Ensino Superior: Modelos, Paradigmas, & C S Lewis

Os que prestam alguma atenção ao que eu publico em meus blogs e posto aqui no Facebook devem ter percebido que estou trabalhando sobre a vida e a obra de C S Lewis. Lewis foi “Fellow” (pronuncia-se félou) no Magdalen College, da Universidade de Oxford, de 1925 a 1954, e, depois, de 1955 até sua morte, em 1963, no Magdalene College, da Universidade de Cambridge. Quem não conhece as estruturas organizacionais pode ter dificuldade para compreender os termos. Um “Fellow” é algo equivalente a um professor universitário. Aqui no Brasil, recebemos salário e somos chamados de Professores. Alguns são até contratados pela CLT… Em Oxford e em Cambridge, eles ganham uma “Fellowship” (algo que soa mais com uma bolsa do que com um salário) para fazer o que se espera deles: ler, pensar, escrever, de vez em quando dar preleções, e, especialmente, “tutoriar” os que ali vão estudar… Um College, dentro da Universidade, é uma unidade acadêmica. Em Oxford, hoje, há ao redor de 30 Colleges ou equivalentes. Eles têm, lá, uma enorme autonomia financeira, administrativa e acadêmica, inclusive para conceder “Fellowships” e aceitar Estudantes. Têm seus prédios próprios, que pertencem ao College, e não à Universidade. Poucas coisas são compartilhadas entre os vários Colleges. Mas há, por exemplo, uma Biblioteca comum: em Oxford, a Bodleian.

Uma palavra sobre o conjunto de termos relacionado ao processo de Tutoria. Uma das coisas que se espera de um Fellow é que ele seja Tutor de um certo número de estudantes de Graduação (no caso de Lewis, Bacharelado em Língua e Literatura Inglesa). Os alunos ingressantes têm, em regra, de 17 a 19 anos. Na época de Lewis, os alunos iam procurar os Fellows que lhes interessavam para pedir que eles os aceitassem como Tutoriados. Cada Estudante, ao longo de um período letivo, ou mesmo durante todo tempo de sua permanência na Universidade, tinha, na época de Lewis, um Tutor só — e se encontrava com ele só durante uma hora por semana, durante cada período letivo (que são três, de oito semanas cada). O resto do tempo, ler e escrever… Lewis costumava a dizer que o Estudante que não fica literalmente viciado em ler e escrever não tem como ser bem sucedido em Oxford… Lewis aprendeu até mesmo ler enquanto fazia caminhadas… 🙂

O Estudante, ao escolher seu Tutor, já devia saber, naturalmente, o que queria estudar (“ler”, como eles diziam) na Universidade: Os Clássicos (Gregos, Romanos e Cristãos), Filosofia (Era Medieval, Renascença, Idade Moderna, Período Contemporâneo), Língua e Literatura Inglesa (em algum período), etc. E devia conhecer (conversando com os alunos veteranos) as especialidades, as preferências e as manias dos Tutores. Se um Estudante for aceito pelo Tutor que preferia, perfeito. Se não for, tem de procurar outro. Cada Tutor, na época de Lewis, atendia a cerca de cinco alunos por dia — vinte e cinco ao longo de uma semana, durante as oito semanas de um período letivo.

Um parêntese. Um Fellow, em Oxford e Cambridge, é diferente de um “Professor” (pronuncie-se em Inglês, por favor, com um acento agudo no “e”). Um Proféssor, lá, é algo mais parecido com o que era o nosso Professor Catedrático, aqui, que não existe mais. Talvez seja meio parecido com um Professor Titular, mas o Titular, aqui, não é dono de uma cadeira (que aqui também não existe mais): aqui pode haver vários Professores Titulares numa área só, como Filosofia Política. Lá, não. Há distinções, mas não vale a pena esmiuçar. Lewis foi para a Universidade de Cambridge em 1955 porque Cambridge, em 1954, criou uma cátedra especialmente para ele (Medieval and Renaissance English and Literature), e o elegeu para ela, humildemente convidando-o para se dignasse a ocupá-la. Ah, eu ficaria honrado com uma coisa dessas… Ele, naturalmente, também ficou — e aceitou. Bom para ele. Como Proféssor ele só precisava ler, escrever e dar preleções magnas. Não precisava tutoriar ninguém. Lewis havia estado em Oxford por quase 35 anos — 30 como Fellow e, antes, cinco como Estudante — e Oxford nunca se dignou a elegê-lo para uma de suas cátedras. Sempre o esnobou. Os frescos de Oxford achavam que ele, por escrever também livros populares, para crianças e adolescentes, bem como para pessoas leigas interessadas no Cristianismo, livros esses que faziam enorme sucesso, não era digno de ser Proféssor lá. Oxford perdeu-o. Perdeu Oxford, não Lewis.

Ao dizer que Lewis se tornou Proféssor em Cambridge e, como tal, não precisava tutoriar ninguém, pode-se ter a impressão de que ele estivesse doido para não mais “dar aulas”. (A gente geralmente pensa que tutoriar é dar aula, é ensinar – veremos que não é). Mas haverá um engano se se pensar assim.

Os ex-alunos de Lewis em Oxford são virtualmente unânimes em elogiar sua dedicação, seu preparo, seu conhecimento, sua atenção a eles. Um de seus ex-alunos, Derek Brewer, escreveu que a impressão geral que ele causava em seus Tutoriados era de que ler, falar, e discutir um assunto — no caso, Língua e Literatura Inglesa — eram, para ele, nada menos do que a vida dele… Ler, falar, e discutir eram importantes porque eram as principais formas de aprender, na visão dele. E “learning“, para ele, era “a way of life“, nada menos do que um jeito de viver. Ele vivia e respirava “learning“: aprendizagem, aprendência, tornar-se capaz de saber e saber fazer o que não sabia e não sabia fazer… E essa aprendizagem ou aprendência, que lhe era tão natural como forma de viver, contagiava seus estudantes. Segundo um de seus Tutoriados, Lewis, como tutor, não ensinava, não protagonizava, não se punha no papel de sábio no palco (“sage on the stage“): tutoriar, para ele era algo muito diferente de tomar a palavra e discorrer sobre o assunto durante os sessenta minutos que duravam o tutorial. Quem falava, no tutorial, era o Estudante. Era ele que tinha a palavra. Era ele que precisava protagonizar. Ele tinha de, toda semana, apresentar um Ensaio, com o resultado de suas leituras… E em cada semana, Tutor e Tutoriado conversavam sobre o que o Tutoriado estava aprendendo com suas leituras e reflexões. Ao final da sessão, o Tutor recomendava alguns textos, por vezes livros inteiros, que o Tutoriado deveria ler ao longo da semana seguinte, pessoas com quem poderia conversar, etc., e ambos acertavam o que o Tutoriado deveria trazer para ser discutido na sessão seguinte, dali uma semana. O Tutoriado tinha sete dias inteiros para se preparar e para redigir o “Ensaio” que seria discutido no  encontro seguinte, e se preparava do jeito que achava melhor: lendo, refletindo, conversando com outros colegas e outros Fellows que se dispusessem a lhe dar atenção, assistindo a preleções que, dependendo do assunto e do preletor, podiam ter uma plateia de 250 ou de apenas três ou quatro… Na discussão do Ensaio, na semana seguinte, o Tutor ouvia e o Tutoriado lia o Ensaio. Na sequência, o Tutor fazia perguntas, comentários, críticas, sugestões, indicava ao Tutoriado novas leituras, novos ângulos de abordagem, novas perspectivas, e ambos combinavam o que seria feito ao longo da semana que iria começar na sequência do final daquela seção. E o Tutoriado ia embora e voltava na semana seguinte com um novo Ensaio… — ou, se assim tivesse sido combinado, com o velho Ensaio, “recauchutado” ou “repaginado”!

Os Tutores e os Tutoriados moravam, ambos, ali na Universidade. Os Tutores tinham seus apartamentos, nos quais havia uma sala grande e alta, com lareira, mesa, sofás, na qual liam, escreviam, recebiam seus colegas e os Tutoriados. Embora houvesse auditórios para preleções, não havia “salas de aula”: as conversas entre o Tutor e o Tutoriado eram na sala de estar do Tutor, que podia morar com tranquilidade na universidade porque, em regra, era celibatário (se não fosse, ele morava na Universidade durante a semana e a família, fora). Os Tutores não tinham “escritórios” (offices), muito menos secretárias, computadores, redes de comunicação de alta velocidade… Os horários dos tutoriais eram marcados previamente, mas para falar com o Tutor para tirar uma dúvida não era preciso marcar hora com sua secretária, que inexistia: bastava ir até o apartamento dele e esperar a ocasião entre um tutorial e outro, ou o fim dos tutoriais do dia.

Mas o mais importante é o que Derek Brower, ex-Tutoriado de Lewis, comenta:

“O Tutor típico era um homem solteiro, que morava na Universidade, para quem ‘learning [was] a way of life‘. Ele lia, escrevia, comia, dormia no seu apartamento, e era ali que ele recebia seus Tutoriados, porque era ali que ele vivia e trabalhava, não em um escritório, com uma secretária ao lado, ou em salas de aula, com auxiliares e assistentes. O que ele fazia ali, ler, pensar, conversar, escrever, não era nem ’emprego’ nem ‘lazer’ nem ‘diversão’: era tudo parte de uma vida unificada. [ . . . ] Quando em  companhia dos seus Tutoriados, o Tutor não ‘ensinava’. Os dois conversavam e discutiam como pessoas que tinham interesses comuns em um assunto que cativava a ambos. Não era um relacionamento exata e totalmente igualitário, mas havia entre os dois uma unidade de propósitos, aprender mais sobre algo que interessava a ambos, e esse fato constituía entre eles a base de uma igualdade fundamental. O status e a idade deles diferiam bastante. Mas não tenho nenhuma dúvida de que, no meu caso com Lewis, embora eu tivesse apenas dezoito anos, e houvesse, além da disparidade na idade, uma enorme diferença de inteligência, habilidade, temperamento, e reputação entre mim e aquele senhor distinto e jovial, nós éramos pessoas de uma só espécie, engajadas numa mesma busca. E a razão pela qual eu me sentia assim quando estava com ele sem dúvida tinha que ver com a forma com que Lewis me tratava: para ele eu não era um escolar a ser ensinado e, quem sabe, disciplinado, mas um homem que vinha até ele para ler e discutir junto com ele um assunto que nos interessava aos dois. E ele me tratava assim como igual a ele com toda a naturalidade, como se nem sequer lhe passasse pela cabeça que o tratamento pudesse ser diferente.” [ Em C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences, editado por James T. Como, 1979, 2a edição de 1992, p.42. A partir da terceira edição o livro passou a se chamar Remembering C. S. Lewis: Recollections of Those Who Knew Him e ganhou um novo prefácio pelo editor – https://www.amazon.com/gp/product/B00307D3WM .]

E há gente que não entende como pode haver educação superior de qualidade — da melhor qualidade — sem um artista na frente de uma sala de aula despejando informações dentro da cabeça dos alunos, sem um currículo enciclopédico que obriga, em alguns casos, os alunos a ficarem quase quarenta horas por semana sentados em uma carteira dura ouvindo um dadeiro de aula falar. Cabe perguntar: quando é que se espera que esse aluno aprenda alguma coisa?

Em Salto, 21 de Julho de 2020

A Filosofia Pré-Moderna e a Moderna

[NOTA: Este artigo é parte de um artigo maior, escrito em 2008, com o título “A Educação no Mundo Antigo e Medieval”. Tirei a parte que tratava mais diretamente da educação e mantive apenas a parte final, que procurava resumir a filosofia do mundo pré-moderno com a do mundo moderno. E revisei o material agora em Julho de 2020 para servir de fundamentação ao capítulo acerca da Educação em um livro sobre C S Lewis que estou escrevendo com meu amigo Carlos Eduardo Martins.]

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Não pretendo, neste trabalho, abordar o tema elaborando uma crônica de eventos ou pessoas relevantes à filosofia da Antiguidade e da Idade Média.

Também não pretendo historiar o que pensaram eminentes filósofos do Mundo Antigo e Medieval.

Vou fazer algo, de um lado mais ambicioso, mas, de outro, menos trabalhoso: tentar capturar a essência da contribuição do Período Pré-Moderno (que inclui o Período Clássico e o Período Medieval) para a filosofia de hoje — e, indiretamente, para a educação que hoje temos.

Assim, não farei pesquisa histórica, no sentido estrito, nem exegese e crítica textual. Procurarei me situar no plano filosófico para procurar captar o que me parece ser a essência da contribuição do Período Pré-Moderno para a filosofia. Para os meus propósitos, a despeito das evidentes diferenças existentes entre o Período Clássico e o Período Medieval, eles compartilham um substrato de ideias que me parece essencial.

Assim, ao discutir a Filosofia Pré-Moderna, resumirei o que me parece ser a principal contribuição desses dois períodos, o Clássico e o Medieval, em seu conjunto, para algo que transcende a educação, embora seja extremamente importante para ela: a visão de mundo. A Antiguidade e a Idade Média estão de certo modo unidas em uma visão de mundo extremamente importante, e que serviu por muito tempo de alicerce para a cultura e o pensamento ocidental (greco-romano-cristão), e que, lamentavelmente, corre o risco de se esvair nos ceticismos e relativismos de nossa época que se pretende multicultural, na qual a razão, como padrão objetivo, perde lugar para modismos intelectuais admitidamente arbitrários.

Vou discutir, portanto, de forma resumida, a contribuição da Filosofia Pré-Moderna à chamada Cultural Ocidental — contribuição que corre sério risco de esvair.

Para entender a Filosofia Moderna é necessário contrastá-la com a Filosofia Pré-Moderna.

Repito o que já disse: embora haja consideráveis diferenças entre a Filosofia Antiga e a Filosofia Medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica que eu estou designando de Filosofia Pré-moderna, e que engloba elementos básicos e essenciais de uma e de outra.

Para a Filosofia Pré-moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na Filosofia Moderna se convencionou chamar de “mundo exterior”, a saber, a realidade externa à nossa mente, claramente não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Ninguém achava que isso precisasse ser demonstrado ou provado, porque não havia se tornado um problema.

Para a Filosofia Pré-moderna, em segundo lugar, essa realidade externa à nossa mente contém basicamente dois tipos de entidades: objetos (coisas) e fatos (o estado em que as coisas estão). Assim, objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos ou construídos pela nossa mente. O pecado capital da Filosofia Moderna está contido na afirmação de George Berkeley, um bispo, que afirmou que esse est percipii: ser é ser percebido, ou seja, uma coisa ou um fato só é, ou existe, se é percebido pela nossa mente através de nossos órgãos sensoriais.

Além disso, e em terceiro lugar, para a Filosofia Pré-moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a relação de causalidade. As relações das coisas e dos fatos entre si não são construídas pela nossa mente: elas fazem parte da realidade.

Assim, a relação de causalidade, para a Filosofia Pré-moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa outro, e isto é um fato que pode ser constatado. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contiguidade espaço-temporal que a nossa mente percebe entre coisas e fatos, como diria David Hume, já no período moderno (século 18).  A realidade comporta também as relações entre os objetos e os eventos, entre si, e, por conseguinte, a relação — ou o nexo — causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade, como presumia Emanuel Kant: a realidade já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe. É esse fato que possibilita o conhecimento — e, em última instância, a ciência.

A realidade, para a Filosofia Pré-moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos. Conquanto possam existir estados de coisas imaginários, fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos (ou afirmações) de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, ele é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, o juízo é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quinto lugar, temos evidência da verdade ou da falsidade de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais, nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós e suas relações. Embora seja notório que às vezes nos enganamos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia Pré-Moderna. Erros de percepção, em regra, são facilmente corrigidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sexto lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade suprassensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sétimo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos objetos e fatos que compõem a realidade (sensível ou suprassensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A Filosofia Pré-moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. No período pré-moderno não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, suspende ou até mesmo viola a ordem objetiva existente na realidade. Para a Filosofia Pré-moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Baruch Spinoza mais tarde): o milagre é uma suspensão ou violação da ordem objetiva existente na realidade, realizada por quem pode suspendê-la ou violá-la. Por isso é que se acreditava que milagres eram de suma importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente aconteceram ou ainda acontecem, ou não, é outra questão. Nem todos os filósofos pré-modernos acreditavam que milagres aconteceram ou aconteciam. Mas não tinham dificuldade com o conceito.

Para a Filosofia Pré-moderna, por fim, e em oitavo lugar, a pedagogia é o processo através do qual a criança é levada a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A Filosofia Moderna, iniciada por René Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Emanuel Kant e George Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Baruch Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (John Locke, George Berkeley e David Hume), infelizmente veio a questionar todos esses oito pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era considerada, pelos pré-modernos, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na Filosofia Moderna, entretanto, a razão é frequentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século 20 um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.

Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos pontos de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem esdrúxulos e estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista. Tolerar, neste caso, não é admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão inválidos quanto os nossos.

Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as ideias de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto as ideias de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as ideias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o Budismo a partir do Catolicismo Romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. Tolerar, neste caso, não é apenas admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão válidos quanto os nossos.

A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de ideias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento (em um determinado contexto), então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que defender este — e não aquele — ponto de vista? Por que criticar este — e não aquele — ponto de vista? Porque preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A Filosofia Pré-moderna (antiga e medieval) sabia como resolver essas questões. A filosofia moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infraestruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que escrever história é contar estória, isto é, construir a narrativa que mais bem nos convém; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas ou estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as interpretações decorrentes de trabalho sério e rigoroso de exegese e hermenêutica; em que auto expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra sugestionáveis (se tanto) são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

As chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da Antiguidade e da Idade Média — são hoje desprezadas. Essas leis são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da Filosofia Pré-moderna, como, por exemplo, que eram essenciais na atribuição de sentido à vida:

  • A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  • A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
  • A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
  • Existe conhecimento moral: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra o chamado Emotivismo Ético, etc.);
  • Existe objetividade na arte (contra o chamado Expressionismo, etc.)

No período pré-moderno havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas no período moderno. A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da visão de mundo da pré-modernidade.

Essa é a principal tese de C S Lewis na área da educação.

Em São Paulo, Agosto de 2008, revisto em Julho de 2020, publicado aqui em 11 de Julho de 2020.

Eduardo Chaves é Ph.D. em Filosofia pela University of Pittsburgh, 1972. Professor Titular de Filosofia Política e Filosofia da Educação da UNICAMP de 1974 a 2007, ele está desde 2007 aposentado da UNICAMP e desde 2017 aposentado de qualquer trabalho com vínculo empregatício.).

Os Períodos Letivos da Universidade de Oxford

Quem, como eu, está interessado em C S Lewis, que passou cerca de trinta e cinco anos na Universidade de Oxford (1919-1954), cerca de quatro como aluno, um como professor substituto, e trinta como professor (lá chamado de “don“), encontra, com frequência, referência aos períodos letivos (“terms“) da Universidade através de seus “apelidos”… Então resolvi escrever este breve artigo para esclarecer essa questão para o leitor brasileiro.

Oxford opera com três períodos letivos no ano, cada um de oito semanas. Isso quer dizer que a universidade, do ponto de vista de suas atividades acadêmicas, funciona apenas 24 semanas durante o ano. Como o ano tem 52 semanas, a universidade está “em recesso” durante 28 semanas. Fica mais em recesso do que em atividade.

