C S Lewis e Algumas Igrejas Protestantes Brasileiras Hoje (Felizmente, a Minoria)

Na coletânea de ensaios, artigos e outros textos de C S Lewis que W Hooper publicou, em 1970, sete anos depois da morte de Lewis, com o curioso título de God in the Dock (Deus no Banco dos Réus), há um único texto inédito — nunca antes publicado. Trata-se do texto que serviu de base para uma palestra, ministrada em 1945, para pastores recém-ordenados da Igreja Anglicana do País de Gales, sobre o tema “Christian Apologetics” (Apologética Cristã).

No texto Lewis, de certo modo, compara a função do apologeta (que, por exemplo, ele, como leigo na igreja, pode exercer) com a função do pastor, que, em regra, precisa ser investido no cargo pela igreja, através do processo formal de ordenação. (Note-se que, na Igreja Católica, com a qual a Igreja Anglicana se parece muito, a ordenação é tão importante que se tornou um dos sete sacramentos: em vez de passar pelo casamento, outro sacramento, o sacerdote passa pela ordenação, de certo modo se casando com a Igreja, de uma forma tão definitiva, “até que a morte os separe”, quanto a Igreja Católica considera o casamento entre um homem e uma mulher). Uma função importante do pastor, em especial na tradição protestante, em que a Igreja Anglicana se situa, é proclamar a mensagem básica do Cristianismo, em geral usando um texto bíblico como base. A função principal do apologeta é defender a mensagem básica do Cristianismo contra ataques de hereges e infiéis.

Lewis, que não tergiversa, e que prima pela clareza e precisão do que diz, faz questão de enfatizar três pontos.

Primeiro, para Lewis a “mensagem básica do Cristianismo” que é necessário explicar (esclarecer), defender (manter pura) e proclamar (pregar, anunciar) é algo preciso, de contornos bem definidos. Contrário a alguns protestantes que adotam o princípio do “Sola Scriptura” de forma radical, para Lewis a mensagem básica do Cristianismo, enquanto tal, antes de o Cristianismo se dividir entre Ocidental e Oriental, Latino e Grego, e antes de o Cristianismo Ocidental se dividir entre Católico e Protestante, está contida em vários documentos clássicos do Cristianismo: a Bíblia (canônica), os credos geralmente aceitos, as decisões dos principais Concílios Ecumênicos, e as obras dos principais Pais da Igreja considerados ortodoxos (isto é, não condenados como hereges por algum concílio). Enfim: os três grandes C’s, Cânon, Credos, Concílios, mais as obras dos Pais da Igreja considerados ortodoxos (não considerados como hereges – vários o foram). Os principais Credos são o Apostólico, o Niceno e o Calcedônico. Os principais Concílios são os quatro primeiros: Nicéia (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Niceia e Calcedônia são especialmente importantes porque definiram, de uma vez por todas, a doutrina da dupla natureza (humana e divina) de Jesus Cristo (em Niceia) e a doutrina da Trindade (em Calcedônia). Os Pais da Igreja mais importantes são, para Lewis, Atanásio (296/298-373), pelo seu papel na definição da doutrina da Encarnação e na definição (definitiva, malgrado Lutero) do Cânon do Novo Testamento, e Agostinho (356-430), por seu papel em quase tudo mais (doutrina da Trindade, doutrina da Igreja, doutrina do Estado, etc.).

Segundo, para Lewis há um método no processo de explicar, defender e proclamar a mensagem básica do Cristianismo. Todo estudante de Teologia e pastor deveria saber isso na ponta da língua. O primeiro passo desse método é descobrir o que esses textos clássicos de fato dizem. Isso se faz através do processo chamado de Exegese, que envolve o uso das ferramentas da crítica textual (chamada de baixa crítica), aplicada de preferência nos textos em sua língua original, da crítica literária e da crítica histórica (que, juntas, são chamadas de alta crítica), e, assim, chegar a uma conclusão acerca do que o texto estava dizendo no contexto e na língua original. O segundo passo do método é transpor a mensagem encontrada para o contexto atual e a língua usada no local em que se está explicando, defendendo e proclamando a mensagem. Isso se faz através do processo chamado de Hermenêutica.

Terceiro, o processo tem uma direção correta: partir daquilo que, apesar de surgido em um contexto histórico, geográfico, linguístico específico, é atemporal (o mesmo “ontem, hoje e para sempre”; Hebreus 13:8), ubíquo (aplica-se em todo e qualquer lugar), e, portanto, inegociável, e explicar (teólogo), proclamar (pastor) e defender (apologeta) essa mensagem básica do Cristianismo, a “fé uma vez por todas entregue aos santos” (Judas 1:3). Não é admissível executar o processo na direção oposta: pegar algumas ideias atuais que se deseja propor e defender “e ornamentar essas ideias com a linguagem tradicional do Cristianismo” [Deus no Banco dos Réus, p.118].

A tese de C S Lewis é uma tese antiga mas, ao mesmo tempo, contemporânea em sua relevância. Hoje em dia é comum verificar, nos púlpitos de nossas igrejas, essa inversão do processo a ser seguido no método esclarecido e defendido por Lewis. O pastor seleciona uma mensagem atual que ele quer que seus ouvintes aceitem, e, daí, procura passagens na Bíblia (e em outros textos antigos, como as obras dos Pais da Igreja), que possam ser “massageadas” para que pareçam dar fundamento para a mensagem que ele quer pregar, e, de resto, já decidiu que vai pregar.

Vou dar um exemplo que não passaria pela mente de C S Lewis, mas que ilustra bem o que ele estava dizendo. Há pregadores protestantes, aqui no Brasil, hoje, que querem ver o atual Presidente da República longe da presidência — seja através de impeachment, seja através de golpe de estado, seja através de assassinato, seja por voto nas próximas eleições (diante do fim, o meio não importa). Eles não se conformam de que boa parte da população evangélica brasileira dê apoio ao Presidente. Então sua mensagem (desses pregadores) deve procurar convencê-los (os membros da igreja) a passar para a oposição e engrossar as fileiras dos que querem ver o Presidente de qualquer maneira fora do Planalto, de preferência que ele não possa nem disputar a próxima eleição (pois sempre, para eles, há o “risco” de ele ganhar de novo — afinal de contas, como o Pelé uma vez disse, o brasileiro não sabe votar). Isso definido, ele (o pregador que se considera iluminado) sai a procurar um texto, que ele possa chamar de profético, em que um profeta menor qualquer do Velho Testamento desanca o governo de Israel. E ele usa a passagem para incitar o povo a criticar o governo, a lutar contra o governo, se necessário for, para que seja colocado em seu lugar um governo mais temente a Deus (algo que, para ele, quer apenas dizer, um governo de esquerda, que promova a “justiça social”).

E depois ainda há gente que me pergunta por que eu não sou mais membro da Catedral Evangélica de São Paulo. Eis a parte final do texto de um sermão proferido recentemente (faz quase seis meses, 15.3.2021) na Catedral, pelo Rev. Roberto Mauro, parte da equipe pastoral da igreja (qualquer que seja a fonte de seu salário):

“Se você quer apresentar o seu corpo como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, use a sua voz para denunciar a irresponsabilidade e a perniciosidade do governo brasileiro diante da pandemia para com a sua própria população. Hoje, exatamente hoje, dia 15.3.2021, completamos um ano de pandemia, e, depois de um ano de negacionismo inconsequente, infantil e nefasto, há pessoas morrendo, morrendo nas portas dos hospitais, porque não há mais vagas nesses hospitais.”

É isso.

Em Salto, 22 de Agosto de 2021