C S Lewis e Algumas Igrejas Protestantes Brasileiras Hoje (Felizmente, a Minoria)

Na coletânea de ensaios, artigos e outros textos de C S Lewis que W Hooper publicou, em 1970, sete anos depois da morte de Lewis, com o curioso título de God in the Dock (Deus no Banco dos Réus), há um único texto inédito — nunca antes publicado. Trata-se do texto que serviu de base para uma palestra, ministrada em 1945, para pastores recém-ordenados da Igreja Anglicana do País de Gales, sobre o tema “Christian Apologetics” (Apologética Cristã).

No texto Lewis, de certo modo, compara a função do apologeta (que, por exemplo, ele, como leigo na igreja, pode exercer) com a função do pastor, que, em regra, precisa ser investido no cargo pela igreja, através do processo formal de ordenação. (Note-se que, na Igreja Católica, com a qual a Igreja Anglicana se parece muito, a ordenação é tão importante que se tornou um dos sete sacramentos: em vez de passar pelo casamento, outro sacramento, o sacerdote passa pela ordenação, de certo modo se casando com a Igreja, de uma forma tão definitiva, “até que a morte os separe”, quanto a Igreja Católica considera o casamento entre um homem e uma mulher). Uma função importante do pastor, em especial na tradição protestante, em que a Igreja Anglicana se situa, é proclamar a mensagem básica do Cristianismo, em geral usando um texto bíblico como base. A função principal do apologeta é defender a mensagem básica do Cristianismo contra ataques de hereges e infiéis.

Lewis, que não tergiversa, e que prima pela clareza e precisão do que diz, faz questão de enfatizar três pontos.

Primeiro, para Lewis a “mensagem básica do Cristianismo” que é necessário explicar (esclarecer), defender (manter pura) e proclamar (pregar, anunciar) é algo preciso, de contornos bem definidos. Contrário a alguns protestantes que adotam o princípio do “Sola Scriptura” de forma radical, para Lewis a mensagem básica do Cristianismo, enquanto tal, antes de o Cristianismo se dividir entre Ocidental e Oriental, Latino e Grego, e antes de o Cristianismo Ocidental se dividir entre Católico e Protestante, está contida em vários documentos clássicos do Cristianismo: a Bíblia (canônica), os credos geralmente aceitos, as decisões dos principais Concílios Ecumênicos, e as obras dos principais Pais da Igreja considerados ortodoxos (isto é, não condenados como hereges por algum concílio). Enfim: os três grandes C’s, Cânon, Credos, Concílios, mais as obras dos Pais da Igreja considerados ortodoxos (não considerados como hereges – vários o foram). Os principais Credos são o Apostólico, o Niceno e o Calcedônico. Os principais Concílios são os quatro primeiros: Nicéia (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431) e Calcedônia (451). Niceia e Calcedônia são especialmente importantes porque definiram, de uma vez por todas, a doutrina da dupla natureza (humana e divina) de Jesus Cristo (em Niceia) e a doutrina da Trindade (em Calcedônia). Os Pais da Igreja mais importantes são, para Lewis, Atanásio (296/298-373), pelo seu papel na definição da doutrina da Encarnação e na definição (definitiva, malgrado Lutero) do Cânon do Novo Testamento, e Agostinho (356-430), por seu papel em quase tudo mais (doutrina da Trindade, doutrina da Igreja, doutrina do Estado, etc.).

Segundo, para Lewis há um método no processo de explicar, defender e proclamar a mensagem básica do Cristianismo. Todo estudante de Teologia e pastor deveria saber isso na ponta da língua. O primeiro passo desse método é descobrir o que esses textos clássicos de fato dizem. Isso se faz através do processo chamado de Exegese, que envolve o uso das ferramentas da crítica textual (chamada de baixa crítica), aplicada de preferência nos textos em sua língua original, da crítica literária e da crítica histórica (que, juntas, são chamadas de alta crítica), e, assim, chegar a uma conclusão acerca do que o texto estava dizendo no contexto e na língua original. O segundo passo do método é transpor a mensagem encontrada para o contexto atual e a língua usada no local em que se está explicando, defendendo e proclamando a mensagem. Isso se faz através do processo chamado de Hermenêutica.

Terceiro, o processo tem uma direção correta: partir daquilo que, apesar de surgido em um contexto histórico, geográfico, linguístico específico, é atemporal (o mesmo “ontem, hoje e para sempre”; Hebreus 13:8), ubíquo (aplica-se em todo e qualquer lugar), e, portanto, inegociável, e explicar (teólogo), proclamar (pastor) e defender (apologeta) essa mensagem básica do Cristianismo, a “fé uma vez por todas entregue aos santos” (Judas 1:3). Não é admissível executar o processo na direção oposta: pegar algumas ideias atuais que se deseja propor e defender “e ornamentar essas ideias com a linguagem tradicional do Cristianismo” [Deus no Banco dos Réus, p.118].

A tese de C S Lewis é uma tese antiga mas, ao mesmo tempo, contemporânea em sua relevância. Hoje em dia é comum verificar, nos púlpitos de nossas igrejas, essa inversão do processo a ser seguido no método esclarecido e defendido por Lewis. O pastor seleciona uma mensagem atual que ele quer que seus ouvintes aceitem, e, daí, procura passagens na Bíblia (e em outros textos antigos, como as obras dos Pais da Igreja), que possam ser “massageadas” para que pareçam dar fundamento para a mensagem que ele quer pregar, e, de resto, já decidiu que vai pregar.

Vou dar um exemplo que não passaria pela mente de C S Lewis, mas que ilustra bem o que ele estava dizendo. Há pregadores protestantes, aqui no Brasil, hoje, que querem ver o atual Presidente da República longe da presidência — seja através de impeachment, seja através de golpe de estado, seja através de assassinato, seja por voto nas próximas eleições (diante do fim, o meio não importa). Eles não se conformam de que boa parte da população evangélica brasileira dê apoio ao Presidente. Então sua mensagem (desses pregadores) deve procurar convencê-los (os membros da igreja) a passar para a oposição e engrossar as fileiras dos que querem ver o Presidente de qualquer maneira fora do Planalto, de preferência que ele não possa nem disputar a próxima eleição (pois sempre, para eles, há o “risco” de ele ganhar de novo — afinal de contas, como o Pelé uma vez disse, o brasileiro não sabe votar). Isso definido, ele (o pregador que se considera iluminado) sai a procurar um texto, que ele possa chamar de profético, em que um profeta menor qualquer do Velho Testamento desanca o governo de Israel. E ele usa a passagem para incitar o povo a criticar o governo, a lutar contra o governo, se necessário for, para que seja colocado em seu lugar um governo mais temente a Deus (algo que, para ele, quer apenas dizer, um governo de esquerda, que promova a “justiça social”).

E depois ainda há gente que me pergunta por que eu não sou mais membro da Catedral Evangélica de São Paulo. Eis a parte final do texto de um sermão proferido recentemente (faz quase seis meses, 15.3.2021) na Catedral, pelo Rev. Roberto Mauro, parte da equipe pastoral da igreja (qualquer que seja a fonte de seu salário):

“Se você quer apresentar o seu corpo como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, use a sua voz para denunciar a irresponsabilidade e a perniciosidade do governo brasileiro diante da pandemia para com a sua própria população. Hoje, exatamente hoje, dia 15.3.2021, completamos um ano de pandemia, e, depois de um ano de negacionismo inconsequente, infantil e nefasto, há pessoas morrendo, morrendo nas portas dos hospitais, porque não há mais vagas nesses hospitais.”

É isso.

Em Salto, 22 de Agosto de 2021

A Felicidade e o Sofrimento – A Propósito do filme Shadowlands

[Transcrito de meu blog Chaves Spaces, onde foi publicado uma semana atrás, em 15.11.2020]

Anteontem de madrugada (13.11.2020) assisti, mais um vez, ao belíssimo filme de Richard Attenborough, Shadowlands, que conta parte da história de vida de C S Lewis: sua vida pessoal na década de 1950, década esta em que ele conviveu com Helen Joy Davidman, que a partir de 1956/1957 se tornou sua mulher. Sempre me emociono profundamente vendo o filme. Lewis nasceu em 1898, deixou para se casar (diante de Deus e da Igreja, como ele colocava a questão) quando tinha quase 60 anos (em 1957 – 1956 foi o casamento apenas diante da lei e dos homens, ao qual ele não deu nenhuma importância), e ela, bem mais nova do que ele, morreu de câncer três anos e um pouquinho depois do casamento — e ele morreu três anos e um pouquinho depois dele… Lamento todos os spoilers para quem pretende ver o filme: faça de conta que você esqueceu pelo menos o que eu disse no último parágrafo…

No filme C S Lewis (isto é, o ator que o representa, o grande Anthony Hopkins) repete várias vezes que o ser humano não deve ter na vida o objetivo de ser feliz, porque não conseguirá alcançá-lo. Eis uma passagem típica que, no filme, é parte final de um sermão de Lewis (há tradução para o Português, de minha responsabilidade, na sequência das citações feitas em Inglês):

“Does God want us to suffer?

What if the answer to that question is YES? See, I’m not sure that God particularly wants us to be happy. I think He wants us to be able to love and be loved. He wants us to grow up.

I suggest to you that it is because God loves us that He makes us the gift of suffering. To put it another way, pain is God’s megaphone to rouse a deaf world.

You see, we are like blocks of stone, out of which the sculptor carves the forms of men. The blows of His chisel, which hurt us so much, are what make us perfect.

Thank you very much.” [Emphases added]

Em Português:

“Deus deseja que soframos?

E se a resposta a essa pergunta for SIM? Vejamos… Eu não estou certo de que Deus queira, particularmente, que sejamos felizes. Creio que ele quer que sejamos capazes de amar e de ser amados. E ele quer que nós cresçamos.

Gostaria de sugerir-lhes que é porque Deus nos ama que ele nos dá a dádiva do sofrimento. Colocando a coisa de outra forma, a dor é o megafone de Deus para fazer com que um mundo surdo acorde.

Vejam vocês, nós somos como blocos de pedra, a partir dos quais o escultor consegue esculpir as formas de um ser humano. Os golpes do cinzel divino, que nos causam tanto dor e sofrimento, também nos tornam perfeitos [perfeitamente humanos?].

Muito obrigado.” [Ênfases acrescentadas].

Outra passagem:

“We think our childish toys bring us all the happiness there is and our nursery is the whole wide world.

But something must drive us out of the nursery to the world of others — and that something is suffering.”

Em Português:

“Nós imaginamos que nossos brinquedos nos trazem toda a felicidade possível, e que nosso quarto de brincar é todo o mundo que existe.

Mas algo precisa nos cutucar para que saiamos de nosso quarto de brincar e que entremos no mundo em que existem outras pessoas — e esse algo é o sofrimento.”

Na verdade, Lewis, em alguns momentos, nos dá a impressão de que qualquer felicidade que a gente alcance na vida ou é aparente ou é algo supererrogatório. Este último termo, vindo do Latim, supererrogatório, se refere a algo que feito ou ofertado além do combinado. Algo como um dom ou uma dádiva. Vista assim, a felicidade é algo que não faz parte do combinado e que nos é dado além do trato. E ela é inevitavelmente construída em cima do sofrimento que invariavelmente nos acomete, e contrasta com ele, porque o sofrimento é parte essencial da vida e do plano divino para a humanidade: a felicidade (pelo menos nesta vida) é algo passageiro e acessório. É o sofrimento que nos ensina a viver, não a felicidade. A felicidade não nos ensina nada nem nos motiva a nada — pelo contrário. Como disse o Rubem Alves um dia, no título de um de seus livros, muito tempo depois de Lewis ter morrido, “ostra feliz não faz pérola“. A felicidade que o ser humano alcança, se tem sorte, é algo raso, sem graça, passageiro. Gente feliz é tudo igual, tem aquela cara de bobo que sorri à toa. Mas o sofrimento, não. Cada um sofre do seu próprio jeito… Como disse Leo Tolstoy no início do seu magnífico (mas complicado, como todos os livros dele) Anna Karenina, uma família feliz é igual a todas as outras famílias felizes [e por isso não dá romance dramático, como os de Tolstoy] — mas o sofrimento é sempre único, é personalíssimo: cada pessoa e cada família é infeliz do seu próprio jeito…

Diz o Lewis do filme:

“Twice in [. . .] life I’ve been given the choice, as a boy and as a man. The boy chose safety; the man chooses suffering. The pain now is part of the happiness then. That’s the deal.” [Emphasis added].

