na qual relata a sua conversão ao Cristianismo. [Surprised by Joy é de 1955.]

1933-1945 – Lewis escreve e publica bastante e, durante a guerra, é convidado pela BBC a dar três séries de palestras, de 1941 a 1943, sobre o Cristianismo no rádio, destinados aos soldados em guerra, tendo o texto das palestras, depois de revisados, sido publicados em três volumes separados, cada um com um título diferente.

1949 – A primeira biografia de Lewis é publicada, curiosamente, nos EUA, por Chad Walsh, com o título de C. S. Lewis: Apostle to the Skeptics. Foi essa biografia que chamou a atenção de Joy Davidman Gresham para Lewis e que a levou, primeiro, a se converter ao Cristianismo, e, em seguida, a entrar em contato com Lewis por correspondência. Joy viria a se casar com Lewis em 1956. [Trinta anos depois, em 1979, Chad Walsh publicou outro livro sobre C S Lewis: The Literary Legacy of C. S. Lewis.]

1950 – Lewis é contatado, por carta, por Joy Davidman Gresham, escritora judia e americana, que havia sido ateia e comunista, e que havia se convertido ao Cristianismo através da leitura da biografia de Lewis escrita por Chad Walsh e de alguns livros de Lewis, e enceta com ela uma correspondência intensa e prolongada.

1951 – Morre Mrs. Moore e The Kilns passa a pertencer aos dois irmãos, Jack e Warren Lewis, até a morte deles.

1952 – Os três livros com o texto das palestras radiofônicas de 1941-1943 foi revisado por Lewis e expandido, sendo juntados em um só livro, que se tornou o seu livro mais famoso, Mere Christianity.

1952 (25 Set) – Lewis se encontra face-a-face com Joy Davidman Gresham, com quem vinha se correspondendo há cerca de dois anos, e Joy fica na Inglaterra até o início de Jan 1953, passando o Natal em The Kilns, com Lewis e Warren. Volta, entretanto, antecipadamente, para os Estados Unidos, no início de Janeiro, diante do pedido de divórcio, feito por carta, por seu marido, que alega ter se apaixonado pela prima de Joy, que ficara em sua casa, cuidando dos filhos do casal durante a viagem de Joy. Diante da informação de Joy de que não contestaria a decisão, William Lindsay Gresham dá início imediato ao processo de divórcio, que, no entanto, vai tramitar lentamente, apesar do acordo entre as partes.

1953 (Nov) – Joy Davidman Gresham retorna para a Inglaterra, com seus dois filhos, David e Douglas, nascidos, respectivamente, em 1944 (27 Mar) e 1945 (10 Nov), com um ano e meio de diferença, para lá viver definitivamente, tudo dando certo. [Conforme seu filho mais novo posteriormente admitiu, ela foi para a Inglaterra decidida a se casar com Lewis.]

1954 (4 Jun) – Depois de ter sido preterido em várias eleições para o cargo de Professor Pleno em Oxford, Lewis é eleito para a cadeira de Professor de Inglês Medieval e da Renascença (Medieval and Renaissance English) na Universidade de Cambridge, que criou a cadeira especialmente para ele, e, naturalmente, aceita o cargo nessa data, pedindo sua demissão de Oxford.

1954 (5 Ago) – O divórcio de Joy Davidman e William Lindsay Gresham se efetiva.

1954 (29 Nov) – Lewis profere, no dia de seu aniversário, sua Aula Inaugural na Universidade Cambridge, Magdalene (sic) College. [Curiosamente, ele sai de Magdalen e vai para Magdalene…]

1954 (3 Dez) – Lewis realiza seu último tutorial na Universidade de Oxford.

1955 (7 Jan) – Lewis começa efetivamente a trabalhar na Universidade de Cambridge, onde apenas pesquisa e dá preleções magistrais, estando dispensado de exercer a função de Tutor — e, devidamente autorizado pela universidade, estabelece a rotina de passar a semana em Cambridge e retornar para Oxford no fim de semana, que se estende até a noite de segunda feira.

1955 (Jul) – Lewis é eleito para a British Academy.

1956 – Vence o visto de permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra.

1956 (23 Abr) – Alegando que o faz para resolver a questão da permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra, Lewis se casa com ela, diante do Registro Civil de Oxford, tendo o casamento se mantido em segredo quase universal e sido, segundo ele assevera, exclusivamente pro forma.

1956 (19 Oct) – Joy Davidman descobre que está com câncer, ao cair e fraturar o fêmur. Como se constatou, o câncer começou no seio direito e, quando foi descoberto, já estava em metástase, tendo alcançado os ossos e facilitando a fratura do fêmur em um tropeço.

1957 (21 Mar) – Em cerimônia religiosa realizada no hospital, diante de um sacerdote anglicano, mas realizada sem a autorização e contra a vontade do bispo anglicano da região, Lewis se casa no religioso com Joy Davidman, desta feita o casamento tendo sido para valer, havendo até mesmo anúncio posterior na imprensa, através de nota discreta e sucinta, que, entre outras coisas, solicitava que não fossem enviadas cartas.

1957-1960 – O câncer de Joy Davidman Lewis parece ter parado de avançar e até mesmo regredido, permitindo que o casal faça sua viagem de núpcias à Irlanda, no ano de  1958. [Misteriosa, ou miraculosamente, a dor de Joy passa gradativamente para Lewis, que havia orado pedindo que Deus transferisse para ele a dor dela. Logo depois do início das orações substitucionárias, Lewis foi diagnosticado com osteoporose nas pernas, precisando usar um aparelho no quadril (“braces“) e bengala. Lewis teve esse problema de saúde até morrer, não tendo tido coragem de pedir a Deus que o livrasse daquilo que ele próprio havia pedido, antes, que Deus lhe desse.]

1959 (26 Mar) – Lewis é eleito “Honorary Fellow” do University College da Universidade de Oxford.

1959 (Out) – O câncer de Joy volta forte.

1960 (3-14 Abr) – Lewis e Joy, junto de um casal amigo de Lewis (ele, Roger Lancelyn Green, sendo ex-aluno de Lewis, autor já reconhecido de biografias e livros para crianças, e a pessoa a quem havia solicitado que escrevesse sua biografia, quando ele morresse), fazem, contra indicação médica, uma viagem à Grécia, que era um sonho que Joy queria realizar antes de morrer.

1960 (13 Jul) – Joy David Lewis morre, depois de três anos e três meses casada com Lewis.

1961 (24 Jun) – Lewis recebe diagnóstico de que está com um quadro complexo de doenças, envolvendo, além da osteoporose, crescimento exagerado da prótese, e problema nos rins, e os médicos acham arriscado operá-lo da próstata por causa da delicadeza de sua saúde.

1961 (Out) – Lewis interrompe temporariamente suas aulas em Cambridge, por causa da condição precária de sua saúde, só voltando a trabalhar seis meses depois, em Abr 1962, quando seu quadro de saúde tem alguma melhora.

1963 (7 Jun) – Lewis retorna para passar o Verão em Oxford e lá encontra, naquele mesmo dia, e pela primeira vez, Walter Hooper, o jovem professor universitário americano, de 32 anos, com quem se correspondia há quase 10 anos, a quem “contrata” como seu secretário pessoal, para cuidar da organização de sua vida, dado o fato de que seu irmão, que era responsável pela correspondência e pela agenda de Lewis, e que estava em crise depressiva e alcoólica por causa da morte de Joy (de quem gostava muito) e da saúde ruim de Lewis, havia se mudado temporariamente para a Irlanda.

1963 (15 Jul) – Lewis tem um ataque cardíaco, entra em coma, mas no dia seguinte volta, ficando no hospital, no entanto, até 6 Ago.

1963 (Set) – Walter Hooper retorna aos Estados Unidos para exercer seu último período letivo como professor da Universidade de Kentucky.