Estando no Hemisfério Norte, o período letivo começa no Outono de lá, isto é, no finzinho de Setembro.

Os períodos letivos têm “apelidos”:

  • O primeiro período letivo é chamado de “Michaelmas“, que é uma festa do Calendário Litúrgico dedicada ao Arcanjo Miguel (Michael), que é no dia 29 de Setembro.
  • O segundo período letivo é chamado de “Hilary“, em referência ao dia de Santo Hilário de Poitiers, que é no dia 14 de Janeiro.
  • O terceiro período letivo é chamado de “Trinity“, assim chamado por causa do “Domingo da Trindade”, que, no Calendário Litúrgico, cai na oitava semana depois da Páscoa, uma data móvel, em geral em Abril ou Maio.

Todo ano a Universidade determina o dia exato em que cada período letivo começa e termina. Os períodos letivos sempre começam em um Domingo e terminam em um Sábado.

Para o ano letivo 2020-2021 o calendário está fixado, mas ainda provisoriamente, por causa da Pandemia. É o seguinte:

2020 – 2021 (provisório)

MICHAELMAS: De Domingo 11 Outubro 2020 a Sábado 5 Dezembro 2020

HILARY: De Domingo 17 Janeiro 2021 a Sábado 13 Março 2021

TRINITY: De Domingo 25 April  2021 a Sábado 19 Junho 2021

Os períodos letivos são períodos em que professores (tutores, preletores) e alunos devem estar no campus. É quando acontecem os “tutoriais” e as “preleções”. Isso não quer dizer que, no recesso, isto é, nos períodos que ficam entre os períodos letivos, professores e alunos não devam trabalhar (estudar e escrever).

A página “List of Nobel laureates by university affiliation” da Wikipedia indica que 72 pessoas ligadas à Universidade de Oxford como professores ou ex-alunos já receberam um Prêmio Nobel — operando a Universidade, do ponto de vista acadêmico, apenas 24 semanas por ano. No Brasil, em que as universidades funcionam 40 semanas por ano, ninguém nunca ganhou um Prêmio Nobel. É verdade que a Universidade de Oxford existe desde o século 12. Mas o Prêmio Nobel existe apenas desde 1895. Mesmo assim, Oxford leva certa vantagem temporal sobre as universidades brasileiras: a primeira real universidade brasileira, a Universidade de São Paulo, foi criada apenas em 1934. Mas hoje Oxford é ainda apenas uma universidade e o Brasil tem… perto de 200… (parece que 195). [Se fosse na época do Lula, o número já teria mudado enquanto eu escrevo.]

É isso.

Em São Paulo, 11 de Julho de 2020

C S Lewis, o Mito e o Cristianismo

  1. Introdução: A Questão da Racionalidade e a Tese de Popper-Bartley
  2. A Questão do Mito e da Religião: De Hume ao Jovem C S Lewis
    1. A Tese de Hume
    2.  O Jovem C S Lewis se Declara Ateu
  3. Conclusão: A Questão da Verdade e o Desafio do C S Lewis Maduro

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1. Introdução: A Questão da Racionalidade e a Tese de Popper-Bartley

Uma das grandes contribuições de Karl R. Popper ao debate epistemológico foi deixar claro que há uma distinção clara, que deve ser observada, mas raramente o é, entre duas formas de encarar as ideias que ele chamava de “contexto da descoberta” e “contexto da validação”.

Uma coisa é procurar entender como uma ideia surge (é descoberta ou é inventada), explicando a “gênese” da ideia, seja na história, seja na sociedade, seja na mente do indivíduo. Para ele, disciplinas acadêmicas como história, sociologia e psicologia frequentemente procuram mostrar isso. Essas três disciplinas pretendem, hoje, ter caráter científico.

Outra coisa é procurar determinar se uma ideia, conjetura, hipótese, tese, doutrina, teoria, visão de mundo, independentemente de como ela surgiu, é válida, justificada, verdadeira, sobre que fundamentos e evidências se sustenta, etc.

Para Popper, a epistemologia, que é uma disciplina acadêmica, que se caracteriza como parte da filosofia, e não da ciência, se ocupa das ideias, apenas e tão somente, no contexto da validação. No entender de Popper, o contexto da descoberta não tem interesse nenhum para a epistemologia. [Por isso, é uma lástima que seu primeiro livro publicado, em Alemão, com o título de Logik der Forschung (Lógica da Pesquisa, Lógica da Investigação) tenha sido traduzido para o Inglês com o título de The Logic of Scientific Discovery. Houve duas impropriedades na tradução do título, se encararmos a linguagem com seriedade. Primeira: em vez de “Discovery”, deveria estar “Research” ou “Investigation”. Segunda: o termo “Scientific” surgiu do nada, não está no título original.]

Pode-se tentar argumentar que o conteúdo do livro são as ciências naturais, em especial a Física, e isso seria verdade. Mas a tese Popperiana não se limita às ciências naturais, muito menos apenas à Física. Aplica-se também às Ciências Biológicas e às Ciências Humanas e Sociais. No próprio livro em foco, ele discute o Marxismo, que se pretende científico, dentro das Ciências Humanas e Sociais (consistindo principalmente de teses históricas e sociológicas), e a Psicanálise, que alguns pretendem seja parte das Ciências Humanas. Popper tenta mostrar, no livro, que as principais teses do Marxismo e da Psicanálise não são válidas, porque são falsas, já tendo sido testadas empiricamente e refutadas pelos fatos. O critério de validade que Popper propõe e utiliza é centrado na testabilidade empírica de uma ideia, etc. e sua falsificabilidade por fatos — “testabilidade” significando que é possível submeter a ideia a testes, de preferência rigorosos, em um contexto empírico, e “falsificabilidade” significando que é possível, em princípio, mesmo que não ainda nas condições existentes, que fatos a refutem. Como as ciências, em geral, se pretendem válidas, e prometem revelar a verdade sobre a realidade, o fato de ideias, que se pretendem científicas, terem sido testadas empiricamente e falsificadas, isto é, desmentidas pelos fatos, prova que elas são falsas, e, por conseguinte, não podem ser consideradas válidas e pleitear a nossa aceitação.

Em escritos subsequentes, Popper aplica sua tese à Biologia, à Teologia, e a outras áreas. Na verdade, ele propunha que sua tese, que ele veio a chamar de Racionalismo Crítico, tivesse aplicação universal — isto é, se aplicavasse a qualquer tipo de ideia.

[Em um parêntese, houve até um desentendimento entre Popper e o meu orientador de doutorado, que havia sido orientado por Popper no doutorado dele, Willliam Warren Bartley, III (W.W. Bartley, III), decorrente do fato de que Bartley levantou a questão se o Racionalismo Crítico de Popper, aplicado a si mesma, se revelava testável e falsificável. Popper, em um primeiro momento, chegou a admitir, em The Open Society and its Enemies, livro subsequente, publicado ao final da Segunda Guerra, que o Racionalismo Crítico era um postulado ou pressuposto fundamental, essencial mesmo, de qualquer discussão de ideias e, por causa disso, a sua teoria não poderia ser aplicada a si mesmo sem que se cometesse a falácia do petitio principii — pressupor aquilo que se deseja demonstrar ou provar. Para Popper, a opção pela racionalidade crítica é um comprometimento último (ultimate commitment) inevitável de qualquer pessoa que se pretenda racional e crítica, e que, como tal, pode até ser descrito como um ato de fé.  Bartley questionou essa explicação de Popper em seu livro Retreat into Commitment, que causou razoável mal estar no arraial popperiano e temporariamente interrompeu o excelente relacionamento de Popper com Bartley (que era considerado in pectore o seu “discípulo amado” — condição que voltou a ter, quando fizeram as partes, tanto que Bartley foi escolhido por Popper para ser o seu Literary Executor, ou Testamenteiro Literário).

Para quem aceita a tese ou teoria popperiana, como o qualificativo bartleyano, de que o Racionalismo Crítico pode e deve ser aplicável a si mesmo, no sentido de que, se qualquer pessoa vier a refutar a tese ou teoria, as pessoas que a adotam serão obrigadas a rejeitá-la, segue uma série de implicações, algumas das quais ficarão claras na sequência.

2. A Questão do Mito e da Religião: De Hume ao Jovem C S Lewis

Minha tese de doutorado, orientada por Bartley, foi sobre David Hume, o filósofo escocês, e seu tratamento filosófico-epistemológico da teologia e da religião.

Na época de Hume, o século 18, o sustentáculo da teologia, o que supostamente lhe dava validade e credibilidade, era o binômio razão e revelação (vide Tomás de Aquino, John Locke, etc.): a razão era manifestada, principalmente, nos argumentos filosóficos para demonstrar a existência de Deus, em especial no chamado argumento empírico, ou a posteriori, baseado na ordem, ou design, a saber, o ajuste perfeito entre meios e fins, que a própria ciência natural viria demonstrando existir no universo, e a revelação era manifestada, na Bíblia, pelo registro de que Jesus de Nazaré realizou inúmeros milagres, que comprovariam a veracidade de suas afirmações e reivindicações. Note-se que esses dois pilares eram usados para supostamente demonstrar a veracidade, e, por conseguinte, a validade, da teoria ou visão cristã do mundo.

Hume, como eu procurei demonstrar na minha tese, destruiu essa tese teológica relativa aos dois pilares da teologia As evidências e os argumentos que Hume usou contra essa tese não vêm ao caso aqui. O que quero ressaltar é que a maior parte da crítica humeana à teologia é feita dentro do contexto da validação.

No entanto, Hume, estando convencido de que havia mostrado que a teologia cristã não tinha qualquer sustentação filosófico-epistemológica, e, por conseguinte, não poderia ser considerada válida e verdadeira, saiu da epistemologia e da filosofia e entrou na história e na sociologia (ele também era historiador, autor de uma das mais famosas Histórias da Inglaterra) para investigar como é que tanta gente, no mundo inteiro, acreditava na religião cristã, e aceitava alguma forma de teologia cristã, se as teses fundamentais do Cristianismo eram clara e evidentemente insustentáveis, do ponto de vista filosófico-epistemológico.

(Na realidade, Hume supunha ou conjeturava que a religião era um fenômeno universal, e que as conclusões a que ele havia chegado acerca do Cristianismo seriam alcançadas, mutatis mutandis, na investigação de outras religiões também. Mas ele só havia investigado a cristã.)

Em seu livro A Natural History of Religion, Hume propôs uma teoria científica, ou pré-científica, da religião, em geral. O termo “natural” aqui indica que, nesse livro, ele estava operando no contexto da descoberta, não no contexto da validação, embora ele, evidentemente, tenha formulado uma conjetura ou teoria e procurado levantar evidências empíricas que lhe davam sustentação, mostrando, ao mesmo tempo, não haver evidências que a refutassem.

O que vou resumir aqui, na primeira parte deste capítulo, são as ideias propostas por Hume que, como dizia Rubem Alves,  eu, ao ler sua obra, ingeri, mastiguei, degluti, e, me livrando do que não me servia, incorporei o resto ao meu DNA.

Na segunda parte deste capítulo, vou tentar relacionar esta discussão, envolvendo Popper e Hume, na discussão das ideias de C S Lewis acerca do mito e da religião cristã.

A. A Tese de Hume

Segundo Hume, que era um estudioso da natureza humana (seu livro mais importante se chama A Treatise of Human Nature), faz parte da natureza humana querer entender o mundo em que o ser humano vive. Por isso, ele se faz perguntas.

Ele se pergunta, por exemplo, como é que surgiu este mundo em que vivemos, a Terra, bem como o céu, o Sol, a Lua e as estrelas. Ele se pergunta como é que surgiram, aqui na Terra, os seres vivos, as plantas, os animais, em geral, o ser humano. Ele se pergunta se existem outros seres vivos que são puramente espirituais, e que não têm corpo, por conseguinte não sendo visíveis, etc. Ele se pergunta por que algumas pessoas são bem sucedidas na vida, e outras, não, por que algumas são religiosas e outras, não, etc.

Mas não há nenhum sentido em fazer perguntas como essas se a gente não tentar encontrar ou formular respostas para elas. Essas respostas em geral são formuladas na forma de conjeturas, hipóteses e teorias, que vão se fundindo em histórias e narrativas, que, oportunamente, se tornam formas razoavelmente complexas de ver e entender o mundo.

As primeiras respostas são tipicamente antropomórficas. Conjetura-se que as coisas aqui na Terra são como são porque há seres espirituais, invisíveis e intangíveis, que controlam o que aqui tem lugar. Só que é muito difícil imaginar um ser puramente espiritual, totalmente invisível e intangível. Assim sendo, os seres espirituais acabam recebendo características humanas, não só mentais (como conhecimento, sabedoria, criatividade, imaginação, capacidade de interpretar coisas que parecem obscuras, etc.) e emocionais (como coragem, amor, inveja, despeito, ciúme, raiva, ódio, vingança, etc.) e até mesmo corpóreas (Zeus, o deus mais importante, só pode ser forte e poderoso; Afrodite, a deusa da beleza, só pode ser linda; Vênus, a deus do amor e do sexo só pode ter uma aparência cativante e sedutora; Baco, o deus do prazer, só pode ter uma cara meio debochada, etc.). Usei aqui exemplos da mitologia grega, mas as mitologias nórdicas, romanas, etc., não são muito diferentes.

Essas mitologias mais primitivas são todas, invariavelmente, politeístas, como Hume perspicazmente apontou. Pode haver um deus maior, que de certo modo comanda o restante, mas há deus para cada dimensão da vida: a caça, a pesca, o colhimento de frutos das árvores ou do chão, etc. Até, assim que os humanos se tornaram sedentários, e começaram a cultivar plantas para seu sustento e a domesticar e criar animais para seu sustento e para seu uso em outros áreas, havia um deus para a agricultura e para a agropecuária.

Não só cada atividade tinha seu deus, mas cada povo tinha a sua coleção própria de deuses, o seu Olimpo.

A grande inovação do povo semítico, que se tornou o povo judeu, foi, de certo modo e até certo ponto, simplificar a sua mitologia, nela inserindo apenas o deus maior, que seria o criador, sustentador e controlador de tudo, centralizando o poder criador, sustentador e controlador (o que posteriormente se chamou de providência). Mas, inicialmente, esse deus maior tinha uma série de seres espirituais subordinados (anjos), dentre os quais um se insubordinou (Lucifer) e acabou levando vários com ele (espíritos maus), criando um centro de anti-poder, e estabelecendo um conflito permanente entre o Bem e o Mal. Mas os judeus nunca deixaram de crer que o deus do bem era maior e mais poderoso do que o(s) outro(s) e, no final o(s) venceria, e que o deus do mal, de certo modo, operava dentro de limites que lhe eram fixado pelo deus maior… A serpente, no entanto, representando o poder do mal, conseguiu seduzir os primeiros humanos criados, fazendo com que desobedecessem o deus maior… O resto da história — um drama! — é conhecido.

 Na mitologia judaica, não há, inicialmente, um monoteísmo muito forte e coerente. Reconhece-se a existência de outros deuses, mas sente-se a necessidade de adorar apenas o deus maior, que se acredita mais forte e poderoso (mesmo que, em diversos momentos, haja algum tipo de apostasia). “Não terás outros deuses diante de mim” é o primeiro mandamento do conjunto de mandamentos do deus maior, mas ele é um mandamento que assume que existem outros deuses, mas que eles não devem ser seguidos e adorados… Além disso, há o chefe maior do antipoder (com poder até certo ponto delegado), que tenta subverter a autoridade do principal e maior deus judeu… Gradativamente, à medida que as crenças dos judeus foram evoluindo, o monoteísmo foi se aperfeiçoando, no entanto…

Quando surge o Cristianismo, originalmente como uma seita judaica, este deus maior dos judeus é adotado e apropriado, mas, com o tempo, ele ganha um filho, e, com mais tempo, o filho se torna um igual do pai, e ganha um sucessor, que com o Filho e o Pai formam um Triumvirato — ou melhor, uma Trindade… Parece que o politeísmo é ressuscitado dentro do Cristianismo, mas os cristãos consideram que o “Triteísmo” é uma heresia, e que o que há é uma Trindade, que é uma entidade só — um deus só — mas composto de três pessoas diferentes… Convenhamos que a mitologia cristã é uma complicação considerável quando comparada com a mitologia judaica.

É assim, enfim, que surgem os mitos, que geram narrativas originalmente poéticas e, depois, se convertem em prosa, e, gradativamente, se tornam, tanto quanto possível, teses filosóficas… O termo “mitopoético” vem daí. As narrativas em prosa, com o tempo, se tornam filosofia, ou uma parte da filosofia que pode ser chamada da teologia…

O resto nós também conhecemos.

B. O Jovem C S Lewis se Declara Ateu

Quando C S Lewis nasceu, no finzinho do século 19, a mitologia cristã já havia se tornado Teologia sofisticada há muito tempo. Toda a narrativa dessa mitologia havia se transformado em uma série de teses históricas e filosóficas (vale dizer, teológicas).

Inteligente como ele era, e com uma mente que, além de inteligente, era altamente imaginativa e criativa, C S Lewis muito cedo, por volta dos cinco anos, começou, aproveitando leituras de textos da mitologia grega, romana e, principalmente, nórdica, a inventar histórias com seres imagináveis, nem todos muito parecidos com humanos, muito deles assumindo a forma de animais. Muito cedo mesmo, antes até de ele ir para a escola, o que se deu quando tinha quase dez anos. Suas produções originais eram, talvez, risíveis, quando lidas da perspectiva dos adultos. Mas ele era uma criança, com uma idade em que, no Brasil, a maior parte das crianças nunca leu um livro inteiro ainda, e, algumas, nem conseguiriam ler um livro, ainda que o desejassem.

C. S. Lewis nasceu na Irlanda, em 29.11.1898 — no final do século 19. Na plano da História das Ideias, muita gente dá mais importância ao século 18, o chamado Século das Luzes — donde o Iluminismo — e a Idade da Razão, em que imperaram o Racionalismo, o Empirismo, o Criticismo, do que ao século 19, século em que imperaram o Romantismo e o Utilitarismo e surgiu o conflito entre o Liberalismo e o Socialismo. Mas o século 19 é também o século em que Feuerbach afirmou que, longe de ser o homem uma criação de Deus, Deus é que era uma criação do homem, e a teologia não passava de uma antropologia disfarçada; em que Marx declarou que a religião era o “ópio da sociedade”, um conjunto de ideias, valores e práticas que dessensibilizava o homem em relação à sua opressão e à sua miséria; e em que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”… A. N. Wilson, o mesmo biógrafo que escreveu uma biografia em que critica bastante a teologia de C. S. Lewis, também escreveu uma “biografia” do século 19, a que deu o título de God’s Funeral (Norton, New York & London, 1999 — cento e um anos depois do nascimento de Lewis).

Na história de sua conversão do Ateísmo para o Cristianismo, que acabou sendo uma autobiografia que cobre a primeira metade de sua vida, Surprised by Joy: The Form of my Early Life, publicada em 1955, C. S. Lewis descreve e, até certo ponto, interpreta, sua infância, adolescência e juventude. Sua conversão para o Cristianismo é em geral tida como concluída por volta de 1931, quando ele tinha de 32 para 33 anos. O livro foi publicado em 1955 — quando ele tinha 56 anos. Muito tempo depois, mas Lewis tinha uma memória fenomenal.