“Duas vezes em minha vida foi-me dado escolher como reagir, uma quando menino [na morte da mãe dele] e outra como homem [na morte de sua mulher]. O menino escolheu segurança [e virou ateu]; o homem escolhe sofrimento [pois já é cristão]. A dor agora faz parte da felicidade que virá depois. É esse o trato.” [Ênfase acrescentada].

Aqui Lewis (ou o personagem que o representa) inclui a felicidade posterior como parte do trato… Assim, ela deixa de ser superrogatória e passa a ser parte do combinado! Mas a felicidade que virá depois não é aquela que nos é concedida (supererrogatoriamente) agora, ao longo da vida aqui na Terra: ela será, futuramente, uma felicidade diferente, não hedônica ou hedonista — mas eudaemônica ou eudaemonista. Vide adiante.

A noção de que este mundo é “um vale de lágrimas” e que o nosso destino aqui é sofrer, não ser feliz, porque é sofrendo que a gente se aperfeiçoa e caminha na direção da perfeição (ainda que não chegue lá ao longo desta vida) é uma noção relativamente comum na história do pensamento cristão. Na realidade, essa visão tem sido usada como o núcleo central de uma teodiceia, isto é, defesa ou justificação de Deus face à existência do mal e, por conseguinte, do sofrimento no mundo. Essa defesa ou justificação tornou-se imperativa depois de David Hume ter argumentado da seguinte forma:

  1. O mal existe, em sua expressão tanto natural e como moral, isto é, tanto o mal que é causado por fenômenos da natureza, que por alguns são chamados de “atos de Deus” (terremotos, tornados, tufões, tsunamis, enchentes, raios que causam incêndios em florestas secas, etc.), como o mal que é causado por “atos de seres humanos” (agressões, assassinatos, revoluções, guerras, etc.);
  2. Se Deus existe, e é onipotente, ele tem poder e força bruta para fazer qualquer coisa (como dividir o Mar Vermelho em duas partes), e, portanto, inclusive para eliminar todo mal do mundo;
  3. Se Deus existe, e é onisciente, ele tem conhecimento, competência e habilidade para saber, e saber fazer, qualquer coisa, e, portanto, inclusive para eliminar todo mal do mundo;
  4. Se Deus existe, e é onibenevolente (infinitamente bom), ele certamente deseja eliminar tudo que é ruim ou imperfeito no mundo, e, portanto, inclusive todo o mal que causa estresse, agonia, dor, sofrimento, desespero, etc., para os seres humanos;
  5. Logo, dado que o mal existe, é forçoso concluir que ou (a) Deus simplesmente não existe, ou, (b) então, ele não possui pelo menos uma das três características destacadas por negrito nas premissas 2-4: ou não é onipotente, ou não é onisciente, ou não é onibenevolente, porque, (a) se fosse onibenevolente,  ele desejaria eliminar todo mal, (b) se fosse onisciente, ele saberia como fazê-lo, e (c) se fosse onipotente, ele teria poder e força bruta de fazê-lo.

Evidentemente, é possível evitar a conclusão (enunciado 5) negando-se a veracidade de qualquer das quatro premissas (enunciados 1-4).

Há quem negue (Agostinho, por exemplo) a veracidade da primeira premissa, a saber, que o mal existe, afirmando que o mal não tem existência real, por ser simplesmente algo negativo, a carência do bem. Afirmar que o mal não existe para quem acabou de perder toda família em decorrência de um acidente de causas naturais ou humanas, como o da barragem de Brumadinho, é insultuoso e ofensivo.

Há quem negue a veracidade da segunda premissa, a saber, que Deus seja onipotente no sentido de ter poder e força de fazer qualquer coisa, porque, em primeiro lugar, ele não pode fazer o que logicamente impossível, como criar um triângulo quadrado, nem, em segundo lugar, também não pode remover algo que parece mal mas é condição necessária para um “bem maior”. Muita gente argumenta assim.

Há quem negue a veracidade da terceira premissa, a saber, que Deus seja onisciente no sentido de saber ou saber fazer, qualquer coisa, porque (à semelhança do que foi dito no parágrafo anterior) ele não pode ser capaz de fazer o que é logicamente impossível.

Há, por fim, quem negue, e o número de pessoas aqui é bem maior, a veracidade da quarta premissa, que afirma que  Deus é onibenevolente. Quem assim pensa afirma que Deus pode permitir que os seres humanos sofram de alguma forma porque o sofrimento causado por ações de outros seres humanos é condição necessária para um bem maior, como, por exemplo, a existência do livre arbítrio. Esse argumento, embora interessante, não explica a existência do mal natural (não causado por outros seres humanos), embora também neste caso seja possível afirmar que o sofrimento, de qualquer tipo, é condição necessária para a depuração e o aperfeiçoamento do caráter e a conquista de uma vida plena de virtudes.

Em resumo é isso. O argumento de Hume, embora potente, não é irrespondível — se bem que as críticas feitas a ele também não são irrespondíveis.  

A filosofia grega — em especial a de Aristóteles — séculos antes de essas teodiceias serem propostas no âmbito do Cristianismo — incluía uma visão de mundo que não permitia que esse problema surgisse. Para Aristóteles, independentemente de Deus existir ou não, o ser humano tem uma natureza que traz, embutida em si própria, o desejo de ser feliz, e que reconhece esse mesmo direito nos demais seres humanos que, pelo menos nesse sentido, são iguais uns aos outros.

Assim, parece haver um conflito de visões entre a Filosofia Grega Clássica (representada por Aristóteles) e o Pensamento Cristão acerca do direito de ser feliz, defendido pelos gregos, e a decisão de reagir ao sofrimento aperfeiçoando o caráter e buscando uma vida virtuosa, mesmo que infeliz.

Porém, esse aparente conflito não é tão grande como parece.

Os gregos distinguiam entre dois tipos de estado ou situação que são considerados como felicidade. De um lado, há a chamada felicidade hedônica, identificada pelo prazer de ver nossos desejos realizados e satisfeitos — ainda que esses desejos sejam imorais e, quando realizados, venham a prejudicar os outros. De outro lado, há a chamada felicidade eudaemônica, identificada pela realização de um projeto de vida significativo, que tem como base um caráter íntegro e firme, e que é levado a cabo com pleno respeito às virtudes e aos direitos das demais pessoas. Esse projeto de vida é alicerçado em um caráter impoluto e uma vida virtuosa — e sua realização deve ser vista como o píncaro da felicidade.

Comparando-se esta visão grega com a visão do C S Lewis do filme, pode-se constatar que o Lewis do filme mistura a visão cristã com a grega, ao admitir a existência, nesta vida, apenas de uma felicidade hedônica, de caráter supererrogatório, mas colocando nossa vida aqui, deste lado das coisas, como essencialmente regida pelo sofrimento que, no entanto, é preparatório (ou propedêutico) para uma felicidade muito maior e completa — mas no futuro (i.e., na vida futura). Sofremos aqui para podermos ser completamente felizes lá. “The pain now is part of the happiness then. That’s the deal.

É um tema instigante…

Quem tem refletido muito sobre esse assunto atualmente é Martin E P Seligman, o criador da Psicologia Positiva — e também os seus associados. Vale a pena ler seus livros, em especial este, de autoria de Seligman e Christopher Peterson: Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification (Oxford: Oxford University Press, 2004). Para mais informação, vide meu blog Eudaemonia Space em https://eudaemoniaspace.wordpress.com/.

Em Salto, no dia 15 de Novembro de 2020, transcrito aqui em São Paulo, em 22 de Novembro de 2020, dia do aniversário da morte de C S Lewis, 57 anos atrás.

Livros de/sobre C S Lewis que eu Tenho (20201122)

(Hoje, 22.11.2020, faz 57 anos que C S Lewis morreu. Sete anos atrás eu comemorei aqui nos meus blogs os 50 anos sem Lewis.

1. LIVROS DE C S LEWIS QUE EU TENHO [20201122]

C S Lewis, A Abolição do Homem (The Abolition of Man) [Printed] **

C S Lewis, A Grief Observed [Printed] **

C S Lewis, A Grief Observed [Printed] ** +

C S Lewis, A Mind Awake [Kindle E-Book] *

C S Lewis, A Última Noite do Mundo e Outros Ensaios (The World’s Last Night and Other Essays) [Printed] ** +

       [01] A Eficácia da Oração

       [02] Sobre a Obstinação na Crença

       [03] Lírios que Apodrecem

       [04] Maldanado Propõe um Brinde

       [05] Boa Obra e Boas Obras

       [06] Religião e Foguetes

       [07] A Última Noite do Mundo

C S Lewis, All my Road Before Me – 1922-1927: The Diary of C S Lewis [Printed] ** +

C S Lewis, An Experiment in Criticism [Printed] **

C S Lewis, As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia) [Printed] **

C S Lewis, Até que Tenhamos Rostos: A Releitura de um Mito (Till we Have Faces: A Myth Retold) [Printed] **

C S Lewis, Cartas do Inferno (Screwtape Letters) [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, Cartas a uma Senhora Americana (Letters to an American Lady) [Printed] **

C S Lewis, Christian Reflections [Kindle E-Book] *

       [01] Christianity and Literature

       [02] Christianity and Culture

       [03] Peace Proposals for Brother Every and Mr Bethell

       [04] Religion: Reality or Substitute

       [05] On Ethics

       [06] De Futilitate

       [07] The Poison of Subjectivism

       [08] The Funeral of a Great Myth

       [09] On Church Music

       [10] Historicism

       [11] The Psalms

       [12] The Language of Religion

       [13] Petitionary Prayer: A Problem Without an Answer

       [14] Modern Theology and Biblical Criticism

       [15] The Seeing Eye

C S Lewis, Cristianismo Puro e Simples (Mere Christianity) [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, The Discarded Image [Kindle E-Book] * [Lewis last book]

C S Lewis, Essay Collection on Faith, Christianity and the Church [Kindle E-Book] *

              [Part 1] The Search For God

       [01] The Grand Miracle

       [02] Is Theology Poetry?

       [03] The Funeral Of A Great Myth

       [04] God In The Dock

       [05] What Are We To Make Of Jesus Christ?

       [06] The World’s Last Night

       [07] Is Theism Important?

       [08] The Seeing Eye

       [09] Must Our Image Of God Go?

              [Part 2] Aspects Of Faith

       [10] Christianity And Culture

       [11] Evil And God

       [12] The Weight Of Glory

       [13] Miracles

       [14] Dogma And The Universe

       [15] ‘Horrid Red Things’

       [16] Religion: Reality Or Substitute?

       [17] Myth Became Fact

       [18] Religion And Science

       [19] Christian Apologetics

       [20] Work And Prayer

       [21] Religion Without Dogma?

       [22] The Decline Of Religion

       [23] On Forgiveness

       [24] The Pains Of Animals

       [25] Petitionary Prayer: A Problem Without An Answer

       [26] On Obstinacy In Belief

       [27] What Christmas Means To Me

       [28] The Psalms

       [29] Religion And Rocketry

       [30] The Efficacy Of Prayer

       [31] Fern-Seed And Elephants

       [32] The Language Of Religion

       [33] Transposition

              [Part 3] The Christian In The World

       [34] Why I Am Not A Pacifist

       [35] Dangers Of National Repentance

       [36] Two Ways With The Self

       [37] Meditation On The Third Commandment

       [38] On Ethics

       [39] Three Kinds Of Men

       [40] Answers To Questions On Christianity

       [41] The Laws Of Nature

       [42] Membership

       [43] The Sermon And The Lunch

       [44] Scraps

       [45] After Priggery – What?

       [46] Man Or Rabbit?

       [47] ‘The Trouble With “X”…’

       [48] On Living In An Atomic Age

       [49] Lilies That Fester

       [50] Good Work And Good Works

       [51] A Slip Of The Tongue

       [52] We Have No ‘Right To Happiness’

              [Part 4] The Church

       [53] Christian Reunion

       [54] Priestesses In The Church?