1963 (22 Nov) – Uma semana antes de completar 65 anos, C S Lewis morre, no mesmo dia e ano em que morreram o Presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy e o filósofo Aldous Huxley, sendo (Lewis) enterrado em 26 Nov, sem que seu irmão Warren tenha comparecido nem à cerimônia religiosa nem ao enterro, que foi realizado no cemitério da Holy Trinity Church, em Headington, Oxford. Com a morte de Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente ao seu irmão Warren, até a morte deste. [Uma curiosidade meio besta… Quando Lewis morreu, sua mãe, se não tivesse morrido em 1908, estaria com 101 anos, uma idade que muitas pessoas alcançam hoje em dia, mas poucas alcançavam nos séculos 19 e 20. Assim, a vida dos dois, mãe e filho, duas gerações, se não levarmos em conta a pequena sobreposição que houve entre elas, durou apenas 101 anos.]

1964 (7 Jan) – Walter Hooper volta para Oxford e é contratado para ser Assessor Literário de Owen Barfield, grande amigo de Lewis, que, depois da morte de Lewis, foi escolhido para ser o que no Brasil se chama de Testamenteiro (Executor) de seu espólio, ficando Hooper responsável por (a) coletar e organizar os papeis que Lewis deixou que constituíam trabalhos publicáveis e ainda não haviam sido publicados; (b) acompanhar os trabalhos de Lewis que já estavam no prelo, mas não haviam sido publicados ainda; e (c) elaborar uma bibliografia completa e confiável de C S Lewis, algo que inexistia até então.

1973 (9 Abr) – Nove anos e meio depois dele, morre Warren Lewis, irmão mais velho de C S Lewis, sendo enterrado no mesmo túmulo que Lewis. Ele legou seus próprios volumosos papéis para o Wheaton College, de Wheaton, Il, EUA, aparentemente contra a vontade de Walter Hooper. Com a morte de Warren Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente a Maureen Moore, então já uma baronesa, por ter herdado o título em decorrência da morte do seu pai (em um desses intricados processos que apenas os ingleses entendem).

1974 – A biografia oficial de Lewis é publicada, com texto de Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, e com o título de C. S. Lewis: A Biography. [Na segunda edição, de 2002, 28 anos depois, o título se torna C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, mas a autoria continua de Green & Hopper, embora Green tenha morrido em 1986).

1975 – Sem a sombra de Warren Lewis, Walter Hooper assume total controle do legado intelectual de C S Lewis, como seu Testamenteiro Literário (Literary Executor).

O resto é história.

Cronologia elaborada e publicada em Salto, 6 de Julho de 2020, com base nas biografias de C S Lewis resenhadas em artigo anterior, e revisada (corrigida e ampliada) em São Paulo, em 7 e em 10 de Julho de 2020.

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

Esses três homens, com o nome acima e a foto abaixo, cada um deles grande do seu próprio jeito, morreram num mesmo dia do mesmo mês do mesmo ano: 22.11.1963.

C S Lewis, A Huxley and J F Kennedy

Ironias do destino.

Eu estava numa praia de Florianópolis naquele dia. Todo mundo que estava vivo na época se lembra de onde estava quando Kennedy, o mais conhecido deles, morreu.

C S Lewis talvez seja o mais conhecido e famoso hoje, 57 anos depois de sua morte, pelas novas gerações, por causa de The Chronicles of Narnia.

https://www.thedailybeast.com/three-great-men-died-that-day-jfk-cs-lewis-and-aldous-huxley

Em Salto, 6 de Julho de 2020.

“Chronological Snobbery”

“One of [C. S.] Lewis’s most illuminating breakthroughs came when his Oxford friend Owen Barfield convinced him of the folly of ‘chronological snobbery.’ Lewis defined chronological snobbery as ‘the uncritical acceptance of the intellectual climate common to our own age and the assumption that whatever has gone out of date is on that account discredited.’

That insight helped Lewis overcome his naïve acceptance of the latest naturalistic scientific pronouncements that led intellectual snobs such as he had been to dismiss beliefs in spiritual realities as merely ‘romantic’ or ‘medieval.’

He saw, rather, that ‘our own age is also *a period*, and certainly has, like all periods, its own characteristic illusions.’ That insight helped him get beyond the shallow modern scientifically based rationalism that had stood as a roadblock to his encountering the spiritual as real.”

[Apud George M. Marsden. C. S. Lewis’s “Mere Christianity” (Lives of Great Religious Books) (pp. 10-11). Princeton University Press. Kindle Edition.]

Transcribed here on July 6, 2020.

Biografias de C S Lewis – Uma Resenha

[Este artigo é publicado isoladamente, mas ele faz parte de um todo maior que será oportunamente divulgado. EC]

CONTEÚDO:

1. Preliminares

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. A Biografia Autorizada
B. O “Companion & Guide
C. Mais Duas Biografias

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. As Três Biografias de Alister McGrath
B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

o O o

1. Preliminares

Dentre os livros que tenho, mais de cem dizem respeito a C S Lewis. Ele podem ser divididos, mais ou menos igualmente, em duas grandes categorias: livros escritos por C S Lewis e livros escritos sobre C S Lewis. Só os meus livros de e a respeito de um outro autor são em maior número: David Hume, filósofo escocês sobre o qual escrevi minha tese de doutorado, defendida em 8 de Agosto de 1972 — daqui um mês fará 48 anos.

Entre os primeiros — livros de autoria do próprio C S Lewis — estão livros de todos os tipos: livros de poemas, livros de crítica literária e história da literatura, livros de ficção, alguns voltados para adultos e outros voltados para crianças e adolescentes, livros de cunho religioso e teológico, e livros de natureza autobiográfica (o mais importante dessa última categoria sendo uma autobiografia da primeira parte de sua vida, até meados dos anos 30 do século passado).

Entre os livro escritos sobre C S Lewis há biografias gerais, que cobrem sua vida inteira (período por período, do nascimento até a morte), há biografias que tratam de segmentos específicos de sua vida (de sua infância e juventude, por exemplo, o da fase em que ele esteve casado, seu casamento tendo se dado quando ele já era um homem maduro, se não velho: tinha quase 58 anos), há livros que analisam o mundo intelectual em que ele viveu (as ideias de seu mundo, aquelas que ele aceitou tranquilamente, e que foram poucas, e aquelas que ele criticou, em alguns casos com veemência, e rejeitou, a maioria), e há livros que analisam um ou mais aspectos de sua obra e que, em geral, por causa da quantidade enorme de seus livros, se dedicam, em regra, a um ou outro aspecto dessa obra, como sua ética, ou sua rejeição da modernidade. Não conheço nenhum livro que analise, em profundidade, toda a obra de C S Lewis, nem mesmo todas as principais, embora haja um que chega mais ou menos perto disso, e que mencionarei, no devido momento, de autoria de Walter Hooper.

Os livros escritos pelo próprio C S Lewis (ele foram todos escritos a mão, porque ele não sabia datilografar — aquilo que hoje chamamos de digitar) são sempre interessantes — mas os livros sobre ele também não deixam de ser, com uma ou outra exceção (e os que realmente não vale a pena ler eu, em geral, nem discuto — o que não quer dizer que os que não menciono neste artigo não valham a pena ler…).

Os livros sobre C S Lewis podem ser classificados de várias maneiras:

  • Livros de pessoas que conviveram com ele, como ex-alunos, colegas, e amigos, os quais em geral, gostam dele e o admiram;
  • Livros de pessoas que não conviveram com ele, os quais podem ser classificados em três tipos principais:
    • Livros de quem é simpático a ele e o defende (quando necessário) e elogia (quando recomendável);
    • Livros de quem, por uma ou mais de uma razão, não gosta muito dele e o critica;
    • Livros de quem se pretende neutro e objetivo, procurando descrever mais do que avaliar.