C. S. Lewis nasceu em Belfast, na província de Ulster, em um lar cristão, no Norte da Irlanda (que ainda não era formalmente a Irlanda do Norte porque a Irlanda não havia ainda se dividido em dois países). Belfast era naquela época (1898) a maior cidade do Norte da Irlanda — a parte predominantemente protestante (vale dizer, anglicana) da Irlanda, que veio a se dividir em dois países nos anos 1920-1923. Na divisão, a parte maior da Irlanda, constituída pelo Centro e Sul da Ilha da Irlanda, se tornou um país autônomo e independente, que hoje é chamado de a República da Irlanda. A parte que se separou e se proclamou independente do Reino Unido era predominantemente católica (quase 80% da população é ainda católica). Os pais de Lewis eram membros da Igreja Anglicana, que, por causa do conflito com a Igreja Católica, majoritária na parte Sul da Irlanda, era, possivelmente, mais protestante do que a Igreja Anglicana da própria Inglaterra, que era predominantemente protestante e não sofria tanto o antagonismo dos católicos como o Norte da Irlanda, em que católicos e protestantes simplesmente se detestavam. Muitos, no Norte da Irlanda, questionavam até mesmo se os católicos eram cristãos…

Lewis afirma que ambos os seus pais, mesmo que não fossem exatamente ricos e cultos, eram bem de vida, no aspecto financeiro, e bem letrados e livrescos, no aspecto cultural. Eles eram chegados à leitura e aos livros, bem como à boa música. Ambos os pais de Lewis haviam feito curso universitário — a mãe mais chegada para a matemática e a lógica, mas uma leitora voraz de grandes romances, como os de Tolstói (gosto C. S. Lewis herdou), e o pai,  mais chegado para o direito. Segundo Lewis, se seu pai tivesse tido um nível socioeconômico mais elevado, e tivesse um senso de humor menos agressivo, poderia ter sido um político parlamentar, pois tinha grande presença, voz altissonante, dom para oratória e eloquência, capacidade de argumentação e rapidez de raciocínio, bem como excelente memória (características e competências que C. S. Lewis certamente herdou).  As experiências de cunho estético e artístico de C S foram poucas, fora da música, nessa primeira fase de sua vida.

Eis como Lewis descreve sua relação com a religião na infância:

“Se minhas experiências estéticas foram raras, experiências religiosas simplesmente inexistiram em minha infância. Algumas pessoas ficaram com a impressão, ao ler meus livros, que eu fui criado em um ambiente bastante puritano, cheio de restrições e exigências. A impressão não corresponde aos fatos. Meus pais me ensinaram as coisas costumeiras acerca da religião cristã, instavam para que eu fizesse minhas orações, e, no devido tempo, frequentasse a igreja. Eu naturalmente aceitava o que se esperava de mim, mas não consigo me lembrar de que tivesse muito interesse por essas práticas religiosas convencionais. Meu pai, longe de ser puritano, tinha preferências mais próximas de uma religiosidade mais formal (high church), quase o oposto daquela que mais tarde eu vim a adotar. Ele gostava de tradições e rituais e apreciava a beleza da linguagem contida na Bíblia e no Livro de Orações (coisas que eu só vim aprender a apreciar bem mais tarde em minha vida). Ele também era pouco chegado a questões teológicas e metafísicas. Da religião de minha mãe eu não consigo me lembrar de quase nada. Mas, em resumo, a religião da minha infância nada teve que me levasse a me interessar por um outro mundo”.

Não houve experiências religiosas, mas houve livros. Em 1905, ano em que ele ia fazer sete anos, a família de C. S. Lewis se mudou para uma casa bem maior, que, para a criança, mais parecia uma cidade do que uma casa.

“Nela havia livros por toda parte. Meu pai comprava todos os livros que ele resolvia ler e nunca se livrava de nenhum livro, depois de lê-lo. O resultado é que havia livros em seu escritório, livros na sala de lazer, livros (em duas fileiras) nas grandes estantes  dos halls e corredores, livros nos quartos de dormir, livros no banheiro, livros em pilhas da minha altura no sótão, livros de todos os tipos, refletindo todos os estágios dos diversos interesses, ainda que passageiros, de meus pais — livros apropriados para a leitura por crianças e livros enfaticamente não apropriados para elas. Mas nenhum dos livros me era proibido por meus pais. Nas tardes chuvosas, aparentemente intermináveis, eu ia pegando volume atrás de volume das estantes. E tinha sempre a certeza de encontrar um livro cujo conteúdo fosse novo para mim, da mesma forma que uma pessoa que entra em um campo tem certeza de encontrar diversos tipos de vegetação que nunca viu antes. Nunca me ocorreu onde é que todos aqueles livros estavam antes de nos mudarmos para a casa nova — até que eu comecei a escrever este parágrafo. Não tenho a menor ideia de qual seja a resposta.”

Entrementes, o irmão de C. S. Lewis, três anos mais velho, foi mandado para um internato, e uma nova fase de sua educação começou — em casa mesmo. Sua mãe lhe ensinava Latim e Francês, e ele ganhou uma governanta excelente — só que presbiteriana… Foi com ela que, em pequenos sermões entremeados aos exercícios de aritmética e de leitura e escrita, ele veio a ter conhecimento da existência “de um outro mundo”, um mundo de ajuste de contas, em que receberíamos punições e recompensas por nossas ações neste mundo, dependendo de como viessem a ser julgadas as nossas ações (e até os nossos pensamentos!). Mas o principal de sua educação veio de suas leituras e da colocação em prática de seus interesses, alimentados por uma prodigiosa imaginação.

Uma dificuldade nos polegares (cuja principal junta não dobrava, em ambas as mãos), provavelmente herdada de seu pai, fez com que C. S. Lewis tivesse dificuldade para fazer coisas com as mãos (trabalhos manuais) — mas não o impediu de escrever (porque, quando se escreve, essa junta não é flexionada), e isso fez com que ele, cada vez mais, se dedicasse à leitura e à escrita, e não a atividades manuais ou de cunho prático e utilitário. A ausência do irmão na casa fez com que ele, na solidão decorrente de ser a única criança em uma casa enorme, recorresse à imaginação. Suas primeiras histórias, sobre animais, bem como sobre cavaleiros em armaduras, começaram a ser escritas bem cedo. E elas versavam sobre uma realidade imaginária que ele chamou de “Terra dos Animais”. Entre seis e oito anos ele vivia mais dentro dessas realidades construídas pela sua imaginação do que na “realidade real” de sua vida doméstica, sem muita companhia interessante. O menino se ensimesmou. Passou a viver mais na realidade criada pela sua mente do que naquela realidade que lhe era imposta pelo mundo exterior.

Começa aí seu interesse por mitos e outras histórias fantásticas — que ele sempre reconheceu como tendo sido criadas pela imaginação de alguém, e, por conseguinte, não como histórias verídicas, mas como histórias inventadas… Uma história inventada não é como uma fantasia em que você acredita ou faz de conta que está participando. Na história inventada você é o criador daquele mundo, não um personagem que está dentro dele, como no caso da fantasia. Na história inventada você está em controle, porque foi você que a criou — e é você que tem o poder de alterar a história e mexer no mundo criado, à vontade. Mais ou menos como se supõe, no Cristianismo, que Deus faz na história. As histórias que C. S. Lewis começou a inventar bem antes de chegar aos dez anos foram seu primeiro laboratório para se tornar um escritor de ficção. E esse ambiente lhe deu certeza de que mitos são criados por alguém — ou seja, são inventados. Por conseguinte, não são verdadeiros como a narração de uma viagem éou pode e deve ser. Os mitos não são descrições de ambientes e situações reais que existiram e aconteceram em mundos diferentes do nosso, e inacessíveis a nós: eles são invenções humanas, destinadas a dar sentido à realidade que nos cerca e, assim, a explicá-la.

Nesse contexto, em que ele era uma criança feliz e sem maiores problemas, veio a morte prematura de sua mãe. A partir desse triste acontecimento, C. S. Lewis teve de aprender a lidar, sozinho e solitariamente,  com o sofrimento causado pela ausência súbita da mãe… O pai tinha o seu próprio sofrimento para resolver. E Lewis, sensível, tinha de aprender a lidar com tudo aquilo que o sofrimento do pai, subitamente viúvo, e tendo de terminar de criar dois meninos, causou em seu comportamento em relação aos filhos – em especial em seu maior distanciamento deles.

A criança foi obrigada pelos parentes a ver a mãe morta. E ouviu — e foi isso que lhe causou maior horror — gente dizer que a mãe dele estava linda no caixão. Diz ele:

“Até hoje não consigo entender o que as pessoas querem dizer quando afirmam que uma pessoa morta, no caixão, está linda. O mais feio dentre os homens, desde que vivo, é um anjo de beleza quando comparado com o mais lindo dos defuntos. . . .  A isso eu reagia com horror.”

Ele continua:

“A morte de minha mãe foi a ocasião em que, segundo alguns (mas não na minha própria opinião), eu teria tido minha primeira experiência religiosa. Quando o caso dela ficou extremo, e se perderam todas as esperanças, eu me lembrei do que me havia sido ensinado, a saber, que as orações feitas com fé seriam atendidas. Assim sendo, forcei-me a produzir, por pura força de vontade, uma crença firme de que minhas orações pela recuperação de minha mãe seriam atendidas. E, se viessem a ser atendidas, eu teria conseguido a recuperação dela! Quando, no entanto, ela morreu, eu mudei de ponto de vista e passei acreditar que um milagre ainda iria acontecer para trazê-la de volta. Mas o meu desapontamento não produziu nenhum outro resultado além de si próprio. A coisa não funcionou. Mas eu estava acostumado a coisas que não funcionavam e, por isso, deixei de pensar na questão. Creio que a verdade é que a crença, que eu havia como que sido hipnotizado a aceitar, era irreligiosa demais para que seu fracasso pudesse produzir em mim uma revolução religiosa. Eu havia imaginado um Deus, ou uma ideia de Deus, sem amor, sem temor, sem medo. Em minha imagem mental do milagre que eu esperava, Deus não era nem Salvador nem Juiz, mas apenas um mágico. E eu imaginava que, quando ele fizesse a mágica que eu esperava dele, ele simplesmente iria embora! . . . Com a morte de minha mãe, tudo que era uma felicidade tranquila e confiável em minha vida desapareceu. Eu iria ainda me divertir, ter prazeres, ter momentos de alegria. Mas a segurança que eu sentia antigamente, esta desapareceu por completo.  .  .  . “.

Aqui fala Lewis em 1955, ocasião em que já faz cerca de 24 anos que se converteu (ou foi convertido) ao Cristianismo. Tudo isso, e as experiências que ele em geral considerou horríveis, quando foi para a escola, cobraram o seu preço.

Um pouco de câmara rápida.

Depois de passar rapidamente, de 1908 a 1910, por duas escolas que ele detestou, Lewis mudou, em Janeiro de 1911 para uma escola chamada Cherbourg House (que, em sua autobiografia, ele chama de Chartres), em Malvern, Worcestershire, na Inglaterra. Ele até gostou um pouco dessa escola. Ele tinha 12 anos completos quando chegou lá (embora em sua autobiografia da primeira metade de sua vida, Surprised by Joy, capítulo 4, ele afirme que em Jan 1911, ele “tinha acabado de fazer 13 anos”, o que é um erro: ele havia acabado de fazer 12 anos em 29.11.1910). Ali, em Cherbourg House, diz ele, também em sua autobiografia, “realmente começa a minha educação“.

Enquanto frequentava Cherbourg House, Lewis admitiu “ter deixado de ser um cristão“. O momento em que ele descobriu isso não é identificado com precisão. Diz ele, na autobiografia: “A cronologia desse desastre é um pouco vaga, mas eu tenho certeza de que o processo não havia começado quando eu cheguei lá, e estava completo logo depois que eu de lá saí“. Lewis saiu de Cherbourg House (Chartres) em meados de 1913, para ir para o Malvern College, na mesma cidade — na verdade, quase em frente da Cherbourg House.

A partir de Setembro de 1913, Lewis estudou no Malvern College por um ano (ele detestou a escola, que seu irmão havia adorado), e em Setembro de 1914 foi estudar, em um sistema “one-to-one“, com um conhecido tutor, William T. Kirkpatrick, em Great Bookham, Surrey, Inglaterra. Kirkpatrick, um ex-presbiteriano, que havia se tornado ateu, havia sido tutor de seu irmão mais velho, Warren, garantindo que ele entrasse na Academia do Exército, como desejava, e, muito tempo antes, professor de seu pai, Albert Lewis, na infância deste. A experiência de estudar com Kirkpatrick foi marcante para o desenvolvimento intelectual de Lewis. Ele ficou lá até Abril de 1917.

Ao final de seus estudos com Kirkpatrick, em 12.10.1916, quando C. S. Lewis estava bem próximo de completar 18 anos, e estava a cerca de seis meses de concluir sua educação básica (pré-universitária), necessária para ele entrar na universidade, ele admitiu, em carta para seu único, e, por conseguinte, o melhor amigo de infância (Arthur Greaves), que ele era ateu — e declinou claramente as suas razões. Disse ele:

“Não acredito em nenhuma religião. Não há, absolutamente, nenhuma prova para nenhuma delas, e, do ponto de vista filosófico, o Cristianismo não chega nem mesmo a ser a melhor delas. Todas as religiões, isto é, todas as mitologias, vamos chamá-las pelo nome correto, são meras invenções do ser humano”. [Apud Green & Hooper, C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, p.9; ênfases acrescentadas. Tradução minha.]

Fantástica e significativa essa passagem… Bem na linha do que foi dito atrás, sobre a gênese das ideias religiosas.

Não parece haver nenhuma dúvida aí. Se dúvida ele havia tido, ela já havia evoluído (ou, quem sabe, “involuído”) para uma certeza bastante firme: religiões não passam de mitos, que, por sua vez, são invenções humanas. Deus não existe, na realidade, sendo também uma criação humana. (Avento a possibilidade de que tenha havido uma “involução” porque, pessoalmente, acho preferível uma dúvida a uma certeza dogmática que pode estar errada.)

Isso foi dito, com todas as letras no final de 1916. Lewis chegou a Cherbourg House em Janeiro de 1911. Na autobiografia ele afirma que ainda era cristão quando chegou lá. Mas também afirma que, logo depois de ter saído de lá, em meados de 1913, o processo de descristianização estava concluído. Mas, possivelmente, ainda acreditava em Deus. A questão não fica clara. Nos três anos que se passaram entre Setembro de 1913, quando entrou no Malvern College, e Outubro de 1916, quando escreveu para Arthur Greeves, ele havia se tornado um ateu convicto e maduro.

3. Conclusão: A Questão da Verdade e o Desafio do C S Lewis Maduro

Vimos, na segunda parte do capítulo anterior, como Lewis “descobriu” o ateísmo e passou a aceitá-lo. Sua evolução intelectual aqui foi no “contexto da descoberta”. As razões que ele apresenta (mas não defende) para o seu ateísmo, na sua carta para Arthur Greaves, são:

  • Todas as religiões são mitos, e, portanto, não passam de invenções humanas;
  • Sendo inventadas pelo ser humano, não existem provas de que elas são verdadeiras;
  • A chamada “excepcionalidade” do Cristianismo não se justifica, porque o Cristianismo nem é mesmo a melhor das religiões.

Nos quinze anos seguintes de sua vida, dos 16 aos 31 anos, C S Lewis teve de viver e lidar com esta sua conclusão — operando, agora, no contexto da validação.

Para mudar de opinião, ele teve a alternativa de, ou de negar que todas as religiões são mitos e não passam de invenções humanas, sendo impossível considerá-las verdadeiras, ou, então, de, reconhecendo a verdade de que todas as religiões são mitos, encontrar, no caso do Cristianismo, uma excepcionalidade que justificasse a sua conversão para o Cristianismo.

Sua conversão foi progressiva, e em estágios. Ele reconheceu, primeiro, que faz sentido acreditar que haja uma força superior responsável por sustentar e controlar o mundo, em geral, e a nossa vida, em particular. Reconheceu, em segundo lugar, que essa força superior tem muitos aspectos em comum com o Deus dos Judeus e dos Cristãos. Faltava-lhe, agora, acreditar, em terceiro lugar, na história (estória?) de que essa força superior é pessoal, que é Deus, tem um filho, que esse filho se encarnou em um homem, Jesus de Nazaré, que, além de homem verdadeiro  também é verdadeiramente Deus, que a morte desse homem na cruz expia pecados, e que ele ainda vive, tendo sido ressuscitado por seu Pai e estando à sua mão direita nos céus, de onde um dia julgará os vivos e os mortos. Ou seja: a parte mais filosófica do caminho já estava percorrida no início de 1931. Mas faltava-lhe ainda percorrer a parte mais mitológica, e, por isso, mais difícil de considerar verdadeira. Negar que tudo isso fosse mito lhe parecia impossível.

Depois de uma longa conversa em 19.9.1931 (que atravessou a noite e chegou ao domingo 20.9.1931), com seus amigos J R R Tolkien, o autor de The Lord of the Rings, ele próprio um católico convicto e praticante, e Hugo Dyson, conversa que Lewis ficou ruminando nos dias seguintes, ele deu o passo que lhe faltava. Eis como ele o descreve, dois meses depois, em carta de 18.11.1931 para seu amigo Arthur Greeves (sempre ele!):

A estória (sic) de Cristo é simplesmente um mito verdadeiro: um mito que opera em nós da mesma forma que os outros mitos operam, mas com a tremenda diferença de que ela realmente aconteceu. [ . . . ] Essa estória é o mito de Deus, enquanto os outros mitos, os pagãos, são mitos de homens.” [Apud Green & Hooper, C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, p.116; ênfases acrescentadas; tradução minha.]

Em outro artigo discutirei esse caminho árduo percorrido entre 1916 e 1931 e analisarei essa conclusão que C S Lewis chegou – que não é tão simples, nem tão fácil de justificar como ele faz parecer.