       [55] On Church Music

              [Part 5] Letters

       [56] The Conditions For A Just War

       [57] The Conflict In Anglican Theology

       [58] Miracles

       [59] Mr C S Lewis On Christianity

       [60] A Village Experience

       [61] Correspondence With An Anglican Who Dislikes Hymns

       [62] The Church’s Liturgy, Invocation, And Invocation Of Saints

       [63] The Holy Name

       [64] Mere Christians

       [65] Canonisation

       [66] Pittenger-Lewis And Version Vernacular

       [67] Capital Punishment And Death Penalty

C S Lewis, George MacDonald [Printed] **

C S Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics [Kindle E-Book] *

              [PART I]

       [01] Evil and God

       [02] Miracles

       [03] Dogma and the Universe

       [04] Answers to Questions on Christianity

       [05] Myth Became Fact

       [06] ‘Horrid Red Things’

       [07] Religion and Science

       [08] The Laws of Nature

       [09] The Grand Miracle

       [10] Christian Apologetics

       [11] Work and Prayer

       [12] Man or Rabbit?

       [13] On the Transmission of Christianity

       [14] ‘Miserable Offenders’

       [15] The Founding of the Oxford Socratic Club

       [16] Religion without Dogma?

       [17] Some Thoughts

       [18] ‘The Trouble with “X”…’

       [19] What Are We to Make of Jesus Christ?

       [20] The Pains of Animals

       [21] Is Theism Important?

       [22] Rejoinder to Dr Pittenger

       [23] Must Our Image of God Go?

              [PART II]

       [24] Dangers of National Repentance

       [25] Two Ways with the Self

       [26] Meditation on the Third Commandment

       [27] On the Reading of Old Books

       [28] Two Lectures

       [29] Meditation in a Toolshed

       [30] Scraps

       [31] The Decline of Religion

       [32] Vivisection

       [33] Modern Translations of the Bible

       [34] Priestesses in the Church?

       [35] God in the Dock

       [36] Behind the Scenes

       [37] Revival or Decay?

       [38] Before We Can Communicate

       [39] Cross-Examination

              [PART III]

       [40] ‘Bulverism’

       [41] First and Second Things

       [42] The Sermon and the Lunch

       [43] The Humanitarian Theory of Punishment

       [44] Xmas and Christmas

       [45] What Christmas Means to Me

       [46] Delinquents in the Snow

       [47] Is Progress Possible?

       [48] We Have No Right to Happiness’

              [PART IV]

       [49] Letters

C S Lewis, Image and Imagination [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Mere Christianity [Printed] **

C S Lewis, Mere Christianity [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Miracles [Printed] **

C S Lewis, Miracles [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, Miracles [PDF] ***

C S Lewis, Oração: Cartas a Malcom (Prayer: Letters to Malcom) [Printed] **

C S Lewis, Out of the Silent Planet (Space Trilogy 1)  [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Perelandra (Space Trilogy 2)  [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Poetry and Prose in the Sixteenth Century (OHEL-IV) [Printed] ** + [Ordered 20200723 Arrived 20200731]

C S Lewis, Present Concerns: Journalistic Essays  [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Razão do Cristianismo (Mere Christianity) [Printed] **

C S Lewis, Reflections on Psalms [Printed] **  (Pocket)

C S Lewis, Selected Literary Essays [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Spirits in Bondage [Kindle E-Book] * [Lewis first book]

C S Lewis, Studies in Medieval and Renaissance Literature [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Studies in Words [Kindle E-Book] *

C S Lewis, Surprised by Joy [Printed] **

C S Lewis, The Abolition of Man [Printed] **

C S Lewis, The Abolition of Man [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Allegory of Love  [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Chronicles of Narnia – Complete All Seven Books [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 1 [Printed] **

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 2 [Printed] **

C S Lewis, The Collected Letters of C S Lewis – Vol 3 [Printed] **

C S Lewis, The Four Loves [Printed] **

C S Lewis, The Four Loves [Printed] ** (Pocket)

C S Lewis, The Great Divorce [Printed] **

C S Lewis, That Hideous Strength (Space Trilogy 3) [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Personal Heresy: A Controversy (with E M W Tillyard) [Printed] **

C S Lewis, The Pilgrim’s Regress [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Problem of Pain [Printed] **

C S Lewis, The Problem of Pain [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The Screwtape Letters [Printed] **   [Vr The]

C S Lewis, The Weight of Glory [Kindle E-Book] *

C S Lewis, The World’s Last Night and Other Essays [Printed] **  [Fill in]

C S Lewis, Till we Have Faces: A Myth Retold [Printed] **

SUB-TOTAL A: 54 [Printed 32 + Kindle 21 + PDF 1] [No Sample Anymore]

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2. LIVROS SOBRE C S LEWIS QUE EU TENHO [20201122]

A N Wilson, C S Lewis, A Biography [Printed] **

A N Wilson, C S Lewis, A Biography [Kindle E-Book] *

A N Wilson, The Man Behind Narnia  [Kindle E-Book] *  [There is another book with this same title]

Alan Jacobs, The Narnian [Kindle E-Book] *

Alan Jacobs, The Year 1943 [Kindle E-Book] *

Alister E McGrath, C S Lewis: A Life – Eccentric Genius, Reluctant Prophet [Kindle E-Book] *

Alister E McGrath, If I Had Lunch with C. S. Lewis [Kindle E-Book] *

Alister E McGrath, Richard Dawkins, C S Lewis and the Meaning of Life [Kindle E-Book] * [Bought 20200904]

Alister E McGrath, The Intellectual World of C S Lewis [Kindle E-Book] *

Armand M Nichol Jr, Deus em Questão: C S Lewis & Freud [Printed] **

Beatrice Gormley, C S Lewis: The Man Behind Narnia [Printed] ** [There is another book with this same title]

Bob Johnson, An Answer to C S Lewis ‘Mere Christianity [Kindle E-Book] *

Charles Williams, The Figure of Beatrice [Kindle E-Book] *

Christian History and Biography, C S Lewis: His Simple Life and Extraordinary Legacy [Kindle E-Book] *

Colin Duriez, C S Lewis, A Biography of Friendships [Kindle E-Book] *

Colin Duriez, The C S Lewis Encyclopedia: A Complete Guide to his Life, Thought, and Writings  [Printed] **  +

Colin Duriez, The Oxford Inklings: Lewis, Tolkien and their Circle [Kindle E-Book] *

Colin Duriez, Tolkien & C S Lewis: The Gift of Friendship [Kindle E-Book] *

Corey Latta, C S Lewis and the Art of Writing [Kindle E-Book] *

David Baggett et al, C S Lewis as a Philosopher: Truth, Goodness and Beauty [Kindle E-Book] *

David Downing, C S Lewis: O Mais Relutante dos Convertidos [Printed] **

Derick Bingham, A Shiver of Wonder: A Life of C S Lewis [Kindle E-Book] *

Devin Brown, Life Observed [Kindle E-Book] *

Dorothy L. Sayers, The Mind of the Maker [Kindle E-Book] *

Douglas Gilbert & Clyde S Kilby, C S Lewis – Images of His World [Printed] ** [To be delivered at Andrea]

Douglas H Gresham, Jack’s Life: The Story of C S Lewis [Printed] ** +

Douglas H Gresham, Lenten Lands: My Childhood with Joy Davidman & C S Lewis [Printed] **

Ênio Starosky, Amor & Educação em C S Lewis e Joseph Piper [Printed] **

Gabriele Greggersen, A Magia das Crônicas de Narnia [Printed] **

Gabriele Greggersen, A Pedagogia Cristã na Obra de C S Lewis [Printed] **

Gabriele Greggersen, Antropologia Filosófica de C S Lewis [Printed] **

Gabriele Greggersen, O Evangelho de Narnia [Printed] **

Gabriele Greggersen, C S Lewis e Dorothy Sayers [PDF] ***

George M. Marsden, C S Lewis’s Mere Christianity [Kindle E-Book] *

George MacDonald, The Complete Fantasy Collection – 8 Novels & 30+ Short Stories and Fairy Tales [Kindle E-Book] *

George MacDonald, The Complete Illustrated Edition [Kindle E-Book] *

George MacDonald, Unspoken Sermons [Kindle E-Book] *

George Sayer & Lyle W Dorsett, Jack: A Life of C S Lewis [Printed] **

George Sayer & Lyle W Dorsett, Jack: A Life of C S Lewis [Kindle E-Book] *

Humphrey Carpenter, The Inklings: C S Lewis, J R R Tolkien, Charles Williams and their Friends [Printed] ** [To be delivered at Andrea]

J. R. R. Tolkien, The Letters of J. R. R. Tolkien [Kindle E-Book] *

James T. Como, ed., C S Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences [Printed] **

Joel D. Heck, From Atheism to Christianity: The Story of C S Lewis [Kindle E-Book] *

John Beversluis, C S Lewis and the Search for Rational Religion [Printed] **

Jordan Ferrier, Calvin and C S Lewis: Solving the Riddle of the Reformation [Kindle E-Book] *

Joy Davidman, Out of my Bone: The Letters of Joy Davidman [Printed] ** +

Joy Davidman, Smoke on the Mountain: An Interpretation of the Ten Commandments [Printed] **

Kevin S Livermore, The Theology of C S Lewis (ed. 2018) [Kindle E-Book] * [See Note below]

Kevin S Livermore, The Theology of C S Lewis (ed 2020) [Kindle E-Book] * [Already had a previous edition]

Loren Wilkinson & Keith Call, Clyde S. Kilby: A Well of Wonder – Essays on Lewis, Tolkien & the Inklings [Kindle E-Book] *

Lyle W Dorsett, And God Came in: The Extraordinary Story of Joy Davidman [Printed] ** +

Mark A. Pike, Mere Education: C S Lewis as a Teacher for our [Kindle E-Book] *

Michael L. Peterson, C S Lewis and the Christian Worldview [Kindle E-Book] * [Bought on 20200901]

Peter Kreeft, O Diálogo (Entre Kennedy, Lewis e Huxley) [Printed] **

Peter Kreeft, C S Lewis for the Third Millenium [Kindle E-Book] *

Philip Zaleski & Colin Zalesky, The Fellowship: The Literary Life of the Inklings – Tolkien, Lewis, Barfield, Williams [Kindle E-Book] *

Robert MacSwainn & Michael Ward, The Cambridge Companion to C S Lewis [Printed] **

Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, Biography of C.S. Lewis, 1st ed [Printed] ** [To be delivered at Andrea]

Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, C S Lewis: The Authorised and Revised Biography [Printed] **

Ruth Jackson, An Analysis of C S Lewis’s The Abolition of Man [Kindle E-Book] * [Replaced the Sample on 20200616]

Stephen R. Turley, Awakening Wonder: A Classical Guide to Truth, Goodness, and Beauty [Kindle E-Book] *

Stephen R. Turley, Classical Education vs. Modern Education: A Vision from C.S. Lewis [Kindle E-Book] *

Stephen R. Turley, The Abolition of Sanity: C.S. Lewis on the Consequences of Modernism [Kindle E-Book] * 

Stewart Goetz, C S Lewis [Kindle E-Book] *

Timothy M. Mosteller & Gayne John Anacker, eds., Contemporary Perspectives on C.S. Lewis’ ‘The Abolition of Man’: History, Philosophy, Education, and Science [Kindle E-Book] *

University Press, C S Lewis: The Biography [Kindle E-Book] *

Victor Reppert, C S Lewis’ Dangerous Idea: In Defense of the Argument from Reason [Kindle E-Book] *

Walter Hooper, C S Lewis: A Complete Guide to His Life and Works [Printed] **   Check title: it is C S Lewis: Companion & Guide  ++

Walter Hooper, C S Lewis: Apostle to the Sceptics [Kindle E-Book] *

Wayne Martindale, Beyond the Shadowlands: C S Lewis on Heaven and Hell [Kindle E-Book] *

Wyatt North: J. R. R. Tolkien: A Life Inspired [Kindle E-Book] *

SUB-TOTAL B: 71 [Printed 25 + Kindle 45 + PDF 1]

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RESUMOS (20201122)