Das pessoas que conviveram com ele, pouquíssimas pessoas que não gostavam dele (e havia quem o detestasse) se deram ao trabalho de escrever um livro sobre ele. Neste caso, apenas fizeram referências desairosas e críticas a ele em livros cujo foco principal não era ele, era algum outro tema.

Das pessoas que não conviveram com ele, há muitos que não gostavam e ainda não gostam dele. Algumas dessas pessoas escreveram livros críticos a ele, em geral, ou, mais frequentemente, em críticos de alguns aspectos específicos de sua vida e obra (sua contribuição à crítica literária e à história da literatura; sua produção literária, tanto em prosa como em poesia, dedicada a adultos; sua produção literária dedicada a crianças; sua teologia, em especial sua defesa (apologia) do Cristianismo.

Registre-se ainda que, por vezes, alguns autores pretendem ser uma coisa, mas acabam sendo outra. O caso mais comum é o de pessoas que pretendem ou alegam ser objetivas e neutras, mas, no fundo, têm alguma antipatia para com ele, como pessoa, ou discordam frontalmente de alguns aspectos de sua obra e de suas ideias.

Isso dito, vou mencionar sucintamente os principais livros sobre C S Lewis que eu tenho usado, em maior ou menor intensidade e profundidade, para escrever meus artigos sobre ele — artigos que, oportunamente, espero transformar em um livrinho. . .

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Dentre as biografias de C S Lewis escritas por gente que o conheceu e conviveu com ele, as quatro de que mais gosto e que mais tenho utilizado são mencionadas a seguir.

A. A Biografia Autorizada

Em primeiro lugar, uma biografia a quatro mãos, escrita por duas pessoas ligadas a Lewis, Roger Lancelyn Green e Walter Hooper, com o título (atual) de C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography (Harper, New York, 1974 [1st ed], 2002 [rev. ed.]). O título da primeira edição, de 1974, era C. S. Lewis: A Biography. O título da segunda edição, de 2002, portanto, é mais incisivo: o “a” (uma) virou “the” (a) “Biography” — de C. S. Lewis: Uma Biografia passou para C. S. Lewis: A Biografia. Para que não pairassem dúvidas, foram inseridos ainda os termos “Authorised” (Autorizada) e, naturalmente, “Revised” (Revisada).

No Prefácio da segunda edição Walter Hooper, um dos autores, o mais novo deles, esclarece que, dada a morte do outro autor, em 1987, a revisão foi feita exclusivamente por ele, Hooper — embora os dois autores tenham frequentemente discutido o que precisaria ser incluído e modificado em uma nova edição. A morte de um dos autores, em si, normalmente não significa muita coisa para um livro que é reeditado: é algo que acontece com frequência. No caso, a contribuição de Green à primeira edição, também parece ter sido pequena, limitando-se ao uso feito de um diário feito por ele quando de uma viagem sua e de C S Lewis, ambos acompanhados de suas esposas, à Grécia, viagem que acabou por ser a última viagem significativa feita por Lewis e Joy Davidson Lewis, sua mulher, que já estava em seus últimos dias de vida. A viagem foi feita contra recomendação médica, para a atender ao desejo expresso de Joy de conhecer a Grécia antes de morrer. (Curioso, não? Por que a Grécia e não a Palestina, já que ela era uma judia que havia se convertido ao Cristianismo, duas religiões para as quais a Palestina era historicamente importante?)

A segunda edição contém capítulos novos e revisão dos antigos, sendo bem mais longa. Hooper poderia até mesmo ter assumido registrado apenas o nome dele como autor, dando o devido crédito, no prefácio, à contribuição de Green. Isso não seria inusitado. A razão pela qual Hooper aparentemente fez questão de manter o nome de Green como coautor, quinze anos depois de este estar morto, sem ter contribuído nada para a significativa revisão, e, assim, não tendo contribuído tanto para a obra revisada como um todo, se deve ao fato de que C S Lewis havia solicitado a Green que escrevesse sua biografia… Logo, o “Authorised” que Hooper incluiu no título da segunda edição só poderia ser mantido se Green continuasse a ser considerado um dos autores…

Consta que Hooper, que se tornou secretário particular de Lewis no final da vida deste, poucos meses antes de sua morte, em Junho de 1963, solicitou a Lewis, quando este já estava próximo da morte, permissão para escrever sua biografia autorizada, ao que Lewis teria respondido que já havia encarregado Green, seu ex-aluno e grande amigo há muito tempo, e que era um escritor (inclusive biógrafo) experiente e consagrado, que fizesse isso, e que Hooper, portanto, se entendesse com ele. O resultado foi uma coautoria, decorrente, em parte, da generosidade de Green, e, em parte, da proatividade e (até certo ponto) agressividade do jovem Hooper em relação a qualquer questão que contribuísse para que ele se tornasse, oportunamente, como de fato veio a se tornar, a grande autoridade mundial em C S Lewis.

Na qualidade de secretário pessoal de Lewis quando este morreu, e de pessoa que passou a morar na própria casa de Lewis, depois de sua morte, e que assim passou a conviver com o irmão (mais velho) de Lewis e com seu enteado mais novo (ele tinha dois), Hooper veio a ter considerável controle, desde a morte de Lewis, em 1963, dos papéis que Lewis deixou em casa ou em editoras ao morrer. Durante 12 anos, até 1975, Hooper não foi o responsável oficial pela herança intelectual de Lewis, posição que só veio a alcançar em 1975: até então era apenas um assessor literário contratado pelos testamenteiros.

De qualquer forma, essa biografia, sendo autorizada,  e sendo escrita por quem foi, tende a ser muitíssimo bem documentada, como não poderia deixar de ser, e muito sensata e equilibrada, e, portanto, confiável, embora tenha sido escrita por um grande amigo de Lewis e um admirador de Lewis (por carta, desde 1951) e que veio a ser (por pouco tempo, a partir de Junho de 1963 até sua morte), seu secretário pessoal). O único reparo a ser feito a essa biografia é que ela contem, na segunda edição, em um ou outro lugar, uma excessiva valorização do papel de Hooper na vida de Lewis, como se ele tivesse convivido presencialmente com Lewis por muito tempo — por correspondência, parece incontestável a sua alegação de que eles haviam se correspondido por doze anos antes de se conhecerem. Mas o contato pessoal, face-a-face, de Hooper com Lewis foi muito curto. Contratado em 7 de Junho de 1963, como já observado, ele teve de retornar aos Estados Unidos em Setembro para executar, por mais um período letivo, até Dezembro, o seu trabalho de professor na instituição em que trabalhava. Assim, ficou ao lado de Lewis menos de três meses. Só em Janeiro de 1964, depois de Lewis já estar morto e enterrado, ele voltou para a Inglaterra, não mais para exercer o papel de secretário pessoal, mas, agora, mediante contrato com os responsáveis pela herança de Lewis, para coletar e organizar os seus trabalhos ainda não publicados, elaborar uma lista oficial de suas publicações, e por alguma ordem nos papeis de um homem que era relativamente desleixado com seus papeis.

Mas, como já assinalei, o fato mais importante é que, a partir desse momento, ele passou a ter contato chegado, ganhando sua confiança,  com o irmão mais velho e com o enteado mais novo de Lewis, que supervisionavam a execução do legado intelectual dele. Registre-se, mais uma vez, que é sabido e notório que, a despeito de suas muitas virtudes, Lewis sempre foi meio desmazelado com seus papéis pessoais e profissionais, jogando fora, por exemplo, os originais de suas obra depois de elas terem sido publicadas, algo que muita gente, eu inclusive, acha um absurdo. Poucos manuscritos de suas obras sobraram. Quando Hooper se tornou secretário particular de Lewis, em 1963, ele tinha 32 anos e Lewis estava às portas da morte (embora não soubesse). Hooper está vivo até hoje e deverá completar 90 anos o ano que vem (2021). Mais sobre essa história, na sequência e adiante.