Em Salto, 8 de Julho de 2020

Dois Tipos de Amigos que Toda Pessoa Deve Ter, segundo C S Lewis

Em Surprised by Joy, a autobiografia de seus anos iniciais, C S Lewis faz um comentário extremamente instigante sobre dois de seus melhores amigos, Arthur Greeves e Owen Barfield — que eram pessoas totalmente diferentes uma da outra. Mas ele gostava dos dois. E, segundo nos confessa, precisava dos dois. Eis o que ele diz, no capítulo 13, num tom que alguns vão considerar meio machista:

“Há um sentido em que Arthur [Greeves] e [Owen] Barfield (*) os tipos ideais de Primeiro Amigo e de Segundo Amigo que todo homem [sic] deve ter. O Primeiro Amigo é seu alter ego, aquele homem que primeiro lhe revela que você não está sozinho no mundo, que você tem alguém com quem pode compartilhar todas as coisas mais deleitáveis da vida. Não há nenhum obstáculo que precisa ser vencido para os dois serem amigos: ele e você se juntam como duas gotas de chuva numa vidraça. Mas o Segundo Amigo é o homem que discorda de você em relação a praticamente tudo. Ele não é seu alter ego: ele mais parece o seu anti-ego. Naturalmente que ele compartilha seus interesses — não houvesse esse mínimo de comunidade, ele nem seu amigo seria. Mas ele aborda todos os interesses comuns sempre de um ângulo ou perspectiva diferente. Ele já leu todos os livros certos — mas conseguiu tirar a lição errada de todos eles… É como se ele falasse a mesma língua que você, mas pronunciasse errado todas as palavras… Você se pergunta: como é que ele pode chegar tão perto do certo e, contudo, invariavelmente, estar tão errado? Ele é tão fascinante (e irritante) quanto uma mulher. Quando você tenta corrigir as heresias dele, você descobre que, na realidade, é ele que está a corrigir as suas! E assim vocês continuam, os dois, cada um com suas ferramentas favoritas, noite adentro, noite após noite; ou, quando vocês estão fora de casa, andando em meio a uma paisagem linda, nenhum dois dois consegue apreciar a beleza do entorno, mas só se preocupa em como absorver da melhor maneira possível as porradas do outro, olhando um para o outro mais como inimigos que se respeitam do que como os amigos que na realidade são. Na verdade, embora isso na hora não pareça ser verdade, vocês dois estão pouco a pouco modificando o pensamento um do outro. Dessa briga perpétua entre cachorros grandes, emerge uma comunhão de mentes que só faz aprofundar a afeição mútua. Mas eu creio que ele [Barfield] me mudou bem mais do que eu a ele. No entanto, muito do pensamento que ele mais tarde colocou em seu livro Poetic Diction já tinha passado pela minha mente antes de aparecerem naquele importante livro dele. Seria estranho se não tivesse… Ele naturalmente não era tão erudito então como se tornou depois, mas o gênio já estava lá presente nele”.

A tradução (meio livre) é minha.

(*) Arthur Greeves é amigo de infância… Por isso Lewis se refere a ele como “Arthur”. Owen Barfield é amigo de escola e colega de profissão. Por isso Lewis se refere a ele como “Barfield”, pelo sobrenome e não pelo prenome. Mas os dois eram amigos. Em relação a Lewis, os familiares e os amigos de infância o chamavam de Jack. Os amigos de escola e os colegas de profissão, Lewis ou, então, se eram também amigos íntimos, Jack. O restante das pessoas o chamava de Mr. Lewis.

Em Salto, 7 de Julho de 2020.

Cronologia do Essencial da Vida de C S Lewis

1862 (18 Mai) – Nasce Florence (Flora) Augusta Hamilton, que virá a ser a mãe de C S Lewis, em Queenstown, Irlanda.

1863 (23 Ago) – Nasce Albert James Lewis, que virá a ser o pai de C S Lewis, em Cork, Irlanda.

1894 (29 Ago) – Albert Lewis e Flora Hamilton se casam, em Belfast, Irlanda.

1895 (16 Jun) – Nasce Warren Hamilton Lewis, em Belfast, Irlanda, que será o único irmão de Lewis.

1898 (29 Nov) – Nasce Clive Staples (C S) Lewis, em Belfast, Irlanda (hoje Irlanda do Norte).

1905 (21 Abr) – A família Lewis prospera e adquire uma enorme casa, chamada “Little Lea”, em Belfast,  para a qual a família se muda, e que será muito importante no desenvolvimento de Lewis até que ele vai para a escola, em 1908.

1908 (23 Ago) – A mãe de Lewis, Flora Hamilton Lewis, morre de câncer, em Belfast, quando Lewis tem apenas 9 anos e 9 meses.

1908 (18 Set) – Sem a esposa, e estando seu filho mais velho já internado em uma escola, Albert Lewis coloca Jack, como C S Lewis era chamado na intimidade, em uma escola internato, a Wynyard School.

1910 (Set) – Lewis muda para uma escola chamada Campbell College, em Belfast, que ele acha simplesmente insuportável.

1911 (Jan) – Lewis muda para uma escola chamada Cherbourg House (que, em sua autobiografia, ele chama de Chartres), em Malvern, Worcestershire, na Inglaterra. Ele tem 12 anos completos (embora em sua autobiografia da primeira metade de sua vida, Surprised by Joy, capítulo 4, ele afirme que em Jan 1911, ele “tinha acabado de fazer 13 anos”, é um erro: ele havia acabado de fazer 12 anos em 29.11.1910. Ali, diz ele, também em sua autobiografia, “realmente começa a sua educação”.

1911 – Enquanto frequenta Cherbourg House, Lewis admite “ter deixado de ser um cristão”. Na verdade, ele não converteu para uma outra religião: ele se tornou ateu, pura e simplesmente. O momento em que ele descobriu isso não é identificado com precisão. Diz ele, na autobiografia: “A cronologia deste desastre é um pouco vaga, mas eu tenho certeza de que o processo não havia começado quando eu cheguei lá, e que estava completo logo depois que eu de lá saí”. [Como se verá no próximo item, Lewis saiu de Cherbourg House (Chartres) em meados de 1913, para ir para o Malvern College, na mesma cidade — na verdade, quase em frente da Cherbourg House.

1913 (Set) – Lewis se matricula no Malvern College, em Malvern.

1914 (19 Set) – Lewis deixa Malvern College, que também detestou, e, nessa data, vai estudar, em um sistema “one-to-one“, com um conhecido tutor, William T. Kirkpatrick, em Great Bookham, Surrey, Inglaterra, tendo Kirkpatrick, um ex-presbiteriano que havia se tornado ateu, sido tutor de seu irmão mais velho, Warren, e professor de seu pai, Albert Lewis, na infância deste. A experiência de estudar com Kirkpatrick foi marcante para o desenvolvimento intelectual de Lewis.

1917 (29 Abr) – Tendo completado seu estudo com Kirkpatrick, que era preparatório para ingresso na universidade, e tendo solicitado ingresso na Universidade de Oxford, Lewis é, nessa data, aceito pela Universidade.

1917 (8 Jun) – Lewis se muda para Oxford, onde passa morar, com outros futuros estudantes da Universidade, numa república na casa de Mrs. Janie Moore, de cujo filho havia se tornado amigo.

1917 (25 Set) – Antes de começar a estudar em Oxford, Lewis, que havia se alistado, é convocado para servir no Exército Britânico, na Divisão de Infantaria Leve de Somerset, com o objetivo vir a participar da Primeira Guerra Mundial.

1917 (17 Nov) – Lewis é enviado para lutar na França, onde chega em 29 Nov.

1918 (1-28 Fev) – Lewis, ferido, fica em um hospital.

1918 (15 Abr) – Lewis novamente ferido em combate.

1918 (Abr) – O filho de Mrs. Moore é declarado morto em combate.

1918 (25 Mai) – Lewis é devolvido para a Inglaterra, para convalescer de outro ferimento, ficando em hospitais e casas de convalescença até 17 Nov.

1918 (11 Nov) – Assinado o armistício, a guerra acaba.

1918 (23 Nov) – Lewis chega de volta em casa de seu pai, na Irlanda.

1918 – Os outros quatro (além do filho de Mrs. Moore) dos seis membros da república de Mrs. Moore, em que Lewis morava, morreram na guerra, sendo Lewis o único sobrevivente.

1919 (13 Jan) – Lewis volta para Oxford, onde Mrs. Moore aluga uma casa, passando ele a morar com ela e sua filha adolescente Maureen, por haver prometido ao filho dela que cuidaria da mãe dele, caso ele viesse a morrer na guerra.

1919 (20 Mar) – O primeiro livro de Lewis, Spirits in Bondage (Espíritos em Cativeiro), é publicado quando ele tem 20 anos.

1920 (31 Mar) – Depois de um pouco mais de um ano de estudos (equivalente a um bacharelado), Lewis completa o Estudo dos Clássicos, com honras (Classical Honours Moderation).

1922 (4 Ago) – Lewis completa seu segundo programa de estudos, equivalente a um segundo bacharelado, este em Literatura (Literae Humaniores).

1922-1923 – Depois de complicados processos políticos a parte centro-sul da Ilha da Irlanda, predominantemente católica, se separa da parte norte, predominantemente protestante (anglicana), e se torna independente do Reino Unido, passando a primeira a se chamar República da Irlanda, com capital em Dublin, e a segunda, que continua parte do Reino Unido, Irlanda do Norte, com capital em sua maior cidade, Belfast, na província de Ulster, a cidade em que Lewis nasceu.

1923 (16 Jul) – Lewis completa seu terceiro programa de estudos, este em Língua e Literatura Inglesa (English Language and Literature), equivalente a um terceiro bacharelado, depois de quatro anos e meio na Universidade, proeza rara em Oxford, que o torna famoso na instituição, na cidade e além.

1924 – Lewis é convidado a dar aulas como substituto na Universidade de Oxford.

1925 (20 Mai) – Lewis é eleito “Fellow da Universidade de Oxford”, no Magdalen College, na função de “Tutor” (Tutor) e “Lecturer” (Preletor), posição que vai exercer durante 30 anos, até o final de 1954.

1929 – Morre o pai de Lewis, Albert Lewis.

1930 – Lewis, seu irmão Warren, e Mrs. Moore compram a casa em Oxford em que ele vai residir o resto de sua vida, The Kilns, através de um contrato complexo em que os dois irmãos entram com parte do dinheiro (herdado do pai) e Mrs. Moore entra com a parte majoritária dos recursos, ficando acordado que os três serão proprietários da casa até a morte do primeiro deles que morrer, ficando a casa propriedade dos outros dois até que morra mais um, e, depois de mortos os três, ficaria a casa propriedade da filha de Mrs. Moore, Maureen Moore. [As mortes vieram nesta ordem: Mrs. Moore, em 1951, Lewis, em 1963, e Warren, em 1973.]

1931 – Depois de ter atravessado um processo complicado de conversão em três estágios, em que ele passou a acreditar, primeiro, na existência de uma “força maior” que controlaria o universo, tornando-se um teísta; segundo, passou a admitir que essa força maior poderia ser identificada com o Deus dos cristãos; e, terceiro, e finalmente, passa a crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e que sua morte e ressurreição de fato expia os pecados da raça humana, tornando-se um cristão no sentido pleno (segundo alguns, nem tanto…) do termo. A cronologia desses três passos é disputada. O maior desacordo é quanto à data do primeiro estágio. A maior parte dos biógrafos, com base em uma afirmação explícita de Lewis em Surprised by Joy, afirma que a data aproximada em que ele passou a acreditar em uma força genérica é o segundo trimestre de 1929. Alister McGrath, em sua primeira biografia de Lewis, afirma que Lewis errou de ano ao fazer referência ao primeiro estágio de sua conversão, e que a data correta é Março a Junho de 1930. Todos concordam que em Outubro de 1931 a conversão ao Cristianismo estivesse basicamente completada. O processo todo durou, para McGrath, basicamente um ano menos do que o próprio Lewis (que era ruim de datas) e todos os seus biógrafos, menos McGrath, acreditavam. [Confesso que acho os argumentos de McGrath, em sua primeira biografia, e no primeiro capítulo de sua segunda biografia, incontestáveis.]

1932 – Lewis publica sua primeira biografia, de forma alegórica, The Pilgrim’s Regress, na qual relata a sua conversão ao Cristianismo. [Surprised by Joy é de 1955.]

1933-1945 – Lewis escreve e publica bastante e, durante a guerra, é convidado pela BBC a dar três séries de palestras, de 1941 a 1943, sobre o Cristianismo no rádio, destinados aos soldados em guerra, tendo o texto das palestras, depois de revisados, sido publicados em três volumes separados, cada um com um título diferente.

1949 – A primeira biografia de Lewis é publicada, curiosamente, nos EUA, por Chad Walsh, com o título de C. S. Lewis: Apostle to the Skeptics. Foi essa biografia que chamou a atenção de Joy Davidman Gresham para Lewis e que a levou, primeiro, a se converter ao Cristianismo, e, em seguida, a entrar em contato com Lewis por correspondência. Joy viria a se casar com Lewis em 1956. [Trinta anos depois, em 1979, Chad Walsh publicou outro livro sobre C S Lewis: The Literary Legacy of C. S. Lewis.]

1950 – Lewis é contatado, por carta, por Joy Davidman Gresham, escritora judia e americana, que havia sido ateia e comunista, e que havia se convertido ao Cristianismo através da leitura da biografia de Lewis escrita por Chad Walsh e de alguns livros de Lewis, e enceta com ela uma correspondência intensa e prolongada.

1951 – Morre Mrs. Moore e The Kilns passa a pertencer aos dois irmãos, Jack e Warren Lewis, até a morte deles.

1952 – Os três livros com o texto das palestras radiofônicas de 1941-1943 foi revisado por Lewis e expandido, sendo juntados em um só livro, que se tornou o seu livro mais famoso, Mere Christianity.

1952 (25 Set) – Lewis se encontra face-a-face com Joy Davidman Gresham, com quem vinha se correspondendo há cerca de dois anos, e Joy fica na Inglaterra até o início de Jan 1953, passando o Natal em The Kilns, com Lewis e Warren. Volta, entretanto, antecipadamente, para os Estados Unidos, no início de Janeiro, diante do pedido de divórcio, feito por carta, por seu marido, que alega ter se apaixonado pela prima de Joy, que ficara em sua casa, cuidando dos filhos do casal durante a viagem de Joy. Diante da informação de Joy de que não contestaria a decisão, William Lindsay Gresham dá início imediato ao processo de divórcio, que, no entanto, vai tramitar lentamente, apesar do acordo entre as partes.

1953 (Nov) – Joy Davidman Gresham retorna para a Inglaterra, com seus dois filhos, David e Douglas, nascidos, respectivamente, em 1944 (27 Mar) e 1945 (10 Nov), com um ano e meio de diferença, para lá viver definitivamente, tudo dando certo. [Conforme seu filho mais novo posteriormente admitiu, ela foi para a Inglaterra decidida a se casar com Lewis.]

1954 (4 Jun) – Depois de ter sido preterido em várias eleições para o cargo de Professor Pleno em Oxford, Lewis é eleito para a cadeira de Professor de Inglês Medieval e da Renascença (Medieval and Renaissance English) na Universidade de Cambridge, que criou a cadeira especialmente para ele, e, naturalmente, aceita o cargo nessa data, pedindo sua demissão de Oxford.

1954 (5 Ago) – O divórcio de Joy Davidman e William Lindsay Gresham se efetiva.

1954 (29 Nov) – Lewis profere, no dia de seu aniversário, sua Aula Inaugural na Universidade Cambridge, Magdalene (sic) College. [Curiosamente, ele sai de Magdalen e vai para Magdalene…]

1954 (3 Dez) – Lewis realiza seu último tutorial na Universidade de Oxford.

1955 (7 Jan) – Lewis começa efetivamente a trabalhar na Universidade de Cambridge, onde apenas pesquisa e dá preleções magistrais, estando dispensado de exercer a função de Tutor — e, devidamente autorizado pela universidade, estabelece a rotina de passar a semana em Cambridge e retornar para Oxford no fim de semana, que se estende até a noite de segunda feira.

1955 (Jul) – Lewis é eleito para a British Academy.

1956 – Vence o visto de permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra.

1956 (23 Abr) – Alegando que o faz para resolver a questão da permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra, Lewis se casa com ela, diante do Registro Civil de Oxford, tendo o casamento se mantido em segredo quase universal e sido, segundo ele assevera, exclusivamente pro forma.

1956 (19 Oct) – Joy Davidman descobre que está com câncer, ao cair e fraturar o fêmur. Como se constatou, o câncer começou no seio direito e, quando foi descoberto, já estava em metástase, tendo alcançado os ossos e facilitando a fratura do fêmur em um tropeço.

1957 (21 Mar) – Em cerimônia religiosa realizada no hospital, diante de um sacerdote anglicano, mas realizada sem a autorização e contra a vontade do bispo anglicano da região, Lewis se casa no religioso com Joy Davidman, desta feita o casamento tendo sido para valer, havendo até mesmo anúncio posterior na imprensa, através de nota discreta e sucinta, que, entre outras coisas, solicitava que não fossem enviadas cartas.

1957-1960 – O câncer de Joy Davidman Lewis parece ter parado de avançar e até mesmo regredido, permitindo que o casal faça sua viagem de núpcias à Irlanda, no ano de  1958. [Misteriosa, ou miraculosamente, a dor de Joy passa gradativamente para Lewis, que havia orado pedindo que Deus transferisse para ele a dor dela. Logo depois do início das orações substitucionárias, Lewis foi diagnosticado com osteoporose nas pernas, precisando usar um aparelho no quadril (“braces“) e bengala. Lewis teve esse problema de saúde até morrer, não tendo tido coragem de pedir a Deus que o livrasse daquilo que ele próprio havia pedido, antes, que Deus lhe desse.]

1959 (26 Mar) – Lewis é eleito “Honorary Fellow” do University College da Universidade de Oxford.

1959 (Out) – O câncer de Joy volta forte.

1960 (3-14 Abr) – Lewis e Joy, junto de um casal amigo de Lewis (ele, Roger Lancelyn Green, sendo ex-aluno de Lewis, autor já reconhecido de biografias e livros para crianças, e a pessoa a quem havia solicitado que escrevesse sua biografia, quando ele morresse), fazem, contra indicação médica, uma viagem à Grécia, que era um sonho que Joy queria realizar antes de morrer.

1960 (13 Jul) – Joy David Lewis morre, depois de três anos e três meses casada com Lewis.

1961 (24 Jun) – Lewis recebe diagnóstico de que está com um quadro complexo de doenças, envolvendo, além da osteoporose, crescimento exagerado da prótese, e problema nos rins, e os médicos acham arriscado operá-lo da próstata por causa da delicadeza de sua saúde.

1961 (Out) – Lewis interrompe temporariamente suas aulas em Cambridge, por causa da condição precária de sua saúde, só voltando a trabalhar seis meses depois, em Abr 1962, quando seu quadro de saúde tem alguma melhora.

1963 (7 Jun) – Lewis retorna para passar o Verão em Oxford e lá encontra, naquele mesmo dia, e pela primeira vez, Walter Hooper, o jovem professor universitário americano, de 32 anos, com quem se correspondia há quase 10 anos, a quem “contrata” como seu secretário pessoal, para cuidar da organização de sua vida, dado o fato de que seu irmão, que era responsável pela correspondência e pela agenda de Lewis, e que estava em crise depressiva e alcoólica por causa da morte de Joy (de quem gostava muito) e da saúde ruim de Lewis, havia se mudado temporariamente para a Irlanda.

1963 (15 Jul) – Lewis tem um ataque cardíaco, entra em coma, mas no dia seguinte volta, ficando no hospital, no entanto, até 6 Ago.

1963 (Set) – Walter Hooper retorna aos Estados Unidos para exercer seu último período letivo como professor da Universidade de Kentucky.

1963 (22 Nov) – Uma semana antes de completar 65 anos, C S Lewis morre, no mesmo dia e ano em que morreram o Presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy e o filósofo Aldous Huxley, sendo (Lewis) enterrado em 26 Nov, sem que seu irmão Warren tenha comparecido nem à cerimônia religiosa nem ao enterro, que foi realizado no cemitério da Holy Trinity Church, em Headington, Oxford. Com a morte de Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente ao seu irmão Warren, até a morte deste. [Uma curiosidade meio besta… Quando Lewis morreu, sua mãe, se não tivesse morrido em 1908, estaria com 101 anos, uma idade que muitas pessoas alcançam hoje em dia, mas poucas alcançavam nos séculos 19 e 20. Assim, a vida dos dois, mãe e filho, duas gerações, se não levarmos em conta a pequena sobreposição que houve entre elas, durou apenas 101 anos.]