SUB-TOTAL A:     54 [Printed 32 + Kindle 21 + PDF 01]
SUB-TOTAL B:     71 [Printed 25 + Kindle 45 + PDF 01]
TOTAL GERAL: 125 [Printed 57 + Kindle 66 + PDF 02]

20201122: 57 Books Printed – [32+25]
20201122: 66 E-Books Kindle [21+45]
20201122: 2 E-Books PDF
20201122: 125 Books TOTAL 

Ensino Superior: Modelos, Paradigmas, & C S Lewis

Os que prestam alguma atenção ao que eu publico em meus blogs e posto aqui no Facebook devem ter percebido que estou trabalhando sobre a vida e a obra de C S Lewis. Lewis foi “Fellow” (pronuncia-se félou) no Magdalen College, da Universidade de Oxford, de 1925 a 1954, e, depois, de 1955 até sua morte, em 1963, no Magdalene College, da Universidade de Cambridge. Quem não conhece as estruturas organizacionais pode ter dificuldade para compreender os termos. Um “Fellow” é algo equivalente a um professor universitário. Aqui no Brasil, recebemos salário e somos chamados de Professores. Alguns são até contratados pela CLT… Em Oxford e em Cambridge, eles ganham uma “Fellowship” (algo que soa mais com uma bolsa do que com um salário) para fazer o que se espera deles: ler, pensar, escrever, de vez em quando dar preleções, e, especialmente, “tutoriar” os que ali vão estudar… Um College, dentro da Universidade, é uma unidade acadêmica. Em Oxford, hoje, há ao redor de 30 Colleges ou equivalentes. Eles têm, lá, uma enorme autonomia financeira, administrativa e acadêmica, inclusive para conceder “Fellowships” e aceitar Estudantes. Têm seus prédios próprios, que pertencem ao College, e não à Universidade. Poucas coisas são compartilhadas entre os vários Colleges. Mas há, por exemplo, uma Biblioteca comum: em Oxford, a Bodleian.

Uma palavra sobre o conjunto de termos relacionado ao processo de Tutoria. Uma das coisas que se espera de um Fellow é que ele seja Tutor de um certo número de estudantes de Graduação (no caso de Lewis, Bacharelado em Língua e Literatura Inglesa). Os alunos ingressantes têm, em regra, de 17 a 19 anos. Na época de Lewis, os alunos iam procurar os Fellows que lhes interessavam para pedir que eles os aceitassem como Tutoriados. Cada Estudante, ao longo de um período letivo, ou mesmo durante todo tempo de sua permanência na Universidade, tinha, na época de Lewis, um Tutor só — e se encontrava com ele só durante uma hora por semana, durante cada período letivo (que são três, de oito semanas cada). O resto do tempo, ler e escrever… Lewis costumava a dizer que o Estudante que não fica literalmente viciado em ler e escrever não tem como ser bem sucedido em Oxford… Lewis aprendeu até mesmo ler enquanto fazia caminhadas… 🙂

O Estudante, ao escolher seu Tutor, já devia saber, naturalmente, o que queria estudar (“ler”, como eles diziam) na Universidade: Os Clássicos (Gregos, Romanos e Cristãos), Filosofia (Era Medieval, Renascença, Idade Moderna, Período Contemporâneo), Língua e Literatura Inglesa (em algum período), etc. E devia conhecer (conversando com os alunos veteranos) as especialidades, as preferências e as manias dos Tutores. Se um Estudante for aceito pelo Tutor que preferia, perfeito. Se não for, tem de procurar outro. Cada Tutor, na época de Lewis, atendia a cerca de cinco alunos por dia — vinte e cinco ao longo de uma semana, durante as oito semanas de um período letivo.

Um parêntese. Um Fellow, em Oxford e Cambridge, é diferente de um “Professor” (pronuncie-se em Inglês, por favor, com um acento agudo no “e”). Um Proféssor, lá, é algo mais parecido com o que era o nosso Professor Catedrático, aqui, que não existe mais. Talvez seja meio parecido com um Professor Titular, mas o Titular, aqui, não é dono de uma cadeira (que aqui também não existe mais): aqui pode haver vários Professores Titulares numa área só, como Filosofia Política. Lá, não. Há distinções, mas não vale a pena esmiuçar. Lewis foi para a Universidade de Cambridge em 1955 porque Cambridge, em 1954, criou uma cátedra especialmente para ele (Medieval and Renaissance English and Literature), e o elegeu para ela, humildemente convidando-o para se dignasse a ocupá-la. Ah, eu ficaria honrado com uma coisa dessas… Ele, naturalmente, também ficou — e aceitou. Bom para ele. Como Proféssor ele só precisava ler, escrever e dar preleções magnas. Não precisava tutoriar ninguém. Lewis havia estado em Oxford por quase 35 anos — 30 como Fellow e, antes, cinco como Estudante — e Oxford nunca se dignou a elegê-lo para uma de suas cátedras. Sempre o esnobou. Os frescos de Oxford achavam que ele, por escrever também livros populares, para crianças e adolescentes, bem como para pessoas leigas interessadas no Cristianismo, livros esses que faziam enorme sucesso, não era digno de ser Proféssor lá. Oxford perdeu-o. Perdeu Oxford, não Lewis.

Ao dizer que Lewis se tornou Proféssor em Cambridge e, como tal, não precisava tutoriar ninguém, pode-se ter a impressão de que ele estivesse doido para não mais “dar aulas”. (A gente geralmente pensa que tutoriar é dar aula, é ensinar – veremos que não é). Mas haverá um engano se se pensar assim.

Os ex-alunos de Lewis em Oxford são virtualmente unânimes em elogiar sua dedicação, seu preparo, seu conhecimento, sua atenção a eles. Um de seus ex-alunos, Derek Brewer, escreveu que a impressão geral que ele causava em seus Tutoriados era de que ler, falar, e discutir um assunto — no caso, Língua e Literatura Inglesa — eram, para ele, nada menos do que a vida dele… Ler, falar, e discutir eram importantes porque eram as principais formas de aprender, na visão dele. E “learning“, para ele, era “a way of life“, nada menos do que um jeito de viver. Ele vivia e respirava “learning“: aprendizagem, aprendência, tornar-se capaz de saber e saber fazer o que não sabia e não sabia fazer… E essa aprendizagem ou aprendência, que lhe era tão natural como forma de viver, contagiava seus estudantes. Segundo um de seus Tutoriados, Lewis, como tutor, não ensinava, não protagonizava, não se punha no papel de sábio no palco (“sage on the stage“): tutoriar, para ele era algo muito diferente de tomar a palavra e discorrer sobre o assunto durante os sessenta minutos que duravam o tutorial. Quem falava, no tutorial, era o Estudante. Era ele que tinha a palavra. Era ele que precisava protagonizar. Ele tinha de, toda semana, apresentar um Ensaio, com o resultado de suas leituras… E em cada semana, Tutor e Tutoriado conversavam sobre o que o Tutoriado estava aprendendo com suas leituras e reflexões. Ao final da sessão, o Tutor recomendava alguns textos, por vezes livros inteiros, que o Tutoriado deveria ler ao longo da semana seguinte, pessoas com quem poderia conversar, etc., e ambos acertavam o que o Tutoriado deveria trazer para ser discutido na sessão seguinte, dali uma semana. O Tutoriado tinha sete dias inteiros para se preparar e para redigir o “Ensaio” que seria discutido no  encontro seguinte, e se preparava do jeito que achava melhor: lendo, refletindo, conversando com outros colegas e outros Fellows que se dispusessem a lhe dar atenção, assistindo a preleções que, dependendo do assunto e do preletor, podiam ter uma plateia de 250 ou de apenas três ou quatro… Na discussão do Ensaio, na semana seguinte, o Tutor ouvia e o Tutoriado lia o Ensaio. Na sequência, o Tutor fazia perguntas, comentários, críticas, sugestões, indicava ao Tutoriado novas leituras, novos ângulos de abordagem, novas perspectivas, e ambos combinavam o que seria feito ao longo da semana que iria começar na sequência do final daquela seção. E o Tutoriado ia embora e voltava na semana seguinte com um novo Ensaio… — ou, se assim tivesse sido combinado, com o velho Ensaio, “recauchutado” ou “repaginado”!

Os Tutores e os Tutoriados moravam, ambos, ali na Universidade. Os Tutores tinham seus apartamentos, nos quais havia uma sala grande e alta, com lareira, mesa, sofás, na qual liam, escreviam, recebiam seus colegas e os Tutoriados. Embora houvesse auditórios para preleções, não havia “salas de aula”: as conversas entre o Tutor e o Tutoriado eram na sala de estar do Tutor, que podia morar com tranquilidade na universidade porque, em regra, era celibatário (se não fosse, ele morava na Universidade durante a semana e a família, fora). Os Tutores não tinham “escritórios” (offices), muito menos secretárias, computadores, redes de comunicação de alta velocidade… Os horários dos tutoriais eram marcados previamente, mas para falar com o Tutor para tirar uma dúvida não era preciso marcar hora com sua secretária, que inexistia: bastava ir até o apartamento dele e esperar a ocasião entre um tutorial e outro, ou o fim dos tutoriais do dia.

Mas o mais importante é o que Derek Brower, ex-Tutoriado de Lewis, comenta:

“O Tutor típico era um homem solteiro, que morava na Universidade, para quem ‘learning [was] a way of life‘. Ele lia, escrevia, comia, dormia no seu apartamento, e era ali que ele recebia seus Tutoriados, porque era ali que ele vivia e trabalhava, não em um escritório, com uma secretária ao lado, ou em salas de aula, com auxiliares e assistentes. O que ele fazia ali, ler, pensar, conversar, escrever, não era nem ’emprego’ nem ‘lazer’ nem ‘diversão’: era tudo parte de uma vida unificada. [ . . . ] Quando em  companhia dos seus Tutoriados, o Tutor não ‘ensinava’. Os dois conversavam e discutiam como pessoas que tinham interesses comuns em um assunto que cativava a ambos. Não era um relacionamento exata e totalmente igualitário, mas havia entre os dois uma unidade de propósitos, aprender mais sobre algo que interessava a ambos, e esse fato constituía entre eles a base de uma igualdade fundamental. O status e a idade deles diferiam bastante. Mas não tenho nenhuma dúvida de que, no meu caso com Lewis, embora eu tivesse apenas dezoito anos, e houvesse, além da disparidade na idade, uma enorme diferença de inteligência, habilidade, temperamento, e reputação entre mim e aquele senhor distinto e jovial, nós éramos pessoas de uma só espécie, engajadas numa mesma busca. E a razão pela qual eu me sentia assim quando estava com ele sem dúvida tinha que ver com a forma com que Lewis me tratava: para ele eu não era um escolar a ser ensinado e, quem sabe, disciplinado, mas um homem que vinha até ele para ler e discutir junto com ele um assunto que nos interessava aos dois. E ele me tratava assim como igual a ele com toda a naturalidade, como se nem sequer lhe passasse pela cabeça que o tratamento pudesse ser diferente.” [ Em C. S. Lewis at the Breakfast Table and Other Reminiscences, editado por James T. Como, 1979, 2a edição de 1992, p.42. A partir da terceira edição o livro passou a se chamar Remembering C. S. Lewis: Recollections of Those Who Knew Him e ganhou um novo prefácio pelo editor – https://www.amazon.com/gp/product/B00307D3WM .]

E há gente que não entende como pode haver educação superior de qualidade — da melhor qualidade — sem um artista na frente de uma sala de aula despejando informações dentro da cabeça dos alunos, sem um currículo enciclopédico que obriga, em alguns casos, os alunos a ficarem quase quarenta horas por semana sentados em uma carteira dura ouvindo um dadeiro de aula falar. Cabe perguntar: quando é que se espera que esse aluno aprenda alguma coisa?

Em Salto, 21 de Julho de 2020

A Filosofia Pré-Moderna e a Moderna

[NOTA: Este artigo é parte de um artigo maior, escrito em 2008, com o título “A Educação no Mundo Antigo e Medieval”. Tirei a parte que tratava mais diretamente da educação e mantive apenas a parte final, que procurava resumir a filosofia do mundo pré-moderno com a do mundo moderno. E revisei o material agora em Julho de 2020 para servir de fundamentação ao capítulo acerca da Educação em um livro sobre C S Lewis que estou escrevendo com meu amigo Carlos Eduardo Martins.]

o O o

Não pretendo, neste trabalho, abordar o tema elaborando uma crônica de eventos ou pessoas relevantes à filosofia da Antiguidade e da Idade Média.