B. O “Companion & Guide

Em segundo lugar, mais uma obra de Walter Hooper, escrita entre as duas edições da biografia mencionada no item anterior: C. S. Lewis: Companion & Guide (Harper, San Francisco, 1996), que parece ter sido comercializado também com o título de C. S. Lewis: A Complete Guide to His Life and Works. (Provavelmente seja o mesmo livro com títulos diferentes dos dois lados do Atlântico, como acontece com livros no Brasil e em Portugal.)

Essa obra, que é bem mais do que uma simples biografia (como o título já indica), tendo 940 páginas em fonte de corpo pequeno, contém uma biografia mais resumida de Lewis, mas mesmo assim, com 120 páginas (pp.1-120), uma das mais completas e confiáveis cronologias de Lewis (pp.121-126), um longo resumo, com boa análise, de todos os seus principais escritos, devidamente classificados em “Juvenilia“, “Poetry“, “Autobiographical“, “Novels“, “Theological Phantasies“, “Theology“, “Chronicles of Narnia“, “Literary Criticism” (pp.127-548), uma discussão das “Key Ideas” de Lewis (pp.549-614), duas valiosas seções, uma, “Who’s Who“, sobre as principais pessoas na vida de Lewis (pp.615-744), e outra, “What is What“, sobre os principais lugares na vida dele (pp.745-798), e uma bem completa (até a data da sua publicação) “Bibliography of C. S. Lewis’ Writings” (pp.799-884). “Acknowledgements” (pp.885-886) e um valioso “Index” (pp.887-940) completam a obra.

Pode parecer esquisito dizer que a Bibliografia é bem completa “até a data da sua publicação”, porque, se Lewis morreu em 1963, e o livro foi publicado em 1996, que outra publicação poderia vir à tona depois dessa data? A questão é que até hoje aparecem livros inéditos de Lewis, resultado de manuscritos que são encontrados e que não haviam ainda sido publicados, cartas dele para várias pessoas, que só foram localizadas recentemente, etc. E Hooper é um incansável caçador dessas relíquias. Na opinião de alguns, publica até o que Lewis, possivelmente, não considerava para publicação, ou digno de publicação.

Apesar de a ter colocado em segundo lugar nesta minha lista, por ser muito longa e muito mais do que uma biografia, este “Companion & Guide” talvez seja a obra mais útil para consultas por quem não tem aceso a muita literatura secundária sobre Lewis.

C. Mais Duas Biografias

Em terceiro lugar, uma outra biografia escrita por um dos ex-alunos de C S Lewis (que foi aluno dele lá no início da sua vida profissional), que também se tornou seu grande amigo ao longo do tempo, George Sayer. O título dessa biografia é Jack: A Life of C. S. Lewis (Crossway Books, Wheaton, IL, 1988, 1994). Percebe-se a intimidade que o autor tinha com o biografado já no título da obra: “Jack”, o apelido de C S Lewis. Embora muita gente o chamasse de Lewis, ninguém o chamava de Clive, seu nome de batismo. Desde que ele era pequeno, ficou Jack — na sua família, Jacks.

Se essa biografia é considerada por alguns como, até certo ponto, hagiográfica (não concordo que seja), por ter sido escrita por um ex-aluno e bom amigo, alguém que, claramente, gosta do biografado e o admira com sinceridade, que sobre ele escreve com o maior respeito, e que, na dúvida, fica na posição que entende ser a favor dele, ela não é menos útil por isso. Pelo contrário. Mesmo que possa ser considerada, em um ou outro aspecto, hagiográfica, ela é um trabalho sério de historiografia, e, talvez mais importante, serve de excelente contrapeso e contraponto às duas biografias de C S Lewis escritas por A. N. Wilson, que são, em muitos aspectos, bastante críticas, como irei mencionar adiante, quando uma interpretação mais branda e neutra seria cabível. No caso de Wilson, em caso de dúvida, ele geralmente toma uma posição que deslustra a memória de Lewis.

Em quarto lugar, um outro livro biográfico interessante, também escrito por gente que conheceu bem C S Lewis, é o editado por James T. Como, C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences (Harcourt, New York, 1979, 1992 [New Edition]), que contém reminiscências de vinte e quatro pessoas, além de um artigo introdutório de Como (que, curiosamente, é o único que não conheceu Lewis pessoalmente).

Vale a pena ler essa obra, embora a natureza de cada reminiscência seja muito pessoal e, até certo ponto, subjetiva. Mas várias delas são bastante interessantes e mesmo curiosas. No conjunto, há uma razoável desigualdade na contribuição das diversas publicações.

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Entre as biografias escritas por gente que não conviveu com Lewis, mas que por ele tem simpatia, menciono cinco. As três primeiras são de um mesmo autor, o conhecido teólogo e historiador do pensamento cristão e da igreja, Alister E. McGrath, que, nascido em 1953, tinha dez anos quando Lewis morreu. É surpreendente que uma só pessoa tenha escrito três livros diferentes sobre um mesmo autor, cada um enfatizando um aspeto dele!

A. As Três Biografias de Alister McGrath

A primeira biografia, e aquela que é uma biografia no sentido mais estrito da palavra, é C. S. Lewis: A Life, que traz na capa (mas não dentro) o subtítulo Eccentric Genius, Reluctant Prophet (Hodder & Stoughton, Londres, 2013 – ano em que a morte de Lewis completou 50 anos!). Há tradução para o Português com o título A Vida de C. S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia, que nada tem que ver com o título original. Em comentário incluído na capa do livro, N. T. Wright, famoso teólogo contemporâneo, afirma: “A penetrating and illuminating study” — a biografia vem bem recomendada, portanto.

O livro tem uma organização cronológica, em cinco partes.

  • A primeira parte, com três capítulos, vai de 1898 a 1918, ou seja, do nascimento até o final da educação básica (pré-universitária) de Lewis e o início, propriamente dito, depois do atendimento de uma convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial, dos estudos de Lewis em Oxford.
  • A segunda parte, com sete capítulos, vai de 1918 a 1954, cobre a sua participação na guerra, quando já havia sido aceito pela Universidade de Oxford e morava na cidade, e sua vida em Oxford, incluindo os seus anos de estudos (1919-1925) e os seus quase trinta anos de trabalho naquela famosa universidade (1925-1954).
  • A terceira parte, curiosamente, tem dois capítulos não vinculados, em senso estrito, a um período, em particular, da vida de Lewis, mas dedicados a discutir um conjunto específico de obras: The Chronicles of Narnia (que foram sete crônicas, originalmente publicadas separadamente, em diferentes datas). O primeiro dos dois capítulos foca a questão de como Lewis chegou a escrever essa importante obra de ficção para crianças e adolescentes e de como ele veio a encarar o papel da imaginação na vida de uma pessoa, em especial de um escritor, ao lado da razão, da experiência, e das emoções. O segundo dos dois capítulos da terceira parte discute, de forma mais profunda, a (cronologicamente) primeira (e, no entender de McGrath, a melhor) das sete crônicas que compõem Narnia: “The Lion, the Witch and the Wardrobe“.
  • A quarta parte, com dois capítulos, vai de 1954 a 1963, um capítulo cobrindo de sua ida para Cambridge (1954) até a morte de sua mulher (1960), o outro cobrindo da morte da mulher até a sua própria morte (1963).
  • A quinta parte, final, com um capítulo só, não está, da mesma forma que a terceira parte, vinculada a um período específico de sua vida, na verdade discutindo sua pós-vida: “The Lewis Phenomenon“.

A quinta parte contém uma discussão que eu, pessoalmente, reputo fantástica de um tema  que é retomado no último capítulo da segunda obra, a seguir descrita.