1964 (7 Jan) – Walter Hooper volta para Oxford e é contratado para ser Assessor Literário de Owen Barfield, grande amigo de Lewis, que, depois da morte de Lewis, foi escolhido para ser o que no Brasil se chama de Testamenteiro (Executor) de seu espólio, ficando Hooper responsável por (a) coletar e organizar os papeis que Lewis deixou que constituíam trabalhos publicáveis e ainda não haviam sido publicados; (b) acompanhar os trabalhos de Lewis que já estavam no prelo, mas não haviam sido publicados ainda; e (c) elaborar uma bibliografia completa e confiável de C S Lewis, algo que inexistia até então.

1973 (9 Abr) – Nove anos e meio depois dele, morre Warren Lewis, irmão mais velho de C S Lewis, sendo enterrado no mesmo túmulo que Lewis. Ele legou seus próprios volumosos papéis para o Wheaton College, de Wheaton, Il, EUA, aparentemente contra a vontade de Walter Hooper. Com a morte de Warren Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente a Maureen Moore, então já uma baronesa, por ter herdado o título em decorrência da morte do seu pai (em um desses intricados processos que apenas os ingleses entendem).

1974 – A biografia oficial de Lewis é publicada, com texto de Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, e com o título de C. S. Lewis: A Biography. [Na segunda edição, de 2002, 28 anos depois, o título se torna C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, mas a autoria continua de Green & Hopper, embora Green tenha morrido em 1986).

1975 – Sem a sombra de Warren Lewis, Walter Hooper assume total controle do legado intelectual de C S Lewis, como seu Testamenteiro Literário (Literary Executor).

O resto é história.

Cronologia elaborada e publicada em Salto, 6 de Julho de 2020, com base nas biografias de C S Lewis resenhadas em artigo anterior, e revisada (corrigida e ampliada) em São Paulo, em 7 e em 10 de Julho de 2020.

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

Esses três homens, com o nome acima e a foto abaixo, cada um deles grande do seu próprio jeito, morreram num mesmo dia do mesmo mês do mesmo ano: 22.11.1963.

C S Lewis, A Huxley and J F Kennedy

Ironias do destino.

Eu estava numa praia de Florianópolis naquele dia. Todo mundo que estava vivo na época se lembra de onde estava quando Kennedy, o mais conhecido deles, morreu.

C S Lewis talvez seja o mais conhecido e famoso hoje, 57 anos depois de sua morte, pelas novas gerações, por causa de The Chronicles of Narnia.

https://www.thedailybeast.com/three-great-men-died-that-day-jfk-cs-lewis-and-aldous-huxley

Em Salto, 6 de Julho de 2020.

“Chronological Snobbery”

“One of [C. S.] Lewis’s most illuminating breakthroughs came when his Oxford friend Owen Barfield convinced him of the folly of ‘chronological snobbery.’ Lewis defined chronological snobbery as ‘the uncritical acceptance of the intellectual climate common to our own age and the assumption that whatever has gone out of date is on that account discredited.’

That insight helped Lewis overcome his naïve acceptance of the latest naturalistic scientific pronouncements that led intellectual snobs such as he had been to dismiss beliefs in spiritual realities as merely ‘romantic’ or ‘medieval.’

He saw, rather, that ‘our own age is also *a period*, and certainly has, like all periods, its own characteristic illusions.’ That insight helped him get beyond the shallow modern scientifically based rationalism that had stood as a roadblock to his encountering the spiritual as real.”

[Apud George M. Marsden. C. S. Lewis’s “Mere Christianity” (Lives of Great Religious Books) (pp. 10-11). Princeton University Press. Kindle Edition.]

Transcribed here on July 6, 2020.

Biografias de C S Lewis – Uma Resenha

[Este artigo é publicado isoladamente, mas ele faz parte de um todo maior que será oportunamente divulgado. EC]

CONTEÚDO:

1. Preliminares

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. A Biografia Autorizada
B. O “Companion & Guide
C. Mais Duas Biografias

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

A. As Três Biografias de Alister McGrath
B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

o O o

1. Preliminares

Dentre os livros que tenho, mais de cem dizem respeito a C S Lewis. Ele podem ser divididos, mais ou menos igualmente, em duas grandes categorias: livros escritos por C S Lewis e livros escritos sobre C S Lewis. Só os meus livros de e a respeito de um outro autor são em maior número: David Hume, filósofo escocês sobre o qual escrevi minha tese de doutorado, defendida em 8 de Agosto de 1972 — daqui um mês fará 48 anos.

Entre os primeiros — livros de autoria do próprio C S Lewis — estão livros de todos os tipos: livros de poemas, livros de crítica literária e história da literatura, livros de ficção, alguns voltados para adultos e outros voltados para crianças e adolescentes, livros de cunho religioso e teológico, e livros de natureza autobiográfica (o mais importante dessa última categoria sendo uma autobiografia da primeira parte de sua vida, até meados dos anos 30 do século passado).

Entre os livro escritos sobre C S Lewis há biografias gerais, que cobrem sua vida inteira (período por período, do nascimento até a morte), há biografias que tratam de segmentos específicos de sua vida (de sua infância e juventude, por exemplo, o da fase em que ele esteve casado, seu casamento tendo se dado quando ele já era um homem maduro, se não velho: tinha quase 58 anos), há livros que analisam o mundo intelectual em que ele viveu (as ideias de seu mundo, aquelas que ele aceitou tranquilamente, e que foram poucas, e aquelas que ele criticou, em alguns casos com veemência, e rejeitou, a maioria), e há livros que analisam um ou mais aspectos de sua obra e que, em geral, por causa da quantidade enorme de seus livros, se dedicam, em regra, a um ou outro aspecto dessa obra, como sua ética, ou sua rejeição da modernidade. Não conheço nenhum livro que analise, em profundidade, toda a obra de C S Lewis, nem mesmo todas as principais, embora haja um que chega mais ou menos perto disso, e que mencionarei, no devido momento, de autoria de Walter Hooper.

Os livros escritos pelo próprio C S Lewis (ele foram todos escritos a mão, porque ele não sabia datilografar — aquilo que hoje chamamos de digitar) são sempre interessantes — mas os livros sobre ele também não deixam de ser, com uma ou outra exceção (e os que realmente não vale a pena ler eu, em geral, nem discuto — o que não quer dizer que os que não menciono neste artigo não valham a pena ler…).

Os livros sobre C S Lewis podem ser classificados de várias maneiras:

  • Livros de pessoas que conviveram com ele, como ex-alunos, colegas, e amigos, os quais em geral, gostam dele e o admiram;
  • Livros de pessoas que não conviveram com ele, os quais podem ser classificados em três tipos principais:
    • Livros de quem é simpático a ele e o defende (quando necessário) e elogia (quando recomendável);
    • Livros de quem, por uma ou mais de uma razão, não gosta muito dele e o critica;
    • Livros de quem se pretende neutro e objetivo, procurando descrever mais do que avaliar.

Das pessoas que conviveram com ele, pouquíssimas pessoas que não gostavam dele (e havia quem o detestasse) se deram ao trabalho de escrever um livro sobre ele. Neste caso, apenas fizeram referências desairosas e críticas a ele em livros cujo foco principal não era ele, era algum outro tema.

Das pessoas que não conviveram com ele, há muitos que não gostavam e ainda não gostam dele. Algumas dessas pessoas escreveram livros críticos a ele, em geral, ou, mais frequentemente, em críticos de alguns aspectos específicos de sua vida e obra (sua contribuição à crítica literária e à história da literatura; sua produção literária, tanto em prosa como em poesia, dedicada a adultos; sua produção literária dedicada a crianças; sua teologia, em especial sua defesa (apologia) do Cristianismo.

Registre-se ainda que, por vezes, alguns autores pretendem ser uma coisa, mas acabam sendo outra. O caso mais comum é o de pessoas que pretendem ou alegam ser objetivas e neutras, mas, no fundo, têm alguma antipatia para com ele, como pessoa, ou discordam frontalmente de alguns aspectos de sua obra e de suas ideias.

Isso dito, vou mencionar sucintamente os principais livros sobre C S Lewis que eu tenho usado, em maior ou menor intensidade e profundidade, para escrever meus artigos sobre ele — artigos que, oportunamente, espero transformar em um livrinho. . .

2. Biografias de Pessoas que Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Dentre as biografias de C S Lewis escritas por gente que o conheceu e conviveu com ele, as quatro de que mais gosto e que mais tenho utilizado são mencionadas a seguir.

A. A Biografia Autorizada

Em primeiro lugar, uma biografia a quatro mãos, escrita por duas pessoas ligadas a Lewis, Roger Lancelyn Green e Walter Hooper, com o título (atual) de C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography (Harper, New York, 1974 [1st ed], 2002 [rev. ed.]). O título da primeira edição, de 1974, era C. S. Lewis: A Biography. O título da segunda edição, de 2002, portanto, é mais incisivo: o “a” (uma) virou “the” (a) “Biography” — de C. S. Lewis: Uma Biografia passou para C. S. Lewis: A Biografia. Para que não pairassem dúvidas, foram inseridos ainda os termos “Authorised” (Autorizada) e, naturalmente, “Revised” (Revisada).

No Prefácio da segunda edição Walter Hooper, um dos autores, o mais novo deles, esclarece que, dada a morte do outro autor, em 1987, a revisão foi feita exclusivamente por ele, Hooper — embora os dois autores tenham frequentemente discutido o que precisaria ser incluído e modificado em uma nova edição. A morte de um dos autores, em si, normalmente não significa muita coisa para um livro que é reeditado: é algo que acontece com frequência. No caso, a contribuição de Green à primeira edição, também parece ter sido pequena, limitando-se ao uso feito de um diário feito por ele quando de uma viagem sua e de C S Lewis, ambos acompanhados de suas esposas, à Grécia, viagem que acabou por ser a última viagem significativa feita por Lewis e Joy Davidson Lewis, sua mulher, que já estava em seus últimos dias de vida. A viagem foi feita contra recomendação médica, para a atender ao desejo expresso de Joy de conhecer a Grécia antes de morrer. (Curioso, não? Por que a Grécia e não a Palestina, já que ela era uma judia que havia se convertido ao Cristianismo, duas religiões para as quais a Palestina era historicamente importante?)

A segunda edição contém capítulos novos e revisão dos antigos, sendo bem mais longa. Hooper poderia até mesmo ter assumido registrado apenas o nome dele como autor, dando o devido crédito, no prefácio, à contribuição de Green. Isso não seria inusitado. A razão pela qual Hooper aparentemente fez questão de manter o nome de Green como coautor, quinze anos depois de este estar morto, sem ter contribuído nada para a significativa revisão, e, assim, não tendo contribuído tanto para a obra revisada como um todo, se deve ao fato de que C S Lewis havia solicitado a Green que escrevesse sua biografia… Logo, o “Authorised” que Hooper incluiu no título da segunda edição só poderia ser mantido se Green continuasse a ser considerado um dos autores…

Consta que Hooper, que se tornou secretário particular de Lewis no final da vida deste, poucos meses antes de sua morte, em Junho de 1963, solicitou a Lewis, quando este já estava próximo da morte, permissão para escrever sua biografia autorizada, ao que Lewis teria respondido que já havia encarregado Green, seu ex-aluno e grande amigo há muito tempo, e que era um escritor (inclusive biógrafo) experiente e consagrado, que fizesse isso, e que Hooper, portanto, se entendesse com ele. O resultado foi uma coautoria, decorrente, em parte, da generosidade de Green, e, em parte, da proatividade e (até certo ponto) agressividade do jovem Hooper em relação a qualquer questão que contribuísse para que ele se tornasse, oportunamente, como de fato veio a se tornar, a grande autoridade mundial em C S Lewis.

Na qualidade de secretário pessoal de Lewis quando este morreu, e de pessoa que passou a morar na própria casa de Lewis, depois de sua morte, e que assim passou a conviver com o irmão (mais velho) de Lewis e com seu enteado mais novo (ele tinha dois), Hooper veio a ter considerável controle, desde a morte de Lewis, em 1963, dos papéis que Lewis deixou em casa ou em editoras ao morrer. Durante 12 anos, até 1975, Hooper não foi o responsável oficial pela herança intelectual de Lewis, posição que só veio a alcançar em 1975: até então era apenas um assessor literário contratado pelos testamenteiros.

De qualquer forma, essa biografia, sendo autorizada,  e sendo escrita por quem foi, tende a ser muitíssimo bem documentada, como não poderia deixar de ser, e muito sensata e equilibrada, e, portanto, confiável, embora tenha sido escrita por um grande amigo de Lewis e um admirador de Lewis (por carta, desde 1951) e que veio a ser (por pouco tempo, a partir de Junho de 1963 até sua morte), seu secretário pessoal). O único reparo a ser feito a essa biografia é que ela contem, na segunda edição, em um ou outro lugar, uma excessiva valorização do papel de Hooper na vida de Lewis, como se ele tivesse convivido presencialmente com Lewis por muito tempo — por correspondência, parece incontestável a sua alegação de que eles haviam se correspondido por doze anos antes de se conhecerem. Mas o contato pessoal, face-a-face, de Hooper com Lewis foi muito curto. Contratado em 7 de Junho de 1963, como já observado, ele teve de retornar aos Estados Unidos em Setembro para executar, por mais um período letivo, até Dezembro, o seu trabalho de professor na instituição em que trabalhava. Assim, ficou ao lado de Lewis menos de três meses. Só em Janeiro de 1964, depois de Lewis já estar morto e enterrado, ele voltou para a Inglaterra, não mais para exercer o papel de secretário pessoal, mas, agora, mediante contrato com os responsáveis pela herança de Lewis, para coletar e organizar os seus trabalhos ainda não publicados, elaborar uma lista oficial de suas publicações, e por alguma ordem nos papeis de um homem que era relativamente desleixado com seus papeis.

Mas, como já assinalei, o fato mais importante é que, a partir desse momento, ele passou a ter contato chegado, ganhando sua confiança,  com o irmão mais velho e com o enteado mais novo de Lewis, que supervisionavam a execução do legado intelectual dele. Registre-se, mais uma vez, que é sabido e notório que, a despeito de suas muitas virtudes, Lewis sempre foi meio desmazelado com seus papéis pessoais e profissionais, jogando fora, por exemplo, os originais de suas obra depois de elas terem sido publicadas, algo que muita gente, eu inclusive, acha um absurdo. Poucos manuscritos de suas obras sobraram. Quando Hooper se tornou secretário particular de Lewis, em 1963, ele tinha 32 anos e Lewis estava às portas da morte (embora não soubesse). Hooper está vivo até hoje e deverá completar 90 anos o ano que vem (2021). Mais sobre essa história, na sequência e adiante.

B. O “Companion & Guide

Em segundo lugar, mais uma obra de Walter Hooper, escrita entre as duas edições da biografia mencionada no item anterior: C. S. Lewis: Companion & Guide (Harper, San Francisco, 1996), que parece ter sido comercializado também com o título de C. S. Lewis: A Complete Guide to His Life and Works. (Provavelmente seja o mesmo livro com títulos diferentes dos dois lados do Atlântico, como acontece com livros no Brasil e em Portugal.)

Essa obra, que é bem mais do que uma simples biografia (como o título já indica), tendo 940 páginas em fonte de corpo pequeno, contém uma biografia mais resumida de Lewis, mas mesmo assim, com 120 páginas (pp.1-120), uma das mais completas e confiáveis cronologias de Lewis (pp.121-126), um longo resumo, com boa análise, de todos os seus principais escritos, devidamente classificados em “Juvenilia“, “Poetry“, “Autobiographical“, “Novels“, “Theological Phantasies“, “Theology“, “Chronicles of Narnia“, “Literary Criticism” (pp.127-548), uma discussão das “Key Ideas” de Lewis (pp.549-614), duas valiosas seções, uma, “Who’s Who“, sobre as principais pessoas na vida de Lewis (pp.615-744), e outra, “What is What“, sobre os principais lugares na vida dele (pp.745-798), e uma bem completa (até a data da sua publicação) “Bibliography of C. S. Lewis’ Writings” (pp.799-884). “Acknowledgements” (pp.885-886) e um valioso “Index” (pp.887-940) completam a obra.

Pode parecer esquisito dizer que a Bibliografia é bem completa “até a data da sua publicação”, porque, se Lewis morreu em 1963, e o livro foi publicado em 1996, que outra publicação poderia vir à tona depois dessa data? A questão é que até hoje aparecem livros inéditos de Lewis, resultado de manuscritos que são encontrados e que não haviam ainda sido publicados, cartas dele para várias pessoas, que só foram localizadas recentemente, etc. E Hooper é um incansável caçador dessas relíquias. Na opinião de alguns, publica até o que Lewis, possivelmente, não considerava para publicação, ou digno de publicação.

Apesar de a ter colocado em segundo lugar nesta minha lista, por ser muito longa e muito mais do que uma biografia, este “Companion & Guide” talvez seja a obra mais útil para consultas por quem não tem aceso a muita literatura secundária sobre Lewis.

C. Mais Duas Biografias

Em terceiro lugar, uma outra biografia escrita por um dos ex-alunos de C S Lewis (que foi aluno dele lá no início da sua vida profissional), que também se tornou seu grande amigo ao longo do tempo, George Sayer. O título dessa biografia é Jack: A Life of C. S. Lewis (Crossway Books, Wheaton, IL, 1988, 1994). Percebe-se a intimidade que o autor tinha com o biografado já no título da obra: “Jack”, o apelido de C S Lewis. Embora muita gente o chamasse de Lewis, ninguém o chamava de Clive, seu nome de batismo. Desde que ele era pequeno, ficou Jack — na sua família, Jacks.

Se essa biografia é considerada por alguns como, até certo ponto, hagiográfica (não concordo que seja), por ter sido escrita por um ex-aluno e bom amigo, alguém que, claramente, gosta do biografado e o admira com sinceridade, que sobre ele escreve com o maior respeito, e que, na dúvida, fica na posição que entende ser a favor dele, ela não é menos útil por isso. Pelo contrário. Mesmo que possa ser considerada, em um ou outro aspecto, hagiográfica, ela é um trabalho sério de historiografia, e, talvez mais importante, serve de excelente contrapeso e contraponto às duas biografias de C S Lewis escritas por A. N. Wilson, que são, em muitos aspectos, bastante críticas, como irei mencionar adiante, quando uma interpretação mais branda e neutra seria cabível. No caso de Wilson, em caso de dúvida, ele geralmente toma uma posição que deslustra a memória de Lewis.

Em quarto lugar, um outro livro biográfico interessante, também escrito por gente que conheceu bem C S Lewis, é o editado por James T. Como, C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences (Harcourt, New York, 1979, 1992 [New Edition]), que contém reminiscências de vinte e quatro pessoas, além de um artigo introdutório de Como (que, curiosamente, é o único que não conheceu Lewis pessoalmente).

Vale a pena ler essa obra, embora a natureza de cada reminiscência seja muito pessoal e, até certo ponto, subjetiva. Mas várias delas são bastante interessantes e mesmo curiosas. No conjunto, há uma razoável desigualdade na contribuição das diversas publicações.