Também não pretendo historiar o que pensaram eminentes filósofos do Mundo Antigo e Medieval.

Vou fazer algo, de um lado mais ambicioso, mas, de outro, menos trabalhoso: tentar capturar a essência da contribuição do Período Pré-Moderno (que inclui o Período Clássico e o Período Medieval) para a filosofia de hoje — e, indiretamente, para a educação que hoje temos.

Assim, não farei pesquisa histórica, no sentido estrito, nem exegese e crítica textual. Procurarei me situar no plano filosófico para procurar captar o que me parece ser a essência da contribuição do Período Pré-Moderno para a filosofia. Para os meus propósitos, a despeito das evidentes diferenças existentes entre o Período Clássico e o Período Medieval, eles compartilham um substrato de ideias que me parece essencial.

Assim, ao discutir a Filosofia Pré-Moderna, resumirei o que me parece ser a principal contribuição desses dois períodos, o Clássico e o Medieval, em seu conjunto, para algo que transcende a educação, embora seja extremamente importante para ela: a visão de mundo. A Antiguidade e a Idade Média estão de certo modo unidas em uma visão de mundo extremamente importante, e que serviu por muito tempo de alicerce para a cultura e o pensamento ocidental (greco-romano-cristão), e que, lamentavelmente, corre o risco de se esvair nos ceticismos e relativismos de nossa época que se pretende multicultural, na qual a razão, como padrão objetivo, perde lugar para modismos intelectuais admitidamente arbitrários.

Vou discutir, portanto, de forma resumida, a contribuição da Filosofia Pré-Moderna à chamada Cultural Ocidental — contribuição que corre sério risco de esvair.

Para entender a Filosofia Moderna é necessário contrastá-la com a Filosofia Pré-Moderna.

Repito o que já disse: embora haja consideráveis diferenças entre a Filosofia Antiga e a Filosofia Medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica que eu estou designando de Filosofia Pré-moderna, e que engloba elementos básicos e essenciais de uma e de outra.

Para a Filosofia Pré-moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na Filosofia Moderna se convencionou chamar de “mundo exterior”, a saber, a realidade externa à nossa mente, claramente não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Ninguém achava que isso precisasse ser demonstrado ou provado, porque não havia se tornado um problema.

Para a Filosofia Pré-moderna, em segundo lugar, essa realidade externa à nossa mente contém basicamente dois tipos de entidades: objetos (coisas) e fatos (o estado em que as coisas estão). Assim, objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos ou construídos pela nossa mente. O pecado capital da Filosofia Moderna está contido na afirmação de George Berkeley, um bispo, que afirmou que esse est percipii: ser é ser percebido, ou seja, uma coisa ou um fato só é, ou existe, se é percebido pela nossa mente através de nossos órgãos sensoriais.

Além disso, e em terceiro lugar, para a Filosofia Pré-moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a relação de causalidade. As relações das coisas e dos fatos entre si não são construídas pela nossa mente: elas fazem parte da realidade.

Assim, a relação de causalidade, para a Filosofia Pré-moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa outro, e isto é um fato que pode ser constatado. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contiguidade espaço-temporal que a nossa mente percebe entre coisas e fatos, como diria David Hume, já no período moderno (século 18).  A realidade comporta também as relações entre os objetos e os eventos, entre si, e, por conseguinte, a relação — ou o nexo — causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade, como presumia Emanuel Kant: a realidade já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe. É esse fato que possibilita o conhecimento — e, em última instância, a ciência.

A realidade, para a Filosofia Pré-moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos. Conquanto possam existir estados de coisas imaginários, fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos (ou afirmações) de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, ele é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, o juízo é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em quinto lugar, temos evidência da verdade ou da falsidade de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais, nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós e suas relações. Embora seja notório que às vezes nos enganamos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na filosofia Pré-Moderna. Erros de percepção, em regra, são facilmente corrigidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sexto lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade suprassensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a Filosofia Pré-moderna, em sétimo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos objetos e fatos que compõem a realidade (sensível ou suprassensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A Filosofia Pré-moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. No período pré-moderno não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, suspende ou até mesmo viola a ordem objetiva existente na realidade. Para a Filosofia Pré-moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Baruch Spinoza mais tarde): o milagre é uma suspensão ou violação da ordem objetiva existente na realidade, realizada por quem pode suspendê-la ou violá-la. Por isso é que se acreditava que milagres eram de suma importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente aconteceram ou ainda acontecem, ou não, é outra questão. Nem todos os filósofos pré-modernos acreditavam que milagres aconteceram ou aconteciam. Mas não tinham dificuldade com o conceito.

Para a Filosofia Pré-moderna, por fim, e em oitavo lugar, a pedagogia é o processo através do qual a criança é levada a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A Filosofia Moderna, iniciada por René Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Emanuel Kant e George Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Baruch Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (John Locke, George Berkeley e David Hume), infelizmente veio a questionar todos esses oito pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era considerada, pelos pré-modernos, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na Filosofia Moderna, entretanto, a razão é frequentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século 20 um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos.

Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos pontos de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem esdrúxulos e estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista. Tolerar, neste caso, não é admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão inválidos quanto os nossos.

Igualmente, o ceticismo tem sido um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as ideias de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto as ideias de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as ideias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o Budismo a partir do Catolicismo Romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. Tolerar, neste caso, não é apenas admitir que outros tenham o direito de aceitar pontos de vista esdrúxulos e estapafúrdios: é admitir que os pontos de vista dos outros são tão válidos quanto os nossos.

A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de ideias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas — e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento (em um determinado contexto), então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que defender este — e não aquele — ponto de vista? Por que criticar este — e não aquele — ponto de vista? Porque preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A Filosofia Pré-moderna (antiga e medieval) sabia como resolver essas questões. A filosofia moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infraestruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que escrever história é contar estória, isto é, construir a narrativa que mais bem nos convém; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas ou estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as interpretações decorrentes de trabalho sério e rigoroso de exegese e hermenêutica; em que auto expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra sugestionáveis (se tanto) são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

As chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da Antiguidade e da Idade Média — são hoje desprezadas. Essas leis são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da Filosofia Pré-moderna, como, por exemplo, que eram essenciais na atribuição de sentido à vida:

  • A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  • A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
  • A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da sociologia da ciência);
  • Existe conhecimento moral: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra o chamado Emotivismo Ético, etc.);
  • Existe objetividade na arte (contra o chamado Expressionismo, etc.)

No período pré-moderno havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas no período moderno. A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da visão de mundo da pré-modernidade.

Essa é a principal tese de C S Lewis na área da educação.

Em São Paulo, Agosto de 2008, revisto em Julho de 2020, publicado aqui em 11 de Julho de 2020.

Eduardo Chaves é Ph.D. em Filosofia pela University of Pittsburgh, 1972. Professor Titular de Filosofia Política e Filosofia da Educação da UNICAMP de 1974 a 2007, ele está desde o início de 2007 aposentado da UNICAMP e desde 2017 aposentado de qualquer trabalho com vínculo empregatício.

Os Períodos Letivos da Universidade de Oxford

Quem, como eu, está interessado em C S Lewis, que passou cerca de trinta e cinco anos na Universidade de Oxford (1919-1954), cerca de quatro como aluno, um como professor substituto, e trinta como professor (lá chamado de “don“), encontra, com frequência, referência aos períodos letivos (“terms“) da Universidade através de seus “apelidos”… Então resolvi escrever este breve artigo para esclarecer essa questão para o leitor brasileiro.

Oxford opera com três períodos letivos no ano, cada um de oito semanas. Isso quer dizer que a universidade, do ponto de vista de suas atividades acadêmicas, funciona apenas 24 semanas durante o ano. Como o ano tem 52 semanas, a universidade está “em recesso” durante 28 semanas. Fica mais em recesso do que em atividade.

Estando no Hemisfério Norte, o período letivo começa no Outono de lá, isto é, no finzinho de Setembro.

Os períodos letivos têm “apelidos”:

  • O primeiro período letivo é chamado de “Michaelmas“, que é uma festa do Calendário Litúrgico dedicada ao Arcanjo Miguel (Michael), que é no dia 29 de Setembro.
  • O segundo período letivo é chamado de “Hilary“, em referência ao dia de Santo Hilário de Poitiers, que é no dia 14 de Janeiro.
  • O terceiro período letivo é chamado de “Trinity“, assim chamado por causa do “Domingo da Trindade”, que, no Calendário Litúrgico, cai na oitava semana depois da Páscoa, uma data móvel, em geral em Abril ou Maio.

Todo ano a Universidade determina o dia exato em que cada período letivo começa e termina. Os períodos letivos sempre começam em um Domingo e terminam em um Sábado.

Para o ano letivo 2020-2021 o calendário está fixado, mas ainda provisoriamente, por causa da Pandemia. É o seguinte:

2020 – 2021 (provisório)

MICHAELMAS: De Domingo 11 Outubro 2020 a Sábado 5 Dezembro 2020

HILARY: De Domingo 17 Janeiro 2021 a Sábado 13 Março 2021

TRINITY: De Domingo 25 April  2021 a Sábado 19 Junho 2021

Os períodos letivos são períodos em que professores (tutores, preletores) e alunos devem estar no campus. É quando acontecem os “tutoriais” e as “preleções”. Isso não quer dizer que, no recesso, isto é, nos períodos que ficam entre os períodos letivos, professores e alunos não devam trabalhar (estudar e escrever).

A página “List of Nobel laureates by university affiliation” da Wikipedia indica que 72 pessoas ligadas à Universidade de Oxford como professores ou ex-alunos já receberam um Prêmio Nobel — operando a Universidade, do ponto de vista acadêmico, apenas 24 semanas por ano. No Brasil, em que as universidades funcionam 40 semanas por ano, ninguém nunca ganhou um Prêmio Nobel. É verdade que a Universidade de Oxford existe desde o século 12. Mas o Prêmio Nobel existe apenas desde 1895. Mesmo assim, Oxford leva certa vantagem temporal sobre as universidades brasileiras: a primeira real universidade brasileira, a Universidade de São Paulo, foi criada apenas em 1934. Mas hoje Oxford é ainda apenas uma universidade e o Brasil tem… perto de 200… (parece que 195). [Se fosse na época do Lula, o número já teria mudado enquanto eu escrevo.]

É isso.

Em São Paulo, 11 de Julho de 2020

C S Lewis, o Mito e o Cristianismo

  1. Introdução: A Questão da Racionalidade e a Tese de Popper-Bartley
  2. A Questão do Mito e da Religião: De Hume ao Jovem C S Lewis
    1. A Tese de Hume
    2.  O Jovem C S Lewis se Declara Ateu
  3. Conclusão: A Questão da Verdade e o Desafio do C S Lewis Maduro

o O o

1. Introdução: A Questão da Racionalidade e a Tese de Popper-Bartley

Uma das grandes contribuições de Karl R. Popper ao debate epistemológico foi deixar claro que há uma distinção clara, que deve ser observada, mas raramente o é, entre duas formas de encarar as ideias que ele chamava de “contexto da descoberta” e “contexto da validação”.

Uma coisa é procurar entender como uma ideia surge (é descoberta ou é inventada), explicando a “gênese” da ideia, seja na história, seja na sociedade, seja na mente do indivíduo. Para ele, disciplinas acadêmicas como história, sociologia e psicologia frequentemente procuram mostrar isso. Essas três disciplinas pretendem, hoje, ter caráter científico.

Outra coisa é procurar determinar se uma ideia, conjetura, hipótese, tese, doutrina, teoria, visão de mundo, independentemente de como ela surgiu, é válida, justificada, verdadeira, sobre que fundamentos e evidências se sustenta, etc.