A segunda biografia de McGrath é mais uma biografia intelectual, The Intellectual World of C. S. Lewis (John Wiley & Sons, Chichester, 2014), publicada um ano depois do livro anterior. Nessa obra McGrath se preocupa mais com as ideias de Lewis, que, na obra, são discutidas na forma de “ideias chave” (“key ideas“). De cada uma dessas ideias, sete ao todo, McGrath estuda o seu pedigree, por assim dizer, e o seu mérito. O oitavo capítulo trata do mesmo assunto da quinta parte do livro anterior.

  • Em primeiro lugar, a ideia de uma autobiografia, tipificada especialmente por Surprised by Joy [Surpreendido pela Alegria, na tradução para o Português], mas que é retomada em Grief Observed [A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação, na tradução para o Português], tendo também sido usada, de forma alegórica, em The Pilgrim’s Regress, livro que é unanimemente considerado autobiográfico.
  • Em segundo lugar, o tipo de ateísmo que Lewis adotou durante cerca de 25 anos, dos dez ou onze anos aos cerca de trinta e cinco ou trinta e seis anos, nas décadas de 10, 20 e 30 do século 20 — que não foi, como muitas vezes é o caso, um “ateísmo relutante”, que sente saudade dos tempos de fé, mas um ateísmo abraçado com gosto, visto como uma espécie de liberação.
  • Em terceiro lugar, a questão dos mitos, e até que ponto eles podem revelar a verdade, e o seu papel na sua conversão para o Cristianismo (que ele não considerava uma reconversão, porque concluiu que nunca havia se convertido ao Cristianismo antes).
  • Em quarto lugar, o que McGrath chama de “a metáfora ocular”, que envolve o uso dos conceitos de luz, sol, e visão, na obra de Lewis, aparentemente dando uma importância maior ao visual do que ao audível e aos demais processos sensoriais.
  • Em quinto lugar, o conceito de Alegria, termo sempre escrito com inicial maiúscula, que é relacionado ao chamado “argumento do desejo”, apresentado por Lewis.
  • Em sexto lugar, o método apologético de Lewis, envolvendo razão, experiência e imaginação. (Talvez falte explicitar a emoção nesse contexto, fazendo de uma trindade uma quaternidade.)
  • Em sétimo lugar, a proposta de um “Mero Cristianismo”, um Cristianismo focado nos essenciais, que não considera, e mesmo desdenha, as questões secundárias de doutrina, conduta e organização eclesiástica, em grande parte responsáveis pelos cismas e pelas divisões do Cristianismo, e, no caso do Protestantismo, pelo denominacionalismo.
  • Por fim, em oitavo lugar, a tese (de McGrath) de que a ideia de um “Mero Cristianismo” solapou as ideias de igreja e denominação, bem como a ideia de que uma boa teologia é feita somente por teólogos profissionais, nunca por teólogos leigos e populares, em linguagem acessível, em livros curtos e baratos…

Vale a pena ler, em especial a tese desse oitavo capítulo. Ela explica a aceitação de C S Lewis por pessoas de basicamente todas as denominações protestantes, e até por católicos e por desigrejados. E explica por que parece haver, a partir de meados dos ano oitenta, uma verdadeira guerra de bastidores sobre quem vai conseguir “engaiolar” o livre pássaro que é Lewis: se os evangélicos conservadores de Wheaton, nos Estados Unidos, ou os católicos conservadores ligados a Walter Hooper, que, apesar de americano, se radicou na Inglaterra, e representa, em relação a Lewis, uma tendência mais conservadora ainda do que a dos evangélicos de Wheaton, apresentando um Lewis menos evangélico e mais “high church” e, por conseguinte, mais próximo da Igreja Católica. Registre-se que Walter Hooper, que foi ordenado sacerdote na Igreja Anglicana, posteriormente se converteu à Igreja Católica e é hoje um padre católico, devidamente aposentado de seus deveres sacerdotais, mas ainda zelando, aos quase 90 anos, pela obra e pelo bom nome de C S Lewis, que ainda é seu ídolo, mas que encontrou no Papa João Paulo II um significativo concorrente…

A terceira biografia de McGrath não é bem uma biografia: é uma tentativa de aplicar o pensamento de C S Lewis para os dias atuais — algo parecido com uma coleção de sermões baseados em textos lewiseanos. Mas é interessante, porque ilumina o entendimento que McGrath tem do pensamento de Lewis. O título, curioso e chamativo, é If I Had Lunch with C. S. Lewis: Exploring the Ideas of C. S. Lewis on the Meaning of Life (Tyndale, Carol Stream, 2014). Há tradução para o Português, com o título, mais uma vez não fielmente traduzido, Conversando com C. S. Lewis. Para quem nunca leu nada de C S Lewis, esta é uma excelente — e cativante — introdução ao seu pensamento.

B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

Em quarto lugar, para um tratamento mais acadêmico de Lewis, focado em sua obra mais do que em sua pessoa, há uma livro centrado em suas ideias, editado por Robert MacSwain & Michael Ward, The Cambridge Companion to C. S. Lewis (Cambridge University Press, Cambridge, 2010). Há vinte e um artigos, incluindo uma Introdução por MacSwain. Vale a pena ler, se você está interessado numa análise mais acadêmica das ideias de Lewis. Em geral, o mundo acadêmico na área da Teologia e da Filosofia olha para Lewis com um certo ar de superioridade e desdém… Confira isso lendo esse livro.

Por fim, em quinto lugar, para um tratamento mais focado na teologia de C S Lewis, propriamente dita, recomendo a edição revisada e atualizada do livro C. S. Lewis and the Search for Rational Religion (Prometheus, Amherst, 1985, 2007 [rev. & upd]), de John Beversluis. O livro tem como mote uma importante citação de Lewis que fundamenta o título do livro: “Não peço a ninguém que aceite o Cristianismo se sua razão [‘o seu melhor raciocínio’] lhe diz que o peso da evidência é contrário a ele”. Essa citação explica o título do livro, que defende a tese de que Lewis buscava uma “religião racional”. Essa tese desafia o autor a explicar o que Lewis entende pela graça e pela fé. Desafia também a acomodar a abordagem racional com a abordagem imaginativa, que toca as emoções, que era tão importante para C S Lewis.

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

Com isso eu chego à discussão do último biógrafo de C S Lewis que me interessa mais de perto, a saber, A N Wilson — um biógrafo que, no início, em especial ao longo do seu primeiro livro sobre Lewis, permaneceu meio desconfiado e bastante distanciado de seu biografado, criticando-o levemente aqui, mais fortemente ali, elogiando-o em outro lugar e, por vezes, até mesmo reconhecendo o seu gênio.

No início de seu segundo livro sobre Lewis, Wilson critica bastante, não tanto Lewis, mas os seus seguidores. Acusando os seguidores mais militantes de Lewis de criarem um “culto” em que o irlandês se tornou basicamente um santo, do qual os eventuais erros, exageros e pecadilhos precisam ser removidos ou escondidos, Wilson divide o “culto” em basicamente dois grupos, que serão mencionados adiante.

Fora do “culto”, que é muito criticado, em suas duas vertentes, Wilson mantém as críticas a certos aspectos da pessoa e do pensador que ele nunca aceitou, mas tem palavras extremamente elogiosas sobre o famoso irlandês. Declara, ainda, que, em muitos aspectos, ele mudou de opinião, em especial em relação à pessoa de Lewis, enquanto pesquisava para escrever o segundo livro e fazer um programa de televisão sobre Lewis para a BBC.