3. Biografias de Pessoas que não Conviveram com Lewis e lhe São Amigas

Entre as biografias escritas por gente que não conviveu com Lewis, mas que por ele tem simpatia, menciono cinco. As três primeiras são de um mesmo autor, o conhecido teólogo e historiador do pensamento cristão e da igreja, Alister E. McGrath, que, nascido em 1953, tinha dez anos quando Lewis morreu. É surpreendente que uma só pessoa tenha escrito três livros diferentes sobre um mesmo autor, cada um enfatizando um aspeto dele!

A. As Três Biografias de Alister McGrath

A primeira biografia, e aquela que é uma biografia no sentido mais estrito da palavra, é C. S. Lewis: A Life, que traz na capa (mas não dentro) o subtítulo Eccentric Genius, Reluctant Prophet (Hodder & Stoughton, Londres, 2013 – ano em que a morte de Lewis completou 50 anos!). Há tradução para o Português com o título A Vida de C. S. Lewis: Do Ateísmo às Terras de Nárnia, que nada tem que ver com o título original. Em comentário incluído na capa do livro, N. T. Wright, famoso teólogo contemporâneo, afirma: “A penetrating and illuminating study” — a biografia vem bem recomendada, portanto.

O livro tem uma organização cronológica, em cinco partes.

  • A primeira parte, com três capítulos, vai de 1898 a 1918, ou seja, do nascimento até o final da educação básica (pré-universitária) de Lewis e o início, propriamente dito, depois do atendimento de uma convocação para lutar na Primeira Guerra Mundial, dos estudos de Lewis em Oxford.
  • A segunda parte, com sete capítulos, vai de 1918 a 1954, cobre a sua participação na guerra, quando já havia sido aceito pela Universidade de Oxford e morava na cidade, e sua vida em Oxford, incluindo os seus anos de estudos (1919-1925) e os seus quase trinta anos de trabalho naquela famosa universidade (1925-1954).
  • A terceira parte, curiosamente, tem dois capítulos não vinculados, em senso estrito, a um período, em particular, da vida de Lewis, mas dedicados a discutir um conjunto específico de obras: The Chronicles of Narnia (que foram sete crônicas, originalmente publicadas separadamente, em diferentes datas). O primeiro dos dois capítulos foca a questão de como Lewis chegou a escrever essa importante obra de ficção para crianças e adolescentes e de como ele veio a encarar o papel da imaginação na vida de uma pessoa, em especial de um escritor, ao lado da razão, da experiência, e das emoções. O segundo dos dois capítulos da terceira parte discute, de forma mais profunda, a (cronologicamente) primeira (e, no entender de McGrath, a melhor) das sete crônicas que compõem Narnia: “The Lion, the Witch and the Wardrobe“.
  • A quarta parte, com dois capítulos, vai de 1954 a 1963, um capítulo cobrindo de sua ida para Cambridge (1954) até a morte de sua mulher (1960), o outro cobrindo da morte da mulher até a sua própria morte (1963).
  • A quinta parte, final, com um capítulo só, não está, da mesma forma que a terceira parte, vinculada a um período específico de sua vida, na verdade discutindo sua pós-vida: “The Lewis Phenomenon“.

A quinta parte contém uma discussão que eu, pessoalmente, reputo fantástica de um tema  que é retomado no último capítulo da segunda obra, a seguir descrita.

A segunda biografia de McGrath é mais uma biografia intelectual, The Intellectual World of C. S. Lewis (John Wiley & Sons, Chichester, 2014), publicada um ano depois do livro anterior. Nessa obra McGrath se preocupa mais com as ideias de Lewis, que, na obra, são discutidas na forma de “ideias chave” (“key ideas“). De cada uma dessas ideias, sete ao todo, McGrath estuda o seu pedigree, por assim dizer, e o seu mérito. O oitavo capítulo trata do mesmo assunto da quinta parte do livro anterior.

  • Em primeiro lugar, a ideia de uma autobiografia, tipificada especialmente por Surprised by Joy [Surpreendido pela Alegria, na tradução para o Português], mas que é retomada em Grief Observed [A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação, na tradução para o Português], tendo também sido usada, de forma alegórica, em The Pilgrim’s Regress, livro que é unanimemente considerado autobiográfico.
  • Em segundo lugar, o tipo de ateísmo que Lewis adotou durante cerca de 25 anos, dos dez ou onze anos aos cerca de trinta e cinco ou trinta e seis anos, nas décadas de 10, 20 e 30 do século 20 — que não foi, como muitas vezes é o caso, um “ateísmo relutante”, que sente saudade dos tempos de fé, mas um ateísmo abraçado com gosto, visto como uma espécie de liberação.
  • Em terceiro lugar, a questão dos mitos, e até que ponto eles podem revelar a verdade, e o seu papel na sua conversão para o Cristianismo (que ele não considerava uma reconversão, porque concluiu que nunca havia se convertido ao Cristianismo antes).
  • Em quarto lugar, o que McGrath chama de “a metáfora ocular”, que envolve o uso dos conceitos de luz, sol, e visão, na obra de Lewis, aparentemente dando uma importância maior ao visual do que ao audível e aos demais processos sensoriais.
  • Em quinto lugar, o conceito de Alegria, termo sempre escrito com inicial maiúscula, que é relacionado ao chamado “argumento do desejo”, apresentado por Lewis.
  • Em sexto lugar, o método apologético de Lewis, envolvendo razão, experiência e imaginação. (Talvez falte explicitar a emoção nesse contexto, fazendo de uma trindade uma quaternidade.)
  • Em sétimo lugar, a proposta de um “Mero Cristianismo”, um Cristianismo focado nos essenciais, que não considera, e mesmo desdenha, as questões secundárias de doutrina, conduta e organização eclesiástica, em grande parte responsáveis pelos cismas e pelas divisões do Cristianismo, e, no caso do Protestantismo, pelo denominacionalismo.
  • Por fim, em oitavo lugar, a tese (de McGrath) de que a ideia de um “Mero Cristianismo” solapou as ideias de igreja e denominação, bem como a ideia de que uma boa teologia é feita somente por teólogos profissionais, nunca por teólogos leigos e populares, em linguagem acessível, em livros curtos e baratos…

Vale a pena ler, em especial a tese desse oitavo capítulo. Ela explica a aceitação de C S Lewis por pessoas de basicamente todas as denominações protestantes, e até por católicos e por desigrejados. E explica por que parece haver, a partir de meados dos ano oitenta, uma verdadeira guerra de bastidores sobre quem vai conseguir “engaiolar” o livre pássaro que é Lewis: se os evangélicos conservadores de Wheaton, nos Estados Unidos, ou os católicos conservadores ligados a Walter Hooper, que, apesar de americano, se radicou na Inglaterra, e representa, em relação a Lewis, uma tendência mais conservadora ainda do que a dos evangélicos de Wheaton, apresentando um Lewis menos evangélico e mais “high church” e, por conseguinte, mais próximo da Igreja Católica. Registre-se que Walter Hooper, que foi ordenado sacerdote na Igreja Anglicana, posteriormente se converteu à Igreja Católica e é hoje um padre católico, devidamente aposentado de seus deveres sacerdotais, mas ainda zelando, aos quase 90 anos, pela obra e pelo bom nome de C S Lewis, que ainda é seu ídolo, mas que encontrou no Papa João Paulo II um significativo concorrente…

A terceira biografia de McGrath não é bem uma biografia: é uma tentativa de aplicar o pensamento de C S Lewis para os dias atuais — algo parecido com uma coleção de sermões baseados em textos lewiseanos. Mas é interessante, porque ilumina o entendimento que McGrath tem do pensamento de Lewis. O título, curioso e chamativo, é If I Had Lunch with C. S. Lewis: Exploring the Ideas of C. S. Lewis on the Meaning of Life (Tyndale, Carol Stream, 2014). Há tradução para o Português, com o título, mais uma vez não fielmente traduzido, Conversando com C. S. Lewis. Para quem nunca leu nada de C S Lewis, esta é uma excelente — e cativante — introdução ao seu pensamento.

B. Duas Obras de Cunho mais Acadêmico

Em quarto lugar, para um tratamento mais acadêmico de Lewis, focado em sua obra mais do que em sua pessoa, há uma livro centrado em suas ideias, editado por Robert MacSwain & Michael Ward, The Cambridge Companion to C. S. Lewis (Cambridge University Press, Cambridge, 2010). Há vinte e um artigos, incluindo uma Introdução por MacSwain. Vale a pena ler, se você está interessado numa análise mais acadêmica das ideias de Lewis. Em geral, o mundo acadêmico na área da Teologia e da Filosofia olha para Lewis com um certo ar de superioridade e desdém… Confira isso lendo esse livro.

Por fim, em quinto lugar, para um tratamento mais focado na teologia de C S Lewis, propriamente dita, recomendo a edição revisada e atualizada do livro C. S. Lewis and the Search for Rational Religion (Prometheus, Amherst, 1985, 2007 [rev. & upd]), de John Beversluis. O livro tem como mote uma importante citação de Lewis que fundamenta o título do livro: “Não peço a ninguém que aceite o Cristianismo se sua razão [‘o seu melhor raciocínio’] lhe diz que o peso da evidência é contrário a ele”. Essa citação explica o título do livro, que defende a tese de que Lewis buscava uma “religião racional”. Essa tese desafia o autor a explicar o que Lewis entende pela graça e pela fé. Desafia também a acomodar a abordagem racional com a abordagem imaginativa, que toca as emoções, que era tão importante para C S Lewis.

4. Duas Biografias de Caráter Sui Generis

Com isso eu chego à discussão do último biógrafo de C S Lewis que me interessa mais de perto, a saber, A N Wilson — um biógrafo que, no início, em especial ao longo do seu primeiro livro sobre Lewis, permaneceu meio desconfiado e bastante distanciado de seu biografado, criticando-o levemente aqui, mais fortemente ali, elogiando-o em outro lugar e, por vezes, até mesmo reconhecendo o seu gênio.

No início de seu segundo livro sobre Lewis, Wilson critica bastante, não tanto Lewis, mas os seus seguidores. Acusando os seguidores mais militantes de Lewis de criarem um “culto” em que o irlandês se tornou basicamente um santo, do qual os eventuais erros, exageros e pecadilhos precisam ser removidos ou escondidos, Wilson divide o “culto” em basicamente dois grupos, que serão mencionados adiante.

Fora do “culto”, que é muito criticado, em suas duas vertentes, Wilson mantém as críticas a certos aspectos da pessoa e do pensador que ele nunca aceitou, mas tem palavras extremamente elogiosas sobre o famoso irlandês. Declara, ainda, que, em muitos aspectos, ele mudou de opinião, em especial em relação à pessoa de Lewis, enquanto pesquisava para escrever o segundo livro e fazer um programa de televisão sobre Lewis para a BBC.

A N Wilson é o que poderíamos chamar de “biógrafo profissional”, embora ele escreva também “biografias de períodos históricos”, se é que é possível usar o termo “biografia” nesse sentido, e também se dedica, talvez nas horas vagas, a escrever ficção. Ele, como Alister McGrath, nasceu em 1953, dez anos antes de Lewis morrer, e já escreveu biografias sobre gente do mais alto coturno. De um lado, Rainha Victoria, Príncipe Albert (marido da Rainha Victoria), Rainha Elizabeth, Hitler, pessoas importantes no mundo político. De outro lado, pessoas importantes no mundo intelectual também foram biografadas por ele: Dante Alighieri, John Milton, Charles Darwin, Lev Tolstoy, John Betjeman, Iris Murdoch. Mas ele escreveu também biografias de Jesus e do Apóstolo Paulo — apesar de ser crítico do Cristianismo — e das religiões, em geral. Em 1991, quando começou a surgir o terror de fundo religioso, com a perseguição do escritor Salman Rushdie pelos muçulmanos, ele escreveu Against Religion: Why We Should Live Without It.

Quanto ao que chamo de “biografia de período”, escreveu vários livros sobre o período Vitoriano (além da biografia da Rainha Vitória e de seu marido, obras sobre os pré-vitorianos, os vitorianos, propriamente dito, os pós-vitorianos, o legado do período vitoriano) e, em 1995, uma obra importante, já mencionada, sobre os céticos, agnósticos e ateus do século 19 (o século da Rainha Victoria), principalmente na Inglaterra: God’s Funeral. Só se concebe um funeral de Deus, se ele está morto, ou se se imagina que ele morreu de vez…

É curioso que uma pessoa que acha que devemos viver sem religião tenha escrito biografias, entre outras, de pessoas que davam (ou, pelo menos, parecem ter dado) enorme importância à religião, como Jesus, Paulo, Dante, Milton, Tolstoy e C S Lewis! E, sobre Lewis, Wilson escreveu dois livros e participou da elaboração de um programa de televisão para a BBC!

Wilson confessa, em seu segundo livro sobre Lewis, que a biografia que anteriormente havia publicado sobre ele, C. S. Lewis: A Biography, de 1990, foi a única biografia que ele escreveu “sob encomenda e pressão”, isto é, porque insistiram que ele a escrevesse (e, provavelmente, pagaram bem). Ele admite que não gostava do biografado (embora reconhecesse alguns dos seus méritos e o seu gênio). No seu segundo livro sobre Lewis, um livro pequeno (72 páginas), na série “Kindle Single”, que tem como título C. S. Lewis: The Man Behind Narnia (Amazon, Seattle, 2013), Wilson faz algumas admissões e confissões importantes. O primeiro capítulo dessa segunda biografia contém algo que parece fora de lugar em um livro que parece prometer uma descrição de como surgiu Narnia, que é indicado no título: “C. S. Lewis and I”. Ou seja: neste primeiro capítulo Wilson inclui uma pequena parte de sua própria autobiografia na biografia de Lewis…

O primeiro livro de A N Wilson sobre Lewis, C. S. Lewis: A Biography (Norton, New York & London, 1990, 2002), faz críticas ao biografado (e aos seus seguidores), mas é um livro bem pesquisado e que levanta algumas questões bastante curiosas, raramente tratadas fora desse livro (e do segundo que escreveu sobre Lewis).

O livro, além de um interessante Prefácio, tem 21 capítulos, dos quais o primeiro trata da pré-vida de Lewis, com o título “Antecedents“, e o último, do pós-vida, com o sugestivo título “Further Up and Further In“. Os dezenove capítulos que tratam da sua vida a quebram em blocos de anos, que abrangem de dois a oito anos (o de maior abrangência cronológica cobrindo os anos 1898-1905, e o de menor abrangência, os anos 1959-1960). As questões mais controvertidas estão no Prefácio e no capítulo 21.

No Prefácio, que tem o título de “The Quest for a Wardrobe“, Wilson conta um pouco da sua busca por aquele que pode ter sido o guarda-roupa que teve papel importante na primeira crônica de Narnia (primeira, cronologicamente falando, porque na versão do livro compilada em um volume ela curiosamente não aparece em primeiro lugar, nem na versão original, nem na versão em Português. Curiosamente, o guarda-roupa aparentemente está em Wheaton, a grande cidadela do Evangelicalismo americano…

No último capítulo do primeiro livro, Wilson discute a questão do “Culto de/a Lewis” (Lewis Cult), em suas duas versões (que é como ele vê esse culto).

O segundo livro de A N Wilson, como já disse, é pequeno. Tem o título de The Man Behind Narnia (Amazon, Kindle Single, s/d). Embora o livro (na edição Kindle, da Amazon) não tenha a sua data de publicação explicitada, por suas primeiras frases depreende-se que ele foi escrito 25 anos depois do livro anterior — vale dizer, em 2015. Quando Wilson publicou o primeiro livro, tinha 37 anos. Ao publicar o segundo, tinha 62. Teve tempo suficiente para amadurecer.

No já mencionado primeiro capítulo desse segundo livro, que é intitulado “C. S. Lewis and I“, ele faz referência a uma “crise de meia idade” que ele, Wilson, teve nesse longo intervalo, e se pergunta se C S Lewis teve alguma coisa que ver com essa crise. Só ele admitir a existência dessa crise e fazer essa pergunta já é algo significativo. Mas ele vai além e é incrivelmente franco e transparente nas coisas que admite e confessa.

Para realçar o significado e a importância dessa crise de meia idade, Wilson conclui a primeira seção do primeiro capítulo desse segundo livro fazendo uma constatação e uma admissão. Faço questão de citar a passagem inteira:

“Quando eu estava escrevendo minha vida de Lewis, eu comecei a pensar que, talvez, sua apresentação da fé pudesse estar certa, se a encarássemos de forma ampla. Mas em vez de me persuadir da verdade do Cristianismo, essa apresentação de Lewis teve o efeito oposto. Lewis, como já disse, apresenta um Cristianismo sem compromissos. Ou você acredita em Deus — ou não acredita. Ou milagres acontecem — ou eles não acontecem. Ou Jesus é o Filho de Deus — ou não é. Ou ele nasceu de uma Virgem, e ressuscitou dentre os mortos — ou não. Os livros de Lewis não deixam nenhuma dúvida de que lado ele está. Mas quanto mais eu lia, mais claro me ficava que eu não estava do lado dele. Seria uma grande injustiça dizer que a leitura de Lewis me converteu ao ateísmo, mas foi enquanto eu lia que eu percebi que ia perdendo a minha fé. Eu não acreditava, pelo menos não do jeito que ele acreditava. Enquanto escrevia o livro, porém, eu fui desenvolvendo uma certa afeição por Lewis, o homem, mesmo reconhecendo que ele era tão diferente de mim quanto era possível ser.”

Mais adiante, ainda no primeiro capítulo da segunda biografia, mas agora na terceira seção, Wilson faz outra afirmação interessante:

“Quando minha biografia foi publicada, eu fui convidado a discuti-la numa igreja famosa de Londres. . . . O vigário ficou em um púlpito e eu em outro. Não sabia, quando subi ao púlpito, que se esperava que eu desse um ‘testemunho’… Mas no curso da discussão, alguma coisa baixou em mim. Quando eu subi para o púlpito, eu ainda acreditava (mais ou menos) no Cristianismo. Quando eu desci do púlpito, eu era um ateu fervoroso. Era a primeira vez que eu era fervoroso em alguma coisa. Na verdade, eu tive algo parecido com uma experiência de conversão evangélica, só que pelo avesso. Enquanto a gente discutia Mero Cristianismo e as falsas certezas e a fantasiosa consolação que ele oferecia, eu fui subitamente possuído de um tipo de ira, ali mesmo no púlpito. [ . . . ] E comecei a gritar que eu não acreditava no Mero Cristianismo, nem em nenhum outro tipo de Cristianismo. Percebi, de súbito, que eu era um ateu, e que tudo aquilo que o livro continha não passava de lixo. Mas, em um sentido, Lewis estava certo: ou você crê ou você não crê. Mas quanto a mim, perguntava-me: como é que pode haver gente que crê? Andar na água? Transformar água em vinho? Anjos?” [Ênfases acrescentadas.]

Diferentemente do que ele fazia com outros biografados, Wilson, ao terminar a primeira biografia de C S Lewis, nunca leu mais nada que Lewis escreveu: fez greve de Lewis, passou 25 anos sem ler nada de sua pena (e, no caso, era literalmente uma pena…). Na verdade, Wilson fugia de Lewis. No fundo, ele culpava Lewis por tê-lo tornado um ateu convertido, um ateu nascido de novo…

Mas, acaso ou providência, ele foi convidado pela BBC para fazer um programa sobre Lewis para a TV britânica.