Para Popper, a epistemologia, que é uma disciplina acadêmica, que se caracteriza como parte da filosofia, e não da ciência, se ocupa das ideias, apenas e tão somente, no contexto da validação. No entender de Popper, o contexto da descoberta não tem interesse nenhum para a epistemologia. [Por isso, é uma lástima que seu primeiro livro publicado, em Alemão, com o título de Logik der Forschung (Lógica da Pesquisa, Lógica da Investigação) tenha sido traduzido para o Inglês com o título de The Logic of Scientific Discovery. Houve duas impropriedades na tradução do título, se encararmos a linguagem com seriedade. Primeira: em vez de “Discovery”, deveria estar “Research” ou “Investigation”. Segunda: o termo “Scientific” surgiu do nada, não está no título original.]

Pode-se tentar argumentar que o conteúdo do livro são as ciências naturais, em especial a Física, e isso seria verdade. Mas a tese Popperiana não se limita às ciências naturais, muito menos apenas à Física. Aplica-se também às Ciências Biológicas e às Ciências Humanas e Sociais. No próprio livro em foco, ele discute o Marxismo, que se pretende científico, dentro das Ciências Humanas e Sociais (consistindo principalmente de teses históricas e sociológicas), e a Psicanálise, que alguns pretendem seja parte das Ciências Humanas. Popper tenta mostrar, no livro, que as principais teses do Marxismo e da Psicanálise não são válidas, porque são falsas, já tendo sido testadas empiricamente e refutadas pelos fatos. O critério de validade que Popper propõe e utiliza é centrado na testabilidade empírica de uma ideia, etc. e sua falsificabilidade por fatos — “testabilidade” significando que é possível submeter a ideia a testes, de preferência rigorosos, em um contexto empírico, e “falsificabilidade” significando que é possível, em princípio, mesmo que não ainda nas condições existentes, que fatos a refutem. Como as ciências, em geral, se pretendem válidas, e prometem revelar a verdade sobre a realidade, o fato de ideias, que se pretendem científicas, terem sido testadas empiricamente e falsificadas, isto é, desmentidas pelos fatos, prova que elas são falsas, e, por conseguinte, não podem ser consideradas válidas e pleitear a nossa aceitação.

Em escritos subsequentes, Popper aplica sua tese à Biologia, à Teologia, e a outras áreas. Na verdade, ele propunha que sua tese, que ele veio a chamar de Racionalismo Crítico, tivesse aplicação universal — isto é, se aplicavasse a qualquer tipo de ideia.

[Em um parêntese, houve até um desentendimento entre Popper e o meu orientador de doutorado, que havia sido orientado por Popper no doutorado dele, Willliam Warren Bartley, III (W.W. Bartley, III), decorrente do fato de que Bartley levantou a questão se o Racionalismo Crítico de Popper, aplicado a si mesma, se revelava testável e falsificável. Popper, em um primeiro momento, chegou a admitir, em The Open Society and its Enemies, livro subsequente, publicado ao final da Segunda Guerra, que o Racionalismo Crítico era um postulado ou pressuposto fundamental, essencial mesmo, de qualquer discussão de ideias e, por causa disso, a sua teoria não poderia ser aplicada a si mesmo sem que se cometesse a falácia do petitio principii — pressupor aquilo que se deseja demonstrar ou provar. Para Popper, a opção pela racionalidade crítica é um comprometimento último (ultimate commitment) inevitável de qualquer pessoa que se pretenda racional e crítica, e que, como tal, pode até ser descrito como um ato de fé.  Bartley questionou essa explicação de Popper em seu livro Retreat into Commitment, que causou razoável mal estar no arraial popperiano e temporariamente interrompeu o excelente relacionamento de Popper com Bartley (que era considerado in pectore o seu “discípulo amado” — condição que voltou a ter, quando fizeram as partes, tanto que Bartley foi escolhido por Popper para ser o seu Literary Executor, ou Testamenteiro Literário).

Para quem aceita a tese ou teoria popperiana, como o qualificativo bartleyano, de que o Racionalismo Crítico pode e deve ser aplicável a si mesmo, no sentido de que, se qualquer pessoa vier a refutar a tese ou teoria, as pessoas que a adotam serão obrigadas a rejeitá-la, segue uma série de implicações, algumas das quais ficarão claras na sequência.

2. A Questão do Mito e da Religião: De Hume ao Jovem C S Lewis

Minha tese de doutorado, orientada por Bartley, foi sobre David Hume, o filósofo escocês, e seu tratamento filosófico-epistemológico da teologia e da religião.

Na época de Hume, o século 18, o sustentáculo da teologia, o que supostamente lhe dava validade e credibilidade, era o binômio razão e revelação (vide Tomás de Aquino, John Locke, etc.): a razão era manifestada, principalmente, nos argumentos filosóficos para demonstrar a existência de Deus, em especial no chamado argumento empírico, ou a posteriori, baseado na ordem, ou design, a saber, o ajuste perfeito entre meios e fins, que a própria ciência natural viria demonstrando existir no universo, e a revelação era manifestada, na Bíblia, pelo registro de que Jesus de Nazaré realizou inúmeros milagres, que comprovariam a veracidade de suas afirmações e reivindicações. Note-se que esses dois pilares eram usados para supostamente demonstrar a veracidade, e, por conseguinte, a validade, da teoria ou visão cristã do mundo.

Hume, como eu procurei demonstrar na minha tese, destruiu essa tese teológica relativa aos dois pilares da teologia As evidências e os argumentos que Hume usou contra essa tese não vêm ao caso aqui. O que quero ressaltar é que a maior parte da crítica humeana à teologia é feita dentro do contexto da validação.

No entanto, Hume, estando convencido de que havia mostrado que a teologia cristã não tinha qualquer sustentação filosófico-epistemológica, e, por conseguinte, não poderia ser considerada válida e verdadeira, saiu da epistemologia e da filosofia e entrou na história e na sociologia (ele também era historiador, autor de uma das mais famosas Histórias da Inglaterra) para investigar como é que tanta gente, no mundo inteiro, acreditava na religião cristã, e aceitava alguma forma de teologia cristã, se as teses fundamentais do Cristianismo eram clara e evidentemente insustentáveis, do ponto de vista filosófico-epistemológico.

(Na realidade, Hume supunha ou conjeturava que a religião era um fenômeno universal, e que as conclusões a que ele havia chegado acerca do Cristianismo seriam alcançadas, mutatis mutandis, na investigação de outras religiões também. Mas ele só havia investigado a cristã.)

Em seu livro A Natural History of Religion, Hume propôs uma teoria científica, ou pré-científica, da religião, em geral. O termo “natural” aqui indica que, nesse livro, ele estava operando no contexto da descoberta, não no contexto da validação, embora ele, evidentemente, tenha formulado uma conjetura ou teoria e procurado levantar evidências empíricas que lhe davam sustentação, mostrando, ao mesmo tempo, não haver evidências que a refutassem.

O que vou resumir aqui, na primeira parte deste capítulo, são as ideias propostas por Hume que, como dizia Rubem Alves,  eu, ao ler sua obra, ingeri, mastiguei, degluti, e, me livrando do que não me servia, incorporei o resto ao meu DNA.

Na segunda parte deste capítulo, vou tentar relacionar esta discussão, envolvendo Popper e Hume, na discussão das ideias de C S Lewis acerca do mito e da religião cristã.

A. A Tese de Hume

Segundo Hume, que era um estudioso da natureza humana (seu livro mais importante se chama A Treatise of Human Nature), faz parte da natureza humana querer entender o mundo em que o ser humano vive. Por isso, ele se faz perguntas.

Ele se pergunta, por exemplo, como é que surgiu este mundo em que vivemos, a Terra, bem como o céu, o Sol, a Lua e as estrelas. Ele se pergunta como é que surgiram, aqui na Terra, os seres vivos, as plantas, os animais, em geral, o ser humano. Ele se pergunta se existem outros seres vivos que são puramente espirituais, e que não têm corpo, por conseguinte não sendo visíveis, etc. Ele se pergunta por que algumas pessoas são bem sucedidas na vida, e outras, não, por que algumas são religiosas e outras, não, etc.

Mas não há nenhum sentido em fazer perguntas como essas se a gente não tentar encontrar ou formular respostas para elas. Essas respostas em geral são formuladas na forma de conjeturas, hipóteses e teorias, que vão se fundindo em histórias e narrativas, que, oportunamente, se tornam formas razoavelmente complexas de ver e entender o mundo.

As primeiras respostas são tipicamente antropomórficas. Conjetura-se que as coisas aqui na Terra são como são porque há seres espirituais, invisíveis e intangíveis, que controlam o que aqui tem lugar. Só que é muito difícil imaginar um ser puramente espiritual, totalmente invisível e intangível. Assim sendo, os seres espirituais acabam recebendo características humanas, não só mentais (como conhecimento, sabedoria, criatividade, imaginação, capacidade de interpretar coisas que parecem obscuras, etc.) e emocionais (como coragem, amor, inveja, despeito, ciúme, raiva, ódio, vingança, etc.) e até mesmo corpóreas (Zeus, o deus mais importante, só pode ser forte e poderoso; Afrodite, a deusa da beleza, só pode ser linda; Vênus, a deus do amor e do sexo só pode ter uma aparência cativante e sedutora; Baco, o deus do prazer, só pode ter uma cara meio debochada, etc.). Usei aqui exemplos da mitologia grega, mas as mitologias nórdicas, romanas, etc., não são muito diferentes.

Essas mitologias mais primitivas são todas, invariavelmente, politeístas, como Hume perspicazmente apontou. Pode haver um deus maior, que de certo modo comanda o restante, mas há deus para cada dimensão da vida: a caça, a pesca, o colhimento de frutos das árvores ou do chão, etc. Até, assim que os humanos se tornaram sedentários, e começaram a cultivar plantas para seu sustento e a domesticar e criar animais para seu sustento e para seu uso em outros áreas, havia um deus para a agricultura e para a agropecuária.

Não só cada atividade tinha seu deus, mas cada povo tinha a sua coleção própria de deuses, o seu Olimpo.

A grande inovação do povo semítico, que se tornou o povo judeu, foi, de certo modo e até certo ponto, simplificar a sua mitologia, nela inserindo apenas o deus maior, que seria o criador, sustentador e controlador de tudo, centralizando o poder criador, sustentador e controlador (o que posteriormente se chamou de providência). Mas, inicialmente, esse deus maior tinha uma série de seres espirituais subordinados (anjos), dentre os quais um se insubordinou (Lucifer) e acabou levando vários com ele (espíritos maus), criando um centro de anti-poder, e estabelecendo um conflito permanente entre o Bem e o Mal. Mas os judeus nunca deixaram de crer que o deus do bem era maior e mais poderoso do que o(s) outro(s) e, no final o(s) venceria, e que o deus do mal, de certo modo, operava dentro de limites que lhe eram fixado pelo deus maior… A serpente, no entanto, representando o poder do mal, conseguiu seduzir os primeiros humanos criados, fazendo com que desobedecessem o deus maior… O resto da história — um drama! — é conhecido.

 Na mitologia judaica, não há, inicialmente, um monoteísmo muito forte e coerente. Reconhece-se a existência de outros deuses, mas sente-se a necessidade de adorar apenas o deus maior, que se acredita mais forte e poderoso (mesmo que, em diversos momentos, haja algum tipo de apostasia). “Não terás outros deuses diante de mim” é o primeiro mandamento do conjunto de mandamentos do deus maior, mas ele é um mandamento que assume que existem outros deuses, mas que eles não devem ser seguidos e adorados… Além disso, há o chefe maior do antipoder (com poder até certo ponto delegado), que tenta subverter a autoridade do principal e maior deus judeu… Gradativamente, à medida que as crenças dos judeus foram evoluindo, o monoteísmo foi se aperfeiçoando, no entanto…

Quando surge o Cristianismo, originalmente como uma seita judaica, este deus maior dos judeus é adotado e apropriado, mas, com o tempo, ele ganha um filho, e, com mais tempo, o filho se torna um igual do pai, e ganha um sucessor, que com o Filho e o Pai formam um Triumvirato — ou melhor, uma Trindade… Parece que o politeísmo é ressuscitado dentro do Cristianismo, mas os cristãos consideram que o “Triteísmo” é uma heresia, e que o que há é uma Trindade, que é uma entidade só — um deus só — mas composto de três pessoas diferentes… Convenhamos que a mitologia cristã é uma complicação considerável quando comparada com a mitologia judaica.