A N Wilson é o que poderíamos chamar de “biógrafo profissional”, embora ele escreva também “biografias de períodos históricos”, se é que é possível usar o termo “biografia” nesse sentido, e também se dedica, talvez nas horas vagas, a escrever ficção. Ele, como Alister McGrath, nasceu em 1953, dez anos antes de Lewis morrer, e já escreveu biografias sobre gente do mais alto coturno. De um lado, Rainha Victoria, Príncipe Albert (marido da Rainha Victoria), Rainha Elizabeth, Hitler, pessoas importantes no mundo político. De outro lado, pessoas importantes no mundo intelectual também foram biografadas por ele: Dante Alighieri, John Milton, Charles Darwin, Lev Tolstoy, John Betjeman, Iris Murdoch. Mas ele escreveu também biografias de Jesus e do Apóstolo Paulo — apesar de ser crítico do Cristianismo — e das religiões, em geral. Em 1991, quando começou a surgir o terror de fundo religioso, com a perseguição do escritor Salman Rushdie pelos muçulmanos, ele escreveu Against Religion: Why We Should Live Without It.

Quanto ao que chamo de “biografia de período”, escreveu vários livros sobre o período Vitoriano (além da biografia da Rainha Vitória e de seu marido, obras sobre os pré-vitorianos, os vitorianos, propriamente dito, os pós-vitorianos, o legado do período vitoriano) e, em 1995, uma obra importante, já mencionada, sobre os céticos, agnósticos e ateus do século 19 (o século da Rainha Victoria), principalmente na Inglaterra: God’s Funeral. Só se concebe um funeral de Deus, se ele está morto, ou se se imagina que ele morreu de vez…

É curioso que uma pessoa que acha que devemos viver sem religião tenha escrito biografias, entre outras, de pessoas que davam (ou, pelo menos, parecem ter dado) enorme importância à religião, como Jesus, Paulo, Dante, Milton, Tolstoy e C S Lewis! E, sobre Lewis, Wilson escreveu dois livros e participou da elaboração de um programa de televisão para a BBC!

Wilson confessa, em seu segundo livro sobre Lewis, que a biografia que anteriormente havia publicado sobre ele, C. S. Lewis: A Biography, de 1990, foi a única biografia que ele escreveu “sob encomenda e pressão”, isto é, porque insistiram que ele a escrevesse (e, provavelmente, pagaram bem). Ele admite que não gostava do biografado (embora reconhecesse alguns dos seus méritos e o seu gênio). No seu segundo livro sobre Lewis, um livro pequeno (72 páginas), na série “Kindle Single”, que tem como título C. S. Lewis: The Man Behind Narnia (Amazon, Seattle, 2013), Wilson faz algumas admissões e confissões importantes. O primeiro capítulo dessa segunda biografia contém algo que parece fora de lugar em um livro que parece prometer uma descrição de como surgiu Narnia, que é indicado no título: “C. S. Lewis and I”. Ou seja: neste primeiro capítulo Wilson inclui uma pequena parte de sua própria autobiografia na biografia de Lewis…

O primeiro livro de A N Wilson sobre Lewis, C. S. Lewis: A Biography (Norton, New York & London, 1990, 2002), faz críticas ao biografado (e aos seus seguidores), mas é um livro bem pesquisado e que levanta algumas questões bastante curiosas, raramente tratadas fora desse livro (e do segundo que escreveu sobre Lewis).

O livro, além de um interessante Prefácio, tem 21 capítulos, dos quais o primeiro trata da pré-vida de Lewis, com o título “Antecedents“, e o último, do pós-vida, com o sugestivo título “Further Up and Further In“. Os dezenove capítulos que tratam da sua vida a quebram em blocos de anos, que abrangem de dois a oito anos (o de maior abrangência cronológica cobrindo os anos 1898-1905, e o de menor abrangência, os anos 1959-1960). As questões mais controvertidas estão no Prefácio e no capítulo 21.

No Prefácio, que tem o título de “The Quest for a Wardrobe“, Wilson conta um pouco da sua busca por aquele que pode ter sido o guarda-roupa que teve papel importante na primeira crônica de Narnia (primeira, cronologicamente falando, porque na versão do livro compilada em um volume ela curiosamente não aparece em primeiro lugar, nem na versão original, nem na versão em Português. Curiosamente, o guarda-roupa aparentemente está em Wheaton, a grande cidadela do Evangelicalismo americano…

No último capítulo do primeiro livro, Wilson discute a questão do “Culto de/a Lewis” (Lewis Cult), em suas duas versões (que é como ele vê esse culto).

O segundo livro de A N Wilson, como já disse, é pequeno. Tem o título de The Man Behind Narnia (Amazon, Kindle Single, s/d). Embora o livro (na edição Kindle, da Amazon) não tenha a sua data de publicação explicitada, por suas primeiras frases depreende-se que ele foi escrito 25 anos depois do livro anterior — vale dizer, em 2015. Quando Wilson publicou o primeiro livro, tinha 37 anos. Ao publicar o segundo, tinha 62. Teve tempo suficiente para amadurecer.

No já mencionado primeiro capítulo desse segundo livro, que é intitulado “C. S. Lewis and I“, ele faz referência a uma “crise de meia idade” que ele, Wilson, teve nesse longo intervalo, e se pergunta se C S Lewis teve alguma coisa que ver com essa crise. Só ele admitir a existência dessa crise e fazer essa pergunta já é algo significativo. Mas ele vai além e é incrivelmente franco e transparente nas coisas que admite e confessa.

Para realçar o significado e a importância dessa crise de meia idade, Wilson conclui a primeira seção do primeiro capítulo desse segundo livro fazendo uma constatação e uma admissão. Faço questão de citar a passagem inteira:

“Quando eu estava escrevendo minha vida de Lewis, eu comecei a pensar que, talvez, sua apresentação da fé pudesse estar certa, se a encarássemos de forma ampla. Mas em vez de me persuadir da verdade do Cristianismo, essa apresentação de Lewis teve o efeito oposto. Lewis, como já disse, apresenta um Cristianismo sem compromissos. Ou você acredita em Deus — ou não acredita. Ou milagres acontecem — ou eles não acontecem. Ou Jesus é o Filho de Deus — ou não é. Ou ele nasceu de uma Virgem, e ressuscitou dentre os mortos — ou não. Os livros de Lewis não deixam nenhuma dúvida de que lado ele está. Mas quanto mais eu lia, mais claro me ficava que eu não estava do lado dele. Seria uma grande injustiça dizer que a leitura de Lewis me converteu ao ateísmo, mas foi enquanto eu lia que eu percebi que ia perdendo a minha fé. Eu não acreditava, pelo menos não do jeito que ele acreditava. Enquanto escrevia o livro, porém, eu fui desenvolvendo uma certa afeição por Lewis, o homem, mesmo reconhecendo que ele era tão diferente de mim quanto era possível ser.”

Mais adiante, ainda no primeiro capítulo da segunda biografia, mas agora na terceira seção, Wilson faz outra afirmação interessante:

“Quando minha biografia foi publicada, eu fui convidado a discuti-la numa igreja famosa de Londres. . . . O vigário ficou em um púlpito e eu em outro. Não sabia, quando subi ao púlpito, que se esperava que eu desse um ‘testemunho’… Mas no curso da discussão, alguma coisa baixou em mim. Quando eu subi para o púlpito, eu ainda acreditava (mais ou menos) no Cristianismo. Quando eu desci do púlpito, eu era um ateu fervoroso. Era a primeira vez que eu era fervoroso em alguma coisa. Na verdade, eu tive algo parecido com uma experiência de conversão evangélica, só que pelo avesso. Enquanto a gente discutia Mero Cristianismo e as falsas certezas e a fantasiosa consolação que ele oferecia, eu fui subitamente possuído de um tipo de ira, ali mesmo no púlpito. [ . . . ] E comecei a gritar que eu não acreditava no Mero Cristianismo, nem em nenhum outro tipo de Cristianismo. Percebi, de súbito, que eu era um ateu, e que tudo aquilo que o livro continha não passava de lixo. Mas, em um sentido, Lewis estava certo: ou você crê ou você não crê. Mas quanto a mim, perguntava-me: como é que pode haver gente que crê? Andar na água? Transformar água em vinho? Anjos?” [Ênfases acrescentadas.]