No processo de fazer esse programa, ele releu vários livros de C S Lewis, conversou com (na sua estimativa) quase todas as pessoas que conheceram Lewis e, em 2015, ainda estavam vivas, visitou vários dos lugares em que foram importantes na vida de Lewis: a casa em que ele morou, que Wilson descreve como tendo dimensões palacianas, cheia dos livros de seu pai, e em que começou a sua trajetória de escritor, escrevendo suas primeiras obras (na coleção que Hooper descreve como “Juvenilia”), as várias casas em que morou com Mrs. Moore, e, finalmente, a casa chamada “The Kilns”, que foi comprada, em sociedade não igualitária, por Mrs. Moore, Lewis e seu irmão Warren, e em que todos esses três moraram até morrer, conforme acordado em contrato. Depois da morte do último deles (Warren), a casa passou para a propriedade da filha de Mrs. Moore.

(Parêntese: Caso você não saiba, Mrs. Moore, ou Janie King Askins Moore, foi uma mulher, mais de 20 anos mais velha do que Lewis, que viveu com ele de 1917 até a morte dela, em 1951, ou seja, durante 34 anos. Quando se conheceram, ela era casada mas separada do marido já há cerca de dez anos. Embora, oficialmente, o relacionamento entre Lewis e Moore tenha sido de “filho adotado” e “mãe substituta”, hoje é aceito por vários autores (que não consideram Lewis um santo, inclusive A N Wilson), que eles viveram juntos como homem e mulher esse tempo todo — ou, pelo menos, até que Lewis se converteu ao Cristianismo. Wilson, em 2015, entrevistou a filha de Mrs. Moore, hoje uma baronesa, que teria admitido para ele que ele estava certo ao presumir que o relacionamento da mãe dela com Lewis havia sido marital e sexual, até mesmo agradecendo a ele por ter finalmente revelado a verdade, com todas as letras, em sua primeira biografia de Lewis, publicada em 1990. Mais detalhes neste artigo: https://www.essentialcslewis.com/2017/06/10/cmcsl-3-lewis-and-mrs-moore-were-secret-lovers/. Entretanto, registre-se que William O’Flaherty, que escreveu e publicou esse artigo, provavelmente não havia lido a admissão da filha de Mrs. Moore, que é transcrita na segunda biografia de Lewis publicada por Wilson em 2015. Fim do parêntese.)

Enfim, em decorrência das novas pesquisas feitas para a elaboração do programa de televisão da BBC, e relatadas em The Man Behind Narnia, é possível concluir que Wilson mudou sua avaliação de Lewis, o homem, concordando com seus admiradores que Lewis, depois de uma infância sofrida, após a morte da mãe, quando ele tinha nove anos, e de juventude meio complicada, tornou-se uma pessoa de excelente caráter, magnânimo e generoso. Quanto à sua avaliação da obra de C S Lewis, Wilson continua a admirar sua obra estritamente acadêmica, como crítico literário e historiador da literatura, continua a detestar a maior parte de sua obra mais teológica, em especial Mere Christianity, mas passou a apreciar bastante livros como A Grief Observed. Quanto a The Chronicles of Narnia, Wilson, depois de reler a coleção, em voz alta, junto das filhas, a pedido delas, que adoravam o livro, passou a achar que há, no livro, trechos geniais, ao lado de passagens que ele continua a detestar. A propósito, A N Wilson voltou para a Igreja Anglicana. Se foi por influência de Lewis, é de duvidar, porque Lewis, embora também anglicano, não defendia as características mais “high church” de sua denominação, e Wilson parece sentir prazer nelas.

Wilson fecha seu segundo livro sobre C S Lewis com esta sóbria conclusão: “Assim, embora a experiência de revisitar Lewis e sua obra tenha inspirado em mim uma admiração pela sua bondade pessoal, creio que eu gosto de sua obra menos ainda do que eu gostava anteriormente”.

Mas, enfim: nada como viver a vida, aprendendo com a vida da gente e a dos outros.

5. O “Culto de/a Lewis” (na Visão de A N Wilson)

A N Wilson não tem dúvida de que existe um “Culto de/a Lewis” — que Lewis está no processo de ser “mitologizado” — e que esse culto tem duas vertentes, que duelam, entre si, não só para abocanhar manuscritos e memorabilia de Lewis, mas para controlar a narrativa acerca dele que é geralmente aceita.

Por volta de 1966, três anos depois da morte de Lewis, os esforços de Walter Hooper controlar o que se sabe e se conhece sobre Lewis ganhou um forte concorrente: Clyde S Kilby, do Wheaton College, de Wheaton, IL, a cidadela do Evangelicalismo americano, que tem um centro para preservar as memórias e relíquias de Billy Graham, criou um centro para fazer o mesmo, não só em relação a C S Lewis, mas em relação a todos os seus amigos de Oxford que formavam o grupo, criado e liderado por Lewis, e que durou mais de 30 anos, com reuniões semanais, chamado “The Inklings“. (Além de C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams, Owen Barfield, Warren Lewis, e vários outros faziam parte do grupo). Há inúmeros livros sobre The Inklings: Clyde S. Kilby, A Well of Wonder: Essays on C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and The Inklings; Philip Zaleski & Carol Zaleski, The Fellowship: The Literary Lives of the Inklings: J.R.R. Tolkien, C. S. Lewis, Owen Barfield, Charles Williams; Humphrey Carpenter, The Inklings: C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams and their Friends; Colin Duriez, The Oxford Inklings; Harry Lee Poe & James Ray Veneman, The Inklings of Oxford: C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, and Their Friends; etc.

Kilby conseguiu convencer Warren Lewis, o irmão de C S Lewis, a legar os seus papéis (e ele era o historiador da Família Lewis) para o centro de Wheaton — o que criou um certo ciúme em Walter Hooper, que havia se anglicizado e defendia a tese que os papéis de C S Lewis deveriam ir para a Bodleian Library, de Oxford. Como já dito atrás, Hooper estudou teologia, tornou-se sacerdote anglicano, e, depois de uma audiência com o Papa João Paulo II, que confirmou que gostava muito dos livros de C S Lewis, Hooper se converteu ao catolicismo, passando a ser um padre católico, que continua a ser, apesar de aposentado.

Enfim, as duas vertentes do “Culto de/a Lewis” são:

Essas duas instituições, o Wade Center e a Bodleian Library, se comprometeram a compartilhar os seus recursos através de cópias da melhor qualidade possível, de modo que o ambas pudessem ter uma cópia completa, ou quase, do acervo.

Não haveria problema em haver dois Centros de alta qualidade acumulando documentos e memorabilia de C S Lewis. Pelo contrário: a duplicação é benéfica. O problema é que cada um desses centros está tentando a construir uma narrativa acerca de C S Lewis, e uma imagem dele, aquilo que A N Wilson chama de “uma mitologia”, que não corresponde ao C S Lewis real.

De um lado, em Wheaton, que é um college evangélico-conservador, o fumo, a bebida,  o uso de palavrões, etc., tudo isso é condenado. No entanto, Lewis é uma pessoa que fumava três maços de cigarro por dia, e, nos intervalos, fumava um cachimbo, que bebia cerveja em doses generosas, bem como bebidas bem mais forte, que não hesitava, dependendo do contexto, em usar palavrões e contar piadas de gosto duvidoso, que, se confirmada a história do relacionamento entre ele e Mrs. Moore, teve um relacionamento prolongado com uma mulher casada, que nunca se divorciou, e que, depois, se apaixonou por uma mulher que era separada, antes de seu divórcio se concretizar, vindo a se casar com ela quando o divórcio foi finalizado. Isso tudo, apesar de ter afirmado, em Mere Christianity, que o Cristianismo só admite relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência, e que o Cristianismo não admite o divórcio, com a consequência de que um casamento de um solteiro com uma pessoa divorciada, ou um segundo casamento de uma pessoa divorciada, se consumado, implica em adultério (vide a esse respeito meu artigo “O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis”, em meu blog C S Lewis Space, em https://cslewis.space/2020/07/02/o-cristianismo-tem-uma-visao-unica-do-casamento-a-proposito-das-ideias-e-da-vida-de-c-s-lewis/). Diante desses fatos, essas características inegáveis da vida de Lewis (fumar, beber, linguagem de mau gosto, etc.) têm de ser, se não ignoradas, desenfatizadas e abrandadas na narrativa evangélica, para que Lewis, que inegavelmente é um ícone do evangelicalismo americano, possa parecer menos incoerente com o ideário evangélico.

De outro lado, o grupo que reconhece o inegável papel de Hooper na preservação da memória e das ideias de C S Lewis, têm que conviver com um processo de quase beatificação de Lewis. Nesse processo, Hooper não só tem negado que Lewis viveu maritalmente com Mrs. Moore, o que muita gente nega, mas tem sugerido que ele chegou virgem ao seu casamento com Joy Davidman, e, que, depois de casado com ela, não consumou o casamento, tendo vivido até a morte em virgindade perpétua… Acontece, que para poder, se não afirmar, mesmo sugerir isso, Hooper afronta evidência manifesta ao contrário deixada, por escrito, não só por Joy Davidman Lewis, mas pelo próprio C S Lewis.

Como diz A N Wilson, nem o Lewis dos Evangélicos, nem o Lewis dos Católicos, corresponde ao Lewis real, ao Lewis histórico, por assim dizer, que foi uma pessoa de caráter bom e generoso — mas que não foi, em sua vida, nem o evangélico ideal nem o santo que estão tentando fazer dele. Isso em relação à sua pessoa. Em relação às suas ideias, elas não conflitam com os ideários evangélico e católico — embora bem menos no primeiro caso do que no segundo.

Para fechar este capítulo do que será um trabalho maior, cito algumas passagens da primeira biografia de Wilson:

“As disputas entre estudiosos e guardiães da memória de C. S. Lewis não são edificantes, mas elas refletem muito mais do que um debate acadêmico ou um desejo mercenário de ter mais manuscritos valiosos. Na verdade, a despeito do que alguns cínicos afirmam, parece não haver avareza nesses embates. O que emerge é uma profunda divergência de visões imaginativas de mitologias rivais. Aqueles que têm podido testemunhar o espetáculo têm sido capazes de observar, em microcosmo, algo que talvez seja sintomático do pensamento religioso como um todo: a necessidade de construir imagens e adorá-las. O Marion E. Wade Center do Wheaton College mantém viva a imagem de um Lewis evangélico, simples em sua devoção a um ‘mero Cristianismo’, e preocupado com questões teológicas, quase de forma exclusiva, sem quase nenhum outro interesse. Não é uma imagem totalmente falsa. O próprio Lewis ajudou a construir essa ‘persona‘, tanto nos escritos religiosos que ele publicou como nas cartas que ele enviou às pessoas que, aos milhares, lhe escreviam pedindo ajuda para sua busca religiosa. [ . . . ] Mas há algo que chega perto de uma farsa quando se constata a discrepância que existe entre o que se propõe e a realidade. O mesmo sentimento de choque surge quando se participa de uma reunião da C. S. Lewis Society de Oxford, com a presença da Walter Hooper, onde um C. S. Lewis celibatário e defensor da ‘High Church’ é reverenciado. A evidência é apenas de interesse periférico quando a imaginação idólatra está em ação. [ . . . ] Como disse um outro dos autores do panteão de Wheaton, ‘A espécie humano não pode suportar uma dose muito grande de realidade’. [ . . . ] C. S. Lewis se tornou uma figura mitológica, e, portanto, parece legítimo para algumas pessoas recontar sua história sem levar muito em conta a evidência empírica, da mesma forma que os poetas contaram e recontaram as histórias da mitologia grega ou nórdica”.

É legítimo perguntar: ou da mesma forma que os evangelistas contaram a história de Jesus?

Fico por aqui nesta resenha de biografias…

Em Salto, 4 de Julho de 2020

O Cristianismo Tem uma Visão Única do Casamento? A Propósito das Ideias e da Vida de C S Lewis

Conteúdo

  1. Preâmbulo.
  2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento
  3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

1. Preâmbulo

Meu interesse neste artigo está mais na biografia de C S Lewis — suas ideias e sua vida — do que na questão de como o cristianismo, em especial o protestantismo, encara o casamento. Em suma: neste artigo estou, aqui, mais interessado no subtítulo do que no título que dei ao artigo.

Já discuti a questão de diferentes visões do casamento dentro do cristianismo, em geral, e do protestantismo, em particular, abordando quase todas as questões que lhe são conexas, como poligamia, monogamia, divórcio, sexo, virgindade, celibato clerical, casamento entre pessoas do mesmo sexo, incesto, o que hoje se chama de poliamor, etc., em vários artigos no meu blog Liberal Space. O leitor interessado no que penso sobre o assunto pode consultar alguns desses artigos que a seguir listo, em ordem cronológica:

Tenho ainda um artigo sobre C S Lewis, que não menciona suas ideias sobre o casamento nem o fato de seu casamento tardio, que pode ser consultado por quem não está muito certo acerca de quem foi o homem:

Recentemente (dois dias atrás, antes de escrever este artigo), publiquei um outro artigo sobre C S Lewis, este no meu blog “carro chefe”, Chaves Space, que é, entre outras coisas, um blog meio autobiográfico:

2. O que C S Lewis diz acerca do Sexo e do Casamento

É virtualmente impossível discutir casamento sem discutir sexo. Vou me limitar aqui a resumir o que C S Lewis afirma sobre sexo e casamento, da perspectiva da moral cristã, em Mere Christianity (Cristianismo Puro e Simples, anteriormente A Razão do Cristianismo, em Português), seu livro de não ficção mais famoso, que consiste, basicamente, da edição de uma série de falas pelo rádio que C S Lewis transmitiu, durante a Segunda Guerra, a convite da emissora, pela BBC, de 1942 a 1944, visando, em especial, as tropas britânicas em guerra no Continente Europeu. Revisadas e ampliadas, elas foram inicialmente publicadas em três livros, um por ano, e, posteriormente, em 1952, em um só volume com o título que ficou famoso e consagrou o autor como um dos maiores apologetas do cristianismo no século 20.

Nos Capítulos 5 e 6 do Livro III desse seu best seller, que têm como títulos, respectivamente, “Moralidade Sexual” e “O Casamento Cristão”, Lewis discute sexo e casamento a partir daquela que ele entende como a perspectiva cristã. O Livro III de Cristianismo Puro e Simples tem como título “O Comportamento Cristão” (“A Conduta Cristã”, na tradução brasileira publicada pela Martins Fontes, 3a edição, 2009; citações e referências segundo essa edição).

Embora C S Lewis tenha sido, depois do período em que foi ateu, membro da Igreja Anglicana, que é uma igreja até certo ponto fruto da Reforma Protestante, o ponto de vista de Lewis acerca do sexo e do casamento, é, em alguns aspectos, mais semelhante ao ponto de vista da igreja católica do que do ponto de vista das igrejas protestantes, “s’il y en a” — isto é, se é que há um único ponto de vista que possa ser caracterizado como sendo das igrejas protestantes, como um bloco.

a. A Moralidade Sexual Cristã

A moralidade sexual cristã é discutida por Lewis a partir da perspectiva da virtude da castidade (virtude essa que, reconhece ele, “é a menos popular das virtudes cristãs” – p.126). No entender dele, essa virtude, em sua essência, prescreve, no tocante ao sexo, a seguinte regra de conduta: “Ou relações sexuais dentro do casamento, com fidelidade completa ao cônjuge, ou, então, total abstinência” (p.126; alterei aqui, levemente, o texto da tradução e acrescentei o negrito). Tertium non datur — não existe outra opção. Assim, não há como o cristão possa escapar dessa alternativa.

Mas, é forçoso reconhecer, e Lewis o reconhece, essa regra conflita com os impulsos, apetites e desejos sexuais da maioria das pessoas. Diante disso, ele se vê levado a construir mais esta alternativa: ou o cristianismo está totalmente errado em relação a essa questão, ou nossos impulsos, apetites e desejos sexuais estão seriamente corrompidos e deturpados. Ele, naturalmente, como cristão, não acredita que a primeira opção seja verdadeira: logo, aceita a segunda (p.126).

Para Lewis, a sexualidade humana existe para que nós, humanos, possamos nos reproduzir e, assim, dar continuidade à espécie, povoando a terra: “o objetivo biológico do sexo são os filhos”, diz ele (p.126). Segundo ele acredita, no plano biológico não haveria nenhuma outra razão para a existência de nossa sexualidade. A obtenção de prazer não faz parte da razão de ser do sexo, se este é visto do ângulo exclusivamente biológico — mesmo que o prazer em regra acompanhe o ato sexual.

Na visão de Lewis, não há nada de errado ou imoral nessa forma sexuada de reproduzir a espécie humana, nem no prazer que os seres humanos em geral sentem ao praticar o ato sexual. Diz ele:

“Bem sei que que alguns cristãos de mente tacanha dizem por aí que o cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrinsecamente más. Mas estão errados. O cristianismo é praticamente a única entre as grandes religiões que aprova por completo o corpo. [ … ] O cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião.  Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.” (p.130).

Mas isso não quer dizer que tudo esteja em ordem com os nossos impulsos, apetites e desejos sexuais. Eles existem, é forçoso reconhecer, mas sua concretização precisa ser controlada e disciplinada: o atendimento deles precisa ser regrado, isto é, submetido a regras. A razão pela qual nossos impulsos, apetites e desejos sexuais precisam ser controlados está no fato de que eles foram corrompidos e pervertidos pelo pecado original de nossos primeiros pais. Para que possamos ser curados do pecado que o atendimento desregrado de nossos impulsos, apetites e desejos sexuais provoca é preciso, em primeiro lugar e acima de tudo, que queiramos ser curados. No entanto, “para o homem moderno até mesmo esse desejo [de querer ser curado] é difícil de ter”. (pp.130-131).

A dificuldade em resistir à tentação de uma vida sexual desregrada, ou em tentar ser curado dela, caso já tenhamos a ela sucumbido, se explica de várias maneiras.

Em primeiro lugar, porque tendo nossa natureza sido corrompida pela queda, a publicidade e a propaganda modernas, que certamente não duvidam disso, apelam para a nossa natureza pervertida, tentando nos convencer de que é a resistência aos nossos impulsos, apetites e desejos sexuais que representa uma anomalia — e não os impulsos, apetites e desejos, em si… (pp.131-132). Essa tese é falsa, segundo Lewis — embora parta de uma verdade. A verdade é que o sexo, em si, praticado como deve ser praticado, dentro da regra da castidade cristã, é algo bom. Contudo, praticado fora dessa regra, o sexo se torna pervertido e anômalo. Qualquer ato sexual que não esteja coberto pela regra de castidade é pecaminoso. Para ele, não há como fugir disso. Ao sugerir que todo impulso, apetite e desejo sexual deve ser satisfeito, porque sua não satisfação é danosa à nossa saúde mental, e, assim, à nossa natureza humana, a publicidade e a propaganda modernas invertem as coisas. O que é danoso à nossa natureza humana é, segundo Lewis, o sexo desregrado.

Em segundo lugar, é difícil querer ser controlado nessa área porque fomos levados a acreditar, erroneamente, que o ideal cristão da castidade é inalcançável, posto que utópico, estando acima das forças humanas (p.133). Lewis reconhece que a “castidade perfeita”, assim como a “caridade perfeita”, “não será alcançada pelo mero esforço humano”, sem a ajuda divina. O fato de ser necessária a ajuda de Deus para alcançar o ideal cristão da castidade não deve de modo algum levar as pessoas ao desânimo, provocar o abandono do ideal, fazendo com que se acomodem “com qualquer coisa que não a perfeição” (pp.133-134). Para ele, a verdade é que o ser humano é capaz de prodígios quando seriamente decide e tenta fazer aquilo que Deus prescreve e espera dele (p.134).