É assim, enfim, que surgem os mitos, que geram narrativas originalmente poéticas e, depois, se convertem em prosa, e, gradativamente, se tornam, tanto quanto possível, teses filosóficas… O termo “mitopoético” vem daí. As narrativas em prosa, com o tempo, se tornam filosofia, ou uma parte da filosofia que pode ser chamada da teologia…

O resto nós também conhecemos.

B. O Jovem C S Lewis se Declara Ateu

Quando C S Lewis nasceu, no finzinho do século 19, a mitologia cristã já havia se tornado Teologia sofisticada há muito tempo. Toda a narrativa dessa mitologia havia se transformado em uma série de teses históricas e filosóficas (vale dizer, teológicas).

Inteligente como ele era, e com uma mente que, além de inteligente, era altamente imaginativa e criativa, C S Lewis muito cedo, por volta dos cinco anos, começou, aproveitando leituras de textos da mitologia grega, romana e, principalmente, nórdica, a inventar histórias com seres imagináveis, nem todos muito parecidos com humanos, muito deles assumindo a forma de animais. Muito cedo mesmo, antes até de ele ir para a escola, o que se deu quando tinha quase dez anos. Suas produções originais eram, talvez, risíveis, quando lidas da perspectiva dos adultos. Mas ele era uma criança, com uma idade em que, no Brasil, a maior parte das crianças nunca leu um livro inteiro ainda, e, algumas, nem conseguiriam ler um livro, ainda que o desejassem.

C. S. Lewis nasceu na Irlanda, em 29.11.1898 — no final do século 19. Na plano da História das Ideias, muita gente dá mais importância ao século 18, o chamado Século das Luzes — donde o Iluminismo — e a Idade da Razão, em que imperaram o Racionalismo, o Empirismo, o Criticismo, do que ao século 19, século em que imperaram o Romantismo e o Utilitarismo e surgiu o conflito entre o Liberalismo e o Socialismo. Mas o século 19 é também o século em que Feuerbach afirmou que, longe de ser o homem uma criação de Deus, Deus é que era uma criação do homem, e a teologia não passava de uma antropologia disfarçada; em que Marx declarou que a religião era o “ópio da sociedade”, um conjunto de ideias, valores e práticas que dessensibilizava o homem em relação à sua opressão e à sua miséria; e em que Nietzsche proclamou a “morte de Deus”… A. N. Wilson, o mesmo biógrafo que escreveu uma biografia em que critica bastante a teologia de C. S. Lewis, também escreveu uma “biografia” do século 19, a que deu o título de God’s Funeral (Norton, New York & London, 1999 — cento e um anos depois do nascimento de Lewis).

Na história de sua conversão do Ateísmo para o Cristianismo, que acabou sendo uma autobiografia que cobre a primeira metade de sua vida, Surprised by Joy: The Form of my Early Life, publicada em 1955, C. S. Lewis descreve e, até certo ponto, interpreta, sua infância, adolescência e juventude. Sua conversão para o Cristianismo é em geral tida como concluída por volta de 1931, quando ele tinha de 32 para 33 anos. O livro foi publicado em 1955 — quando ele tinha 56 anos. Muito tempo depois, mas Lewis tinha uma memória fenomenal.

C. S. Lewis nasceu em Belfast, na província de Ulster, em um lar cristão, no Norte da Irlanda (que ainda não era formalmente a Irlanda do Norte porque a Irlanda não havia ainda se dividido em dois países). Belfast era naquela época (1898) a maior cidade do Norte da Irlanda — a parte predominantemente protestante (vale dizer, anglicana) da Irlanda, que veio a se dividir em dois países nos anos 1920-1923. Na divisão, a parte maior da Irlanda, constituída pelo Centro e Sul da Ilha da Irlanda, se tornou um país autônomo e independente, que hoje é chamado de a República da Irlanda. A parte que se separou e se proclamou independente do Reino Unido era predominantemente católica (quase 80% da população é ainda católica). Os pais de Lewis eram membros da Igreja Anglicana, que, por causa do conflito com a Igreja Católica, majoritária na parte Sul da Irlanda, era, possivelmente, mais protestante do que a Igreja Anglicana da própria Inglaterra, que era predominantemente protestante e não sofria tanto o antagonismo dos católicos como o Norte da Irlanda, em que católicos e protestantes simplesmente se detestavam. Muitos, no Norte da Irlanda, questionavam até mesmo se os católicos eram cristãos…

Lewis afirma que ambos os seus pais, mesmo que não fossem exatamente ricos e cultos, eram bem de vida, no aspecto financeiro, e bem letrados e livrescos, no aspecto cultural. Eles eram chegados à leitura e aos livros, bem como à boa música. Ambos os pais de Lewis haviam feito curso universitário — a mãe mais chegada para a matemática e a lógica, mas uma leitora voraz de grandes romances, como os de Tolstói (gosto C. S. Lewis herdou), e o pai,  mais chegado para o direito. Segundo Lewis, se seu pai tivesse tido um nível socioeconômico mais elevado, e tivesse um senso de humor menos agressivo, poderia ter sido um político parlamentar, pois tinha grande presença, voz altissonante, dom para oratória e eloquência, capacidade de argumentação e rapidez de raciocínio, bem como excelente memória (características e competências que C. S. Lewis certamente herdou).  As experiências de cunho estético e artístico de C S foram poucas, fora da música, nessa primeira fase de sua vida.

Eis como Lewis descreve sua relação com a religião na infância:

“Se minhas experiências estéticas foram raras, experiências religiosas simplesmente inexistiram em minha infância. Algumas pessoas ficaram com a impressão, ao ler meus livros, que eu fui criado em um ambiente bastante puritano, cheio de restrições e exigências. A impressão não corresponde aos fatos. Meus pais me ensinaram as coisas costumeiras acerca da religião cristã, instavam para que eu fizesse minhas orações, e, no devido tempo, frequentasse a igreja. Eu naturalmente aceitava o que se esperava de mim, mas não consigo me lembrar de que tivesse muito interesse por essas práticas religiosas convencionais. Meu pai, longe de ser puritano, tinha preferências mais próximas de uma religiosidade mais formal (high church), quase o oposto daquela que mais tarde eu vim a adotar. Ele gostava de tradições e rituais e apreciava a beleza da linguagem contida na Bíblia e no Livro de Orações (coisas que eu só vim aprender a apreciar bem mais tarde em minha vida). Ele também era pouco chegado a questões teológicas e metafísicas. Da religião de minha mãe eu não consigo me lembrar de quase nada. Mas, em resumo, a religião da minha infância nada teve que me levasse a me interessar por um outro mundo”.

Não houve experiências religiosas, mas houve livros. Em 1905, ano em que ele ia fazer sete anos, a família de C. S. Lewis se mudou para uma casa bem maior, que, para a criança, mais parecia uma cidade do que uma casa.

“Nela havia livros por toda parte. Meu pai comprava todos os livros que ele resolvia ler e nunca se livrava de nenhum livro, depois de lê-lo. O resultado é que havia livros em seu escritório, livros na sala de lazer, livros (em duas fileiras) nas grandes estantes  dos halls e corredores, livros nos quartos de dormir, livros no banheiro, livros em pilhas da minha altura no sótão, livros de todos os tipos, refletindo todos os estágios dos diversos interesses, ainda que passageiros, de meus pais — livros apropriados para a leitura por crianças e livros enfaticamente não apropriados para elas. Mas nenhum dos livros me era proibido por meus pais. Nas tardes chuvosas, aparentemente intermináveis, eu ia pegando volume atrás de volume das estantes. E tinha sempre a certeza de encontrar um livro cujo conteúdo fosse novo para mim, da mesma forma que uma pessoa que entra em um campo tem certeza de encontrar diversos tipos de vegetação que nunca viu antes. Nunca me ocorreu onde é que todos aqueles livros estavam antes de nos mudarmos para a casa nova — até que eu comecei a escrever este parágrafo. Não tenho a menor ideia de qual seja a resposta.”

Entrementes, o irmão de C. S. Lewis, três anos mais velho, foi mandado para um internato, e uma nova fase de sua educação começou — em casa mesmo. Sua mãe lhe ensinava Latim e Francês, e ele ganhou uma governanta excelente — só que presbiteriana… Foi com ela que, em pequenos sermões entremeados aos exercícios de aritmética e de leitura e escrita, ele veio a ter conhecimento da existência “de um outro mundo”, um mundo de ajuste de contas, em que receberíamos punições e recompensas por nossas ações neste mundo, dependendo de como viessem a ser julgadas as nossas ações (e até os nossos pensamentos!). Mas o principal de sua educação veio de suas leituras e da colocação em prática de seus interesses, alimentados por uma prodigiosa imaginação.

Uma dificuldade nos polegares (cuja principal junta não dobrava, em ambas as mãos), provavelmente herdada de seu pai, fez com que C. S. Lewis tivesse dificuldade para fazer coisas com as mãos (trabalhos manuais) — mas não o impediu de escrever (porque, quando se escreve, essa junta não é flexionada), e isso fez com que ele, cada vez mais, se dedicasse à leitura e à escrita, e não a atividades manuais ou de cunho prático e utilitário. A ausência do irmão na casa fez com que ele, na solidão decorrente de ser a única criança em uma casa enorme, recorresse à imaginação. Suas primeiras histórias, sobre animais, bem como sobre cavaleiros em armaduras, começaram a ser escritas bem cedo. E elas versavam sobre uma realidade imaginária que ele chamou de “Terra dos Animais”. Entre seis e oito anos ele vivia mais dentro dessas realidades construídas pela sua imaginação do que na “realidade real” de sua vida doméstica, sem muita companhia interessante. O menino se ensimesmou. Passou a viver mais na realidade criada pela sua mente do que naquela realidade que lhe era imposta pelo mundo exterior.

Começa aí seu interesse por mitos e outras histórias fantásticas — que ele sempre reconheceu como tendo sido criadas pela imaginação de alguém, e, por conseguinte, não como histórias verídicas, mas como histórias inventadas… Uma história inventada não é como uma fantasia em que você acredita ou faz de conta que está participando. Na história inventada você é o criador daquele mundo, não um personagem que está dentro dele, como no caso da fantasia. Na história inventada você está em controle, porque foi você que a criou — e é você que tem o poder de alterar a história e mexer no mundo criado, à vontade. Mais ou menos como se supõe, no Cristianismo, que Deus faz na história. As histórias que C. S. Lewis começou a inventar bem antes de chegar aos dez anos foram seu primeiro laboratório para se tornar um escritor de ficção. E esse ambiente lhe deu certeza de que mitos são criados por alguém — ou seja, são inventados. Por conseguinte, não são verdadeiros como a narração de uma viagem éou pode e deve ser. Os mitos não são descrições de ambientes e situações reais que existiram e aconteceram em mundos diferentes do nosso, e inacessíveis a nós: eles são invenções humanas, destinadas a dar sentido à realidade que nos cerca e, assim, a explicá-la.

Nesse contexto, em que ele era uma criança feliz e sem maiores problemas, veio a morte prematura de sua mãe. A partir desse triste acontecimento, C. S. Lewis teve de aprender a lidar, sozinho e solitariamente,  com o sofrimento causado pela ausência súbita da mãe… O pai tinha o seu próprio sofrimento para resolver. E Lewis, sensível, tinha de aprender a lidar com tudo aquilo que o sofrimento do pai, subitamente viúvo, e tendo de terminar de criar dois meninos, causou em seu comportamento em relação aos filhos – em especial em seu maior distanciamento deles.

A criança foi obrigada pelos parentes a ver a mãe morta. E ouviu — e foi isso que lhe causou maior horror — gente dizer que a mãe dele estava linda no caixão. Diz ele:

“Até hoje não consigo entender o que as pessoas querem dizer quando afirmam que uma pessoa morta, no caixão, está linda. O mais feio dentre os homens, desde que vivo, é um anjo de beleza quando comparado com o mais lindo dos defuntos. . . .  A isso eu reagia com horror.”