Diferentemente do que ele fazia com outros biografados, Wilson, ao terminar a primeira biografia de C S Lewis, nunca leu mais nada que Lewis escreveu: fez greve de Lewis, passou 25 anos sem ler nada de sua pena (e, no caso, era literalmente uma pena…). Na verdade, Wilson fugia de Lewis. No fundo, ele culpava Lewis por tê-lo tornado um ateu convertido, um ateu nascido de novo…

Mas, acaso ou providência, ele foi convidado pela BBC para fazer um programa sobre Lewis para a TV britânica.

No processo de fazer esse programa, ele releu vários livros de C S Lewis, conversou com (na sua estimativa) quase todas as pessoas que conheceram Lewis e, em 2015, ainda estavam vivas, visitou vários dos lugares em que foram importantes na vida de Lewis: a casa em que ele morou, que Wilson descreve como tendo dimensões palacianas, cheia dos livros de seu pai, e em que começou a sua trajetória de escritor, escrevendo suas primeiras obras (na coleção que Hooper descreve como “Juvenilia”), as várias casas em que morou com Mrs. Moore, e, finalmente, a casa chamada “The Kilns”, que foi comprada, em sociedade não igualitária, por Mrs. Moore, Lewis e seu irmão Warren, e em que todos esses três moraram até morrer, conforme acordado em contrato. Depois da morte do último deles (Warren), a casa passou para a propriedade da filha de Mrs. Moore.

(Parêntese: Caso você não saiba, Mrs. Moore, ou Janie King Askins Moore, foi uma mulher, mais de 20 anos mais velha do que Lewis, que viveu com ele de 1917 até a morte dela, em 1951, ou seja, durante 34 anos. Quando se conheceram, ela era casada mas separada do marido já há cerca de dez anos. Embora, oficialmente, o relacionamento entre Lewis e Moore tenha sido de “filho adotado” e “mãe substituta”, hoje é aceito por vários autores (que não consideram Lewis um santo, inclusive A N Wilson), que eles viveram juntos como homem e mulher esse tempo todo — ou, pelo menos, até que Lewis se converteu ao Cristianismo. Wilson, em 2015, entrevistou a filha de Mrs. Moore, hoje uma baronesa, que teria admitido para ele que ele estava certo ao presumir que o relacionamento da mãe dela com Lewis havia sido marital e sexual, até mesmo agradecendo a ele por ter finalmente revelado a verdade, com todas as letras, em sua primeira biografia de Lewis, publicada em 1990. Mais detalhes neste artigo: https://www.essentialcslewis.com/2017/06/10/cmcsl-3-lewis-and-mrs-moore-were-secret-lovers/. Entretanto, registre-se que William O’Flaherty, que escreveu e publicou esse artigo, provavelmente não havia lido a admissão da filha de Mrs. Moore, que é transcrita na segunda biografia de Lewis publicada por Wilson em 2015. Fim do parêntese.)

Enfim, em decorrência das novas pesquisas feitas para a elaboração do programa de televisão da BBC, e relatadas em The Man Behind Narnia, é possível concluir que Wilson mudou sua avaliação de Lewis, o homem, concordando com seus admiradores que Lewis, depois de uma infância sofrida, após a morte da mãe, quando ele tinha nove anos, e de juventude meio complicada, tornou-se uma pessoa de excelente caráter, magnânimo e generoso. Quanto à sua avaliação da obra de C S Lewis, Wilson continua a admirar sua obra estritamente acadêmica, como crítico literário e historiador da literatura, continua a detestar a maior parte de sua obra mais teológica, em especial Mere Christianity, mas passou a apreciar bastante livros como A Grief Observed. Quanto a The Chronicles of Narnia, Wilson, depois de reler a coleção, em voz alta, junto das filhas, a pedido delas, que adoravam o livro, passou a achar que há, no livro, trechos geniais, ao lado de passagens que ele continua a detestar. A propósito, A N Wilson voltou para a Igreja Anglicana. Se foi por influência de Lewis, é de duvidar, porque Lewis, embora também anglicano, não defendia as características mais “high church” de sua denominação, e Wilson parece sentir prazer nelas.

Wilson fecha seu segundo livro sobre C S Lewis com esta sóbria conclusão: “Assim, embora a experiência de revisitar Lewis e sua obra tenha inspirado em mim uma admiração pela sua bondade pessoal, creio que eu gosto de sua obra menos ainda do que eu gostava anteriormente”.

Mas, enfim: nada como viver a vida, aprendendo com a vida da gente e a dos outros.

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

A N Wilson não tem dúvida de que existe um “Culto de/a Lewis” — que Lewis está no processo de ser “mitologizado” — e que esse culto tem duas vertentes, que duelam, entre si, não só para abocanhar manuscritos e memorabilia de Lewis, mas para controlar a narrativa acerca dele que é geralmente aceita.

Por volta de 1966, três anos depois da morte de Lewis, os esforços de Walter Hooper controlar o que se sabe e se conhece sobre Lewis ganhou um forte concorrente: Clyde S Kilby, do Wheaton College, de Wheaton, IL, a cidadela do Evangelicalismo americano, que tem um centro para preservar as memórias e relíquias de Billy Graham, criou um centro para fazer o mesmo, não só em relação a C S Lewis, mas em relação a todos os seus amigos de Oxford que formavam o grupo, criado e liderado por Lewis, e que durou mais de 30 anos, com reuniões semanais, chamado “The Inklings“. (Além de C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams, Owen Barfield, Warren Lewis, e vários outros faziam parte do grupo). Há inúmeros livros sobre The Inklings: Clyde S. Kilby, A Well of Wonder: Essays on C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and The Inklings; Philip Zaleski & Carol Zaleski, The Fellowship: The Literary Lives of the Inklings: J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis, Owen Barfield, Charles Williams; Humphrey Carpenter, The Inklings: C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams and their Friends; Colin Duriez, The Oxford Inklings; Harry Lee Poe & James Ray Veneman, The Inklings of Oxford: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and Their Friends; etc.

Kilby conseguiu convencer Warren Lewis, o irmão de C S Lewis, a legar os seus papéis (e ele era o historiador da Família Lewis) para o centro de Wheaton — o que criou um certo ciúme em Walter Hooper, que havia se anglicizado e defendia a tese que os papéis de C S Lewis deveriam ir para a Bodleian Library, de Oxford. Como já dito atrás, Hooper estudou teologia, tornou-se sacerdote anglicano, e, depois de uma audiência com o Papa João Paulo II, que confirmou que gostava muito dos livros de C S Lewis, Hooper se converteu ao catolicismo, passando a ser um padre católico, que continua a ser, apesar de aposentado.

Enfim, as duas vertentes do “Culto de/a Lewis” são:

Essas duas instituições, o Wade Center e a Bodleian Library, se comprometeram a compartilhar os seus recursos através de cópias da melhor qualidade possível, de modo que o ambas pudessem ter uma cópia completa, ou quase, do acervo.

Não haveria problema em haver dois Centros de alta qualidade acumulando documentos e memorabilia de C S Lewis. Pelo contrário: a duplicação é benéfica. O problema é que cada um desses centros está tentando a construir uma narrativa acerca de C S Lewis, e uma imagem dele, aquilo que A N Wilson chama de “uma mitologia”, que não corresponde ao C S Lewis real.