Em terceiro lugar, a cultura moderna, especialmente a incorporada em algumas tendências psicológicas, pretende combater formas repressivas de vida e acusa o cristianismo de reprimir a vida sexual das pessoas que optam por segui-lo. Segundo Lewis, há um engano nesse entendimento da repressão. Reprime-se algo, como um pensamento ou uma conduta, quando se tenta esconder esse algo no fundo do inconsciente (ou subconsciente), negando a sua ocorrência ou existência, e, assim, fazendo com que aquilo cuja ocorrência ou existência foi negada possa reaparecer de uma outra forma, com uma feição diferente. Reconhecer a ocorrência ou existência de um impulso, apetite ou desejo pecaminoso, e livre e conscientemente decidir resistir a ele, não sucumbindo ao que ele tenta nos induzir a fazer, nada tem de repressão. Muito pelo contrário: é um exercício exemplar de nosso livre arbítrio. É isso que afirma Lewis (pp.145-135).

Lewis termina esse capítulo com uma passagem lapidar, que, a seu ver, coloca as coisas em perspectiva:

“Para encerrar, apesar de eu ter falado bastante a respeito do sexo, quero deixar tão claro quanto possível que o centro da moralidade cristã não está aí. Se alguém pensa que os cristãos consideram a falta de castidade o vício supremo, essa pessoa está redondamente enganada. Os pecados da carne são maus, mas, dos pecados, são os menos graves. Todos os prazeres mais terríveis são de natureza puramente espiritual: o prazer de provar que o próximo está errado, de tiranizar, de tratar os outros com desdém e superioridade, de estragar o prazer, de difamar. São os prazeres do poder e do ódio. Isso porque existem duas coisas dentro de mim que competem com o ser humano em que devo tentar me tornar. São elas o ser animal e o ser diabólico. O diabólico é o pior dos dois. É por isso que um moralista frio e pretensamente virtuoso que vai regularmente à igreja pode estar bem mais perto do inferno que uma prostituta. É claro, porém, que é melhor não ser nenhum dos dois.” (pp.135-136).

b. O Casamento Cristão

Coerente com essa visão da moral sexual cristã, Lewis vê o casamento cristão, instituído, segundo ele acredita, pelo próprio Deus, na criação do homem, como tendo a finalidade de permitir que os seres humanos procriem, de forma regrada, assim se multiplicando e povoando a terra. É por isso que, para ele, o único lugar correto da atividade sexual humana, no cristianismo, é a instituição do casamento (p.137).

Lewis reconhece que essa visão é, hoje, e, talvez sempre tenha sido, “extremamente impopular”. Reconhece ainda que, não sendo casado na ocasião em que escreveu o livro, não discorria sobre o assunto por experiência própria. Mas alegou que esse fato não o impedia de discutir a questão (p.137).

Afirma ele que a Bíblia, ao afirmar que, no casamento, o homem e a mulher se tornam uma só carne, quis sublinhar o fato de que o casal se torna como se fosse um só organismo, com duas metades. Diz ele:

“O inventor da máquina humana queria nos dizer que as duas metades desta, o macho e a fêmea, foram feitas para combinar-se aos pares, não simplesmente na esfera sexual, mas em todas as esferas. A monstruosidade da relação sexual fora do casamento é que, cedendo a ela, tenta-se isolar um tipo de união (a sexual) de todos os outros tipos de união que deveriam acompanhá-la para compor a união total. A atitude cristã não toma como errada a existência de prazer no sexo, como não considera errado o prazer que temos quando nos alimentamos. O erro está em querer isolar esse prazer e tentar buscá-lo por si mesmo.” (p.138).

Embora não seja óbvia a inferência, Lewis conclui, dessas considerações, que o casamento cristão “deve durar a vida toda”, não admitindo o divórcio. Reconhece ele, ao afirmar isso, que existem divergências entre as igrejas cristãs em relação a essa questão. Diz ele:

“Algumas [igrejas cristãs] não admitem o divórcio em hipótese alguma; outras o admitem com relutância em casos específicos. É uma grande lástima que os cristãos divirjam quanto a essa questão; para um leigo, porém, o fato a notar é que, no que diz respeito ao casamento, todas as igrejas concordam muito mais umas com as outras do que concordam com o que vem do mundo exterior. Todas encaram o divórcio como se fosse algo que cortasse ao meio um organismo vivo, como um tipo de cirurgia. Algumas acham que essa cirurgia é tão violenta que não deve ser feita de forma alguma. Outras a admitem como um recurso desesperado em casos extremos. [ … ] O que todas elas repudiam é a visão moderna de que o divórcio é simplesmente um reajustamento de parceiros, a ser feito sempre que as pessoas não se sentem mais apaixonadas uma pela outra, ou quando uma delas se apaixona por outra pessoa.” (pp.138-139).

A principal razão que Lewis invoca para negar que, na visão cristã, o divórcio seja uma possibilidade na situação em que, não só a paixão inicial, mas o próprio amor deixa de existir, é que, quando o casamento cristão tem lugar, os nubentes se prometem ficar juntos, quaisquer que sejam as circunstâncias, “até que a morte os separe”. Essa promessa dá, ao casamento cristão, na opinião de Lewis, uma dimensão jurídica, que, na hipótese de um divórcio desejado unilateralmente, por apenas uma das partes, criaria uma injustiça para com a outra parte. O argumento de Lewis, porém, não parece provar que uma promessa feita entre duas pessoas de ficar juntas até que a morte as separe não possa ser rescindida ou revogada, vale dizer, desfeita, de comum acordo entre as partes, sem que haja injustiça para com uma delas — a menos, talvez, que se revista o casamento cristão de um caráter sacramental adicional, como o faz a Igreja Católica (mas não as igrejas protestantes), que torna o casamento  mais do que um contrato entre os nubentes, transformando-o em um pacto transcendente que envolve os dois e Deus, este representado pela igreja, na pessoa do sacerdote que oficia o casamento.

Enfim, como se mostrará no capítulo seguinte, anos depois C S Lewis veio a se tornar vítima de seu próprio argumento, quando solicitou que a sua igreja, a igreja anglicana, realizasse o seu casamento com uma mulher divorciada.

Para concluir este capítulo, mais dois elementos interessante na posição de C S Lewis.

O primeiro elemento diz respeito à sua proposta de que haja, num país que não é oficial ou majoritariamente cristão, dois tipos de casamento. Diz ele:

“Antes de deixar a questão do divórcio, gostaria de esclarecer a distinção entre duas coisas que geralmente se confundem. Uma delas é a concepção cristã de casamento; a outra, completamente diferente, é se os cristãos, enquanto eleitores ou membros do Parlamento, devem impor sua visão do casamento sobre o restante da comunidade, incorporando essa visão às leis estatais que regem o divórcio. Um grande número de pessoas parece pensar que, se você é cristão, deve tentar tornar o divórcio difícil para todo o mundo. Eu não penso assim. Pelo menos creio que ficaria bastante zangado se os muçulmanos tentassem proibir que o restante da população tomasse vinho. Minha opinião é que as igrejas devem reconhecer francamente que a maioria dos britânicos não são cristãos, e, portanto, que não se deve esperar que levem uma vida cristã. Deve haver dois tipos distintos de casamento: um governado pelo Estado, com regras aplicáveis a todos os cidadãos, e outro governado pela igreja, com regras que ela mesma aplica a seus membros. A distinção entre os dois tipos deve ser bastante nítida, de tal forma que se saiba sem sombra de dúvida quais casais são casados pela igreja e quais não.” (p.148).

Concordo 100% com C S Lewis em relação a essa questão. Em dois dos artigos mencionados no Preâmbulo (Capítulo 1), defendo exatamente o mesmo ponto de vista. Os artigos são estes, e eles defendem um ponto de vista bem mais radical do que o C S Lewis:

Mas C S Lewis foi severamente criticado, até por grandes amigos seus, como J R R Tolkien, autor de Lord of the Rings (Senhor dos Anéis), por defender a ideia de um “duplo casamento”. Vide, a propósito, o artigo “Why C.S. Lewis Was Wrong on Marriage (and J.R.R. Tolkien Was Right)”, de Jake Meador, em Mere Orthodoxy (interessante o nome do site…), no endereço https://mereorthodoxy.com/why-c-s-lewis-is-wrong-on-marriage/.

O segundo elemento tem que ver com sua defesa de que o casal casado pela igreja deva ter uma “cabeça”, ou chefia, ou liderança, alguém que decide quando os dois discordam, e que esse cabeça deva ser o homem. Diz ele:

“(1) Por que a necessidade de uma ‘cabeça’ – por que não a igualdade? [ … ] Na medida em que o marido e a esposa estão de acordo, a necessidade de um líder desaparece; e gostaríamos que esse fosse o estado de coisas normal no casamento cristão. Mas, quando existe um desacordo real, o que se deve fazer? Conversar sobre o assunto, é claro; estou partindo da ideia de que tentaram fazer isso e mesmo assim não conseguiram chegar a um acordo. O que fazer então? O casal não pode decidir por votação, pois não existe maioria absoluta entre duas pessoas. [ … ] Se o casamento é permanente, [como é o caso do casamento cristão,] uma das duas partes deve, em última instância, ter o poder de decidir a política familiar.” (p.149).

“(2) Por que a ‘cabeça’ deve ser o homem?” (p.149). “As esposas cristãs fazem o voto de obedecer ao marido.” (p.148). “Deve haver algo de antinatural na proeminência das esposas sobre os maridos, pois as próprias esposas ficam bastante envergonhadas disso e desprezam o marido que se submete. [ … ] As relações da família com o mundo exterior — o que poderíamos chamar de política externa — devem depender, em última análise, do homem, porque ele deve ser, e normalmente é, mais justo em relação às pessoas de fora. A mulher luta prioritariamente pelos filhos e pelo marido contra o resto do mundo. [ … ] A mulher é a curadora especial dos interesses da família. A função do marido é garantir que essa predisposição natural da mulher não chegue a predominar. Ele tem a última palavra para proteger as outras pessoas do intenso patriotismo familiar da esposa.” (pp.149-150).

Sem comentários, a não ser um que nada tem que ver com a questão do casamento cristão, em si, mas, sim, com a questão da hermenêutica, ou seja, da interpretação bíblica.

C S Lewis é razoavelmente coerente em sua interpretação da Bíblia. No geral, o Novo Testamento, Jesus, nos Evangelhos, e Paulo, na primeira carta aos Coríntios, é contra o divórcio, mas reconhece que às vezes ele é virtualmente inevitável (como no caso de adultério, por exemplo). Paulo, em particular, ao admitir a possibilidade do divórcio, é contra um outro casamento. Muitos cristãos conservadores, dentro e fora do protestantismo, concordam com Paulo e com C S Lewis a esse respeito, apelando para o texto bíblico. Mas quando se trata de a mulher obedecer ao marido, que seria o cabeça do casal, algo que está contido no mesmíssimo Novo Testamento, boa parte dessas pessoas refuga, mesmo sendo conservadora — em especial, no caso das mulheres. Por que dois pesos e duas medidas? Por que aceitar a oposição ao divórcio e recusar-se a aceitar a submissão ao marido, se ambas as posições têm fundamentação bíblica? C S Lewis é coerente, e usa um só peso e uma só medida. Mas é criticado por fazer isso, em geral pelas mulheres.

3. A Vida de C S Lewis lhe Prega uma Peça

Para quem já leu alguma biografia de C S Lewis, e há inúmeras, ou para quem já assistiu ao belíssimo filme Shadowlands, que conta um pedaço de sua vida, o período em que ele ficou conhecendo a escritora judia americana Joy Davidman Gresham, e, oportunamente, se apaixonou por ela e com ela se casou, já imagina a questão que vou levantar aqui, de forma sucinta.

Quando Lewis começou a se corresponder com Joy, no início do ano de 1950, por iniciativa dela (ele recebeu a primeira carta dela em 10.1.1950), ele ficou bastante impressionado com ela, e ela ainda mais com ele, cujos livros haviam sido o principal instrumento de sua conversão ao cristianismo, depois de perambular pelo comunismo e pelo ateísmo. A conversa entre os dois evoluiu bastante e rapidamente (Lewis era um compulsivo escrevedor de cartas), e Joy trocava ideias com ele sobre um livro que estava escrevendo sobre o Sermão da Montanha. Ela, que tinha dois filhos com menos de dez anos, e estava tendo dificuldades em seu casamento (o marido, também escritor, era alcoólatra, dado a violência, chegado ao abuso verbal, e contumaz mulherengo), num dado momento resolveu ir visitar Lewis em Oxford. Em Agosto de 1952 ela viajou de navio para a Inglaterra, onde chegou no final do verão europeu. Encontraram-se pela primeira vez em 24.9.1952, para um almoço outonal. Nos mais de três meses que ela permaneceu na Inglaterra, eles se encontraram amiúde, tendo ela até mesmo sido hóspede em sua residência durante quinze dias no período das festas de fim de ano. (Registre-se que ela havia deixado os filhos em Nova York, com uma parente que se dispôs a ficar em sua casa cuidando deles para ela). No final de 1952, enquanto gozava da hospitalidade de Lewis, Joy recebeu uma carta do marido pedindo divórcio, por ter se apaixonado pela parente de Joy, que cuidava dos seus filhos. Isso precipitou o retorno de Joy para os Estados Unidos, no início de Janeiro de 1953. O divórcio foi levado adiante, mas se arrastou. Antes de ser concedido, Joy, em Novembro daquele ano de 1953, voltou para a Inglaterra, passando a morar em Londres, agora com os dois filhos, David e Douglas, que tinham, respectivamente, nove e oito anos, tendo nascido em 1944 e 1945. Joy tinha 38 anos na ocasião (nasceu em Abril de 1915) e Lewis completou 55 naquele mês de Novembro (nasceu em 1898).

O inevitável aconteceu. Joy ficou apaixonada por Lewis, que, no entanto, embora muito interessado nela como parceira intelectual, tinha por ela, segundo tudo indica, apenas uma grande admiração e um afeto platônico. Em Agosto de 1954 o divórcio dela foi consumado. A situação econômica dela na Inglaterra se deteriorou, porque o ex-marido deixou de pagar pensão para os filhos, e Lewis precisou socorrê-la, alugando uma casa para ela em Oxford. Provavelmente o relacionamento continuaria no mesmo pé se o visto de Joy não estivesse por expirar. Ela teria de voltar para os Estados Unidos, a menos que se casasse com um britânico. Lewis resolveu se casar com ela, apenas no papel, e em segredo, em um gesto humanitário, para que ela pudesse permanecer na Inglaterra com os filhos, como desejava. O casamento secreto aconteceu em 23 de abril de 1956.

Mas o destino, mestre em dar nós, interveio… Ou, quem sabe, tenha sido a providência divina, agindo, de forma misteriosa, para frustrar a ortodoxia humana… Em Outubro daquele ano, seis meses depois do casamento secreto, Joy descobriu que estava com câncer, já em estado avançado. Aparentemente o câncer havia surgido no seio, mas se espalhou para o sistema ósseo e evoluiu rapidamente, a ponto de os médicos lhe darem pouco tempo de vida. Esse fato chocou Lewis, que, traumatizado, diante da possibilidade de ela vir a falecer em pouco tempo, resolveu se casar com ela para valer, com a bênção da igreja anglicana e tudo.

Nesse ponto começou o drama que colocou a vida de Lewis em conflito com o que ele havia escrito em 1943 sobre o casamento cristão e o divórcio… Lewis consultou o bispo de sua região se poderia receber autorização para se casar com Joy, uma divorciada, e a permissão foi negada. Lewis se viu obrigado a argumentar, casuisticamente, que o casamento anterior de Joy não podia, à luz da doutrina da igreja, ser considerado válido, porque seu primeiro marido já era divorciado quando ela se casou com ele. Se a Igreja Anglicana não reconhecia a validade de casamentos em que pelo menos um dos “casantes” era divorciado, o casamento anterior dela era claramente inválido e, por conseguinte, ela poderia se casar com Lewis… O argumento, apesar de logicamente bem construído, não convenceu o bispo. Lewis, diante da iminência da morte de Joy, recorreu a um pastor anglicano que havia sido seu aluno e que se deixou persuadir pela sua lógica…  Em 21 de Março de 1957, cerca de onze meses depois do casamento civil, realizou-se o casamento cristão de Lewis e Joy, em pleno hospital em que ela estava internada, e à revelia de seu bispo. No dia seguinte o mundo que admirava Lewis ficou chocado com um breve comunicado do casamento no jornal.

Em Abril, os médicos liberaram Joy da internação para que pudesse morrer em casa, ao lado do marido e dos filhos. Ela se mudou para a casa de Lewis, adaptada, rapidamente, para recebê-la. E daí o que Lewis considerou um milagre aconteceu. Ele vinha orando para que Deus pelo menos aliviasse a dor de Joy, ainda que fosse necessário transferi-la para ele. E, como se a vida imitasse a arte, ele começou a sofrer dores terríveis nas pernas (local mais severamente atingido pelo câncer de Joy), diagnosticadas como decorrentes de osteoporose, e ela começou a melhorar, contra todas as expectativas médicas! Em Dezembro daquele ano ela conseguiu até mesmo a voltar a andar… Em Junho de 1958 os médicos declararam que a progressão do câncer havia sido interrompida e Lewis e Joy puderam até mesmo, e finalmente, ter sua viagem de lua-de-mel para a Irlanda, terra natal de Lewis. Mas em Outubro de 1959 o câncer retornou com violência e em 13 de Julho de 1960 ela faleceu, deixando a vida de Lewis em crise — não só pelo sofrimento de sua perda mas também em decorrência de sua própria doença, que não o abandonou…

Lewis veio a falecer um pouco mais de três anos depois de Joy, em 22 de Novembro de 1963, dia em que o Presidente John F. Kennedy, e o escritor G. K. Chesterton, este um amigo e colega de Lewis, também faleceram. Os filhos de Joy já tinham 19 e 18 anos, respectivamente, na ocasião. O mais novo acompanhou Lewis até o fim da vida dele e escreveu uma história do relacionamento de sua mãe com Lewis e uma biografia de Lewis.

[Os dados sobre as datas dos acontecimentos retirei da Cronologia da Vida de C S Lewis, contida no livro C. S. Lewis: Companion & Guide, de Walter Hooper, que também é coautor de uma biografia de Lewis. Os títulos dos livros de Douglas Gresham são Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidson and C. S. Lewis (de 1988) e Jack’s Life: The Life Story of C. S. Lewis (de 2005; Jack era o apelido pelo qual C S Lewis era chamado por todos os seus amigos).

Se o leitor está com lágrimas nos olhos, não deixe de ver Shadowlands. Vai chorar ainda mais diante das brilhantes e comoventes interpretações de Anthony Hopkins e Debra Winger.

Ironias do destino. Como diz Jake Meador no artigo já citado, será difícil encontrar um caso mais apto e pungente em que a vida obrigou um grande autor a engolir algumas das coisas que havia escrito.

Em Salto, 20 de Junho de 2020 – dia em que começa o inverno no Brasil e o verão, na terra que foi de C S Lewis.