De um lado, em Wheaton, que é um college evangélico-conservador, o fumo, a bebida,  o uso de palavrões, etc., tudo isso é condenado. No entanto, Lewis é uma pessoa que fumava três maços de cigarro por dia, e, nos intervalos, fumava um cachimbo, que bebia cerveja em doses generosas, bem como bebidas bem mais forte, que não hesitava, dependendo do contexto, em usar palavrões e contar piadas de gosto duvidoso, que, se confirmada a história do relacionamento entre ele e Mrs. Moore, teve um relacionamento prolongado com uma mulher casada, que nunca se divorciou, e que, depois, se apaixonou por uma mulher que era separada, antes de seu divórcio se concretizar, vindo a se casar com ela quando o divórcio foi finalizado. Isso tudo, apesar de ter afirmado, em Mere Christianity, que o Cristianismo só admite relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência, e que o Cristianismo não admite o divórcio, com a consequência de que um casamento de um solteiro com uma pessoa divorciada, ou um segundo casamento de uma pessoa divorciada, se consumado, implica em adultério (vide a esse respeito meu artigo “O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis”, em meu blog C S Lewis Space, em https://cslewis.space/2020/07/02/o-cristianismo-tem-uma-visao-unica-do-casamento-a-proposito-das-ideias-e-da-vida-de-c-s-lewis/). Diante desses fatos, essas características inegáveis da vida de Lewis (fumar, beber, linguagem de mau gosto, etc.) têm de ser, se não ignoradas, desenfatizadas e abrandadas na narrativa evangélica, para que Lewis, que inegavelmente é um ícone do evangelicalismo americano, possa parecer menos incoerente com o ideário evangélico.

De outro lado, o grupo que reconhece o inegável papel de Hooper na preservação da memória e das ideias de C S Lewis, têm que conviver com um processo de quase beatificação de Lewis. Nesse processo, Hooper não só tem negado que Lewis viveu maritalmente com Mrs. Moore, o que muita gente nega, mas tem sugerido que ele chegou virgem ao seu casamento com Joy Davidman, e, que, depois de casado com ela, não consumou o casamento, tendo vivido até a morte em virgindade perpétua… Acontece, que para poder, se não afirmar, mesmo sugerir isso, Hooper afronta evidência manifesta ao contrário deixada, por escrito, não só por Joy Davidman Lewis, mas pelo próprio C S Lewis.

Como diz A N Wilson, nem o Lewis dos Evangélicos, nem o Lewis dos Católicos, corresponde ao Lewis real, ao Lewis histórico, por assim dizer, que foi uma pessoa de caráter bom e generoso — mas que não foi, em sua vida, nem o evangélico ideal nem o santo que estão tentando fazer dele. Isso em relação à sua pessoa. Em relação às suas ideias, elas não conflitam com os ideários evangélico e católico — embora bem menos no primeiro caso do que no segundo.

Para fechar este capítulo do que será um trabalho maior, cito algumas passagens da primeira biografia de Wilson:

“As disputas entre estudiosos e guardiães da memória de C. S. Lewis não são edificantes, mas elas refletem muito mais do que um debate acadêmico ou um desejo mercenário de ter mais manuscritos valiosos. Na verdade, a despeito do que alguns cínicos afirmam, parece não haver avareza nesses embates. O que emerge é uma profunda divergência de visões imaginativas de mitologias rivais. Aqueles que têm podido testemunhar o espetáculo têm sido capazes de observar, em microcosmo, algo que talvez seja sintomático do pensamento religioso como um todo: a necessidade de construir imagens e adorá-las. O Marion E. Wade Center do Wheaton College mantém viva a imagem de um Lewis evangélico, simples em sua devoção a um ‘mero Cristianismo’, e preocupado com questões teológicas, quase de forma exclusiva, sem quase nenhum outro interesse. Não é uma imagem totalmente falsa. O próprio Lewis ajudou a construir essa ‘persona‘, tanto nos escritos religiosos que ele publicou como nas cartas que ele enviou às pessoas que, aos milhares, lhe escreviam pedindo ajuda para sua busca religiosa. [ . . . ] Mas há algo que chega perto de uma farsa quando se constata a discrepância que existe entre o que se propõe e a realidade. O mesmo sentimento de choque surge quando se participa de uma reunião da C. S. Lewis Society de Oxford, com a presença da Walter Hooper, onde um C. S. Lewis celibatário e defensor da ‘High Church’ é reverenciado. A evidência é apenas de interesse periférico quando a imaginação idólatra está em ação. [ . . . ] Como disse um outro dos autores do panteão de Wheaton, ‘A espécie humano não pode suportar uma dose muito grande de realidade’. [ . . . ] C. S. Lewis se tornou uma figura mitológica, e, portanto, parece legítimo para algumas pessoas recontar sua história sem levar muito em conta a evidência empírica, da mesma forma que os poetas contaram e recontaram as histórias da mitologia grega ou nórdica”.

É legítimo perguntar: ou da mesma forma que os evangelistas contaram a história de Jesus?

Fico por aqui nesta resenha de biografias…

Em Salto, 4 de Julho de 2020

50 Anos sem C S Lewis (1898-1963)

NOTA:

O post abaixo foi escrito em 22 de Novembro de 2013, ocasião em que se comemorou o Jubileu de Ouro da morte de C S Lewis (Clive Staples Lewis). Na ocasião, não tinha planos de ter um blog especificamente sobre C S Lewis, razão pela qual publiquei o artigo em meu blog Liberal Space, em https://liberal.space/2013/11/22/50-anos-sem-c-s-lewis-1898-1963/. Agora, em que criei este blog, republico-o aqui, sem maiores alterações, como o primeiro post do novo blog.

C S Lewis morreu no mesmo dia (22 de Novembro de 1963) em que morreram duas outras pessoas famosas: John Fitzgerald Kennedy e Aldous Huxley. Ao morrer, Kennedy tinha 46 anos, Huxley, 69, e Lewis, 64 (faltando uma semana para completar 65). (Vide, no site On this Day, o artigo localizado em http://www.onthisday.com/deaths/date/1963/november/22.

o O o

50 Anos sem C S Lewis (1898-1963)

Hoje faz 50 anos que morreu C S Lewis (29-11-1898 / 22-11-1963). Escritor, acima de tudo. Especialista em literatura medieval. Escritor de livros para crianças. E teólogo que escreveu para o grande público. Dentro da teologia, foi um apologeta – um defensor do Cristianismo. Mas não foi sempre um defensor da fé cristão. Por um bom tempo foi ateu. Depois se converteu ao Cristianismo.

Trabalhou nas duas grandes universidades inglesas: Oxford e Cambridge. Mais em Oxford, onde trabalhou primeiro.

Durante a maior parte de sua vida foi um solteirão, que morava com seu irmão, historiador, também solteirão. [Chamo de “solteirão” uma pessoa mais velha que optou por não se casar.] Em 1956 se casou com Joy Davidman, uma escritora americana, divorciada, com dois filhos, dezessete anos mais nova que ele. Ela morreu de câncer quatro anos depois do casamento. A história da amizade, da admiração mútua, da parceria e finalmente do amor deles tem sido objeto de vários livros e de mais de um filme. O mais lindo deles, na minha avaliação, é Shadowlands (Terras de Sombra), em que Lewis é representado pelo incomparável Anthony Hopkins e Debra Winger faz o papel de Davidson.

Seu livro mais interessante, do ponto de vista teológico e apologético, é Mere Christianity Cristianismo Puro e Simples, em Português. Foi escrito durante a Segunda Guerra na forma de conversas ao rádio com as tropas ingleses que estavam no campo de batalha. É um bestseller até hoje.

The Chronicles of Narnia (As Crônicas de Narnia) já gerou quatro filmes de cinema, filmes de TV, programas de rádio. Lewis era amigo chegado de J. R. R. Tolkien, que escreveu a série The Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis).

Um grande intelectual, um grande autor, um grande cristão, e, acima de tudo, um grande homem.

Em São Paulo, 22 de Novembro de 2013 (revisto em Salto, 1 de Agosto de 2017)