Ele continua:

“A morte de minha mãe foi a ocasião em que, segundo alguns (mas não na minha própria opinião), eu teria tido minha primeira experiência religiosa. Quando o caso dela ficou extremo, e se perderam todas as esperanças, eu me lembrei do que me havia sido ensinado, a saber, que as orações feitas com fé seriam atendidas. Assim sendo, forcei-me a produzir, por pura força de vontade, uma crença firme de que minhas orações pela recuperação de minha mãe seriam atendidas. E, se viessem a ser atendidas, eu teria conseguido a recuperação dela! Quando, no entanto, ela morreu, eu mudei de ponto de vista e passei acreditar que um milagre ainda iria acontecer para trazê-la de volta. Mas o meu desapontamento não produziu nenhum outro resultado além de si próprio. A coisa não funcionou. Mas eu estava acostumado a coisas que não funcionavam e, por isso, deixei de pensar na questão. Creio que a verdade é que a crença, que eu havia como que sido hipnotizado a aceitar, era irreligiosa demais para que seu fracasso pudesse produzir em mim uma revolução religiosa. Eu havia imaginado um Deus, ou uma ideia de Deus, sem amor, sem temor, sem medo. Em minha imagem mental do milagre que eu esperava, Deus não era nem Salvador nem Juiz, mas apenas um mágico. E eu imaginava que, quando ele fizesse a mágica que eu esperava dele, ele simplesmente iria embora! . . . Com a morte de minha mãe, tudo que era uma felicidade tranquila e confiável em minha vida desapareceu. Eu iria ainda me divertir, ter prazeres, ter momentos de alegria. Mas a segurança que eu sentia antigamente, esta desapareceu por completo.  .  .  . “.

Aqui fala Lewis em 1955, ocasião em que já faz cerca de 24 anos que se converteu (ou foi convertido) ao Cristianismo. Tudo isso, e as experiências que ele em geral considerou horríveis, quando foi para a escola, cobraram o seu preço.

Um pouco de câmara rápida.

Depois de passar rapidamente, de 1908 a 1910, por duas escolas que ele detestou, Lewis mudou, em Janeiro de 1911 para uma escola chamada Cherbourg House (que, em sua autobiografia, ele chama de Chartres), em Malvern, Worcestershire, na Inglaterra. Ele até gostou um pouco dessa escola. Ele tinha 12 anos completos quando chegou lá (embora em sua autobiografia da primeira metade de sua vida, Surprised by Joy, capítulo 4, ele afirme que em Jan 1911, ele “tinha acabado de fazer 13 anos”, o que é um erro: ele havia acabado de fazer 12 anos em 29.11.1910). Ali, em Cherbourg House, diz ele, também em sua autobiografia, “realmente começa a minha educação“.

Enquanto frequentava Cherbourg House, Lewis admitiu “ter deixado de ser um cristão“. O momento em que ele descobriu isso não é identificado com precisão. Diz ele, na autobiografia: “A cronologia desse desastre é um pouco vaga, mas eu tenho certeza de que o processo não havia começado quando eu cheguei lá, e estava completo logo depois que eu de lá saí“. Lewis saiu de Cherbourg House (Chartres) em meados de 1913, para ir para o Malvern College, na mesma cidade — na verdade, quase em frente da Cherbourg House.

A partir de Setembro de 1913, Lewis estudou no Malvern College por um ano (ele detestou a escola, que seu irmão havia adorado), e em Setembro de 1914 foi estudar, em um sistema “one-to-one“, com um conhecido tutor, William T. Kirkpatrick, em Great Bookham, Surrey, Inglaterra. Kirkpatrick, um ex-presbiteriano, que havia se tornado ateu, havia sido tutor de seu irmão mais velho, Warren, garantindo que ele entrasse na Academia do Exército, como desejava, e, muito tempo antes, professor de seu pai, Albert Lewis, na infância deste. A experiência de estudar com Kirkpatrick foi marcante para o desenvolvimento intelectual de Lewis. Ele ficou lá até Abril de 1917.

Ao final de seus estudos com Kirkpatrick, em 12.10.1916, quando C. S. Lewis estava bem próximo de completar 18 anos, e estava a cerca de seis meses de concluir sua educação básica (pré-universitária), necessária para ele entrar na universidade, ele admitiu, em carta para seu único, e, por conseguinte, o melhor amigo de infância (Arthur Greaves), que ele era ateu — e declinou claramente as suas razões. Disse ele:

“Não acredito em nenhuma religião. Não há, absolutamente, nenhuma prova para nenhuma delas, e, do ponto de vista filosófico, o Cristianismo não chega nem mesmo a ser a melhor delas. Todas as religiões, isto é, todas as mitologias, vamos chamá-las pelo nome correto, são meras invenções do ser humano”. [Apud Green & Hooper, C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, p.9; ênfases acrescentadas. Tradução minha.]

Fantástica e significativa essa passagem… Bem na linha do que foi dito atrás, sobre a gênese das ideias religiosas.

Não parece haver nenhuma dúvida aí. Se dúvida ele havia tido, ela já havia evoluído (ou, quem sabe, “involuído”) para uma certeza bastante firme: religiões não passam de mitos, que, por sua vez, são invenções humanas. Deus não existe, na realidade, sendo também uma criação humana. (Avento a possibilidade de que tenha havido uma “involução” porque, pessoalmente, acho preferível uma dúvida a uma certeza dogmática que pode estar errada.)

Isso foi dito, com todas as letras no final de 1916. Lewis chegou a Cherbourg House em Janeiro de 1911. Na autobiografia ele afirma que ainda era cristão quando chegou lá. Mas também afirma que, logo depois de ter saído de lá, em meados de 1913, o processo de descristianização estava concluído. Mas, possivelmente, ainda acreditava em Deus. A questão não fica clara. Nos três anos que se passaram entre Setembro de 1913, quando entrou no Malvern College, e Outubro de 1916, quando escreveu para Arthur Greeves, ele havia se tornado um ateu convicto e maduro.

3. Conclusão: A Questão da Verdade e o Desafio do C S Lewis Maduro

Vimos, na segunda parte do capítulo anterior, como Lewis “descobriu” o ateísmo e passou a aceitá-lo. Sua evolução intelectual aqui foi no “contexto da descoberta”. As razões que ele apresenta (mas não defende) para o seu ateísmo, na sua carta para Arthur Greaves, são:

  • Todas as religiões são mitos, e, portanto, não passam de invenções humanas;
  • Sendo inventadas pelo ser humano, não existem provas de que elas são verdadeiras;
  • A chamada “excepcionalidade” do Cristianismo não se justifica, porque o Cristianismo nem é mesmo a melhor das religiões.

Nos quinze anos seguintes de sua vida, dos 16 aos 31 anos, C S Lewis teve de viver e lidar com esta sua conclusão — operando, agora, no contexto da validação.

Para mudar de opinião, ele teve a alternativa de, ou de negar que todas as religiões são mitos e não passam de invenções humanas, sendo impossível considerá-las verdadeiras, ou, então, de, reconhecendo a verdade de que todas as religiões são mitos, encontrar, no caso do Cristianismo, uma excepcionalidade que justificasse a sua conversão para o Cristianismo.

Sua conversão foi progressiva, e em estágios. Ele reconheceu, primeiro, que faz sentido acreditar que haja uma força superior responsável por sustentar e controlar o mundo, em geral, e a nossa vida, em particular. Reconheceu, em segundo lugar, que essa força superior tem muitos aspectos em comum com o Deus dos Judeus e dos Cristãos. Faltava-lhe, agora, acreditar, em terceiro lugar, na história (estória?) de que essa força superior é pessoal, que é Deus, tem um filho, que esse filho se encarnou em um homem, Jesus de Nazaré, que, além de homem verdadeiro  também é verdadeiramente Deus, que a morte desse homem na cruz expia pecados, e que ele ainda vive, tendo sido ressuscitado por seu Pai e estando à sua mão direita nos céus, de onde um dia julgará os vivos e os mortos. Ou seja: a parte mais filosófica do caminho já estava percorrida no início de 1931. Mas faltava-lhe ainda percorrer a parte mais mitológica, e, por isso, mais difícil de considerar verdadeira. Negar que tudo isso fosse mito lhe parecia impossível.

Depois de uma longa conversa em 19.9.1931 (que atravessou a noite e chegou ao domingo 20.9.1931), com seus amigos J R R Tolkien, o autor de The Lord of the Rings, ele próprio um católico convicto e praticante, e Hugo Dyson, conversa que Lewis ficou ruminando nos dias seguintes, ele deu o passo que lhe faltava. Eis como ele o descreve, dois meses depois, em carta de 18.11.1931 para seu amigo Arthur Greeves (sempre ele!):

A estória (sic) de Cristo é simplesmente um mito verdadeiro: um mito que opera em nós da mesma forma que os outros mitos operam, mas com a tremenda diferença de que ela realmente aconteceu. [ . . . ] Essa estória é o mito de Deus, enquanto os outros mitos, os pagãos, são mitos de homens.” [Apud Green & Hooper, C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, p.116; ênfases acrescentadas; tradução minha.]

Em outro artigo discutirei esse caminho árduo percorrido entre 1916 e 1931 e analisarei essa conclusão que C S Lewis chegou – que não é tão simples, nem tão fácil de justificar como ele faz parecer.

Em Salto, 8 de Julho de 2020

Dois Tipos de Amigos que Toda Pessoa Deve Ter, segundo C S Lewis

Em Surprised by Joy, a autobiografia de seus anos iniciais, C S Lewis faz um comentário extremamente instigante sobre dois de seus melhores amigos, Arthur Greeves e Owen Barfield — que eram pessoas totalmente diferentes uma da outra. Mas ele gostava dos dois. E, segundo nos confessa, precisava dos dois. Eis o que ele diz, no capítulo 13, num tom que alguns vão considerar meio machista:

“Há um sentido em que Arthur [Greeves] e [Owen] Barfield (*) são os tipos ideais de Primeiro Amigo e de Segundo Amigo que todo homem [sic] deve ter. O Primeiro Amigo é seu alter ego, aquele homem que primeiro lhe revela que você não está sozinho no mundo, que você tem alguém com quem pode compartilhar todas as coisas mais deleitáveis da vida. Não há nenhum obstáculo que precisa ser vencido para os dois serem amigos: ele e você se juntam como duas gotas de chuva numa vidraça. Mas o Segundo Amigo é o homem que discorda de você em relação a praticamente tudo. Ele não é seu alter ego: ele mais parece o seu anti-ego. Naturalmente que ele compartilha seus interesses — não houvesse esse mínimo de comunidade, ele nem seu amigo seria. Mas ele aborda todos os interesses comuns sempre de um ângulo ou perspectiva diferente. Ele já leu todos os livros certos — mas conseguiu tirar a lição errada de todos eles… É como se ele falasse a mesma língua que você, mas pronunciasse errado todas as palavras… Você se pergunta: como é que ele pode chegar tão perto do certo e, contudo, invariavelmente, estar tão errado? Ele é tão fascinante (e irritante) quanto uma mulher. Quando você tenta corrigir as heresias dele, você descobre que, na realidade, é ele que está a corrigir as suas! E assim vocês continuam, os dois, cada um com suas ferramentas favoritas, noite adentro, noite após noite; ou, quando vocês estão fora de casa, andando em meio a uma paisagem linda, nenhum dois dois consegue apreciar a beleza do entorno, mas só se preocupa em como absorver da melhor maneira possível as porradas do outro, olhando um para o outro mais como inimigos que se respeitam do que como os amigos que na realidade são. Na verdade, embora isso na hora não pareça ser verdade, vocês dois estão pouco a pouco modificando o pensamento um do outro. Dessa briga perpétua entre cachorros grandes, emerge uma comunhão de mentes que só faz aprofundar a afeição mútua. Mas eu creio que ele [Barfield] me mudou bem mais do que eu a ele. No entanto, muito do pensamento que ele mais tarde colocou em seu livro Poetic Diction já tinha passado pela minha mente antes de aparecerem naquele importante livro dele. Seria estranho se não tivesse… Ele naturalmente não era tão erudito então como se tornou depois, mas o gênio já estava lá presente nele”.

A tradução (meio livre) é minha.

(*) Arthur Greeves é amigo de infância… Por isso Lewis se refere a ele como “Arthur”. Owen Barfield é amigo de escola e colega de profissão. Por isso Lewis se refere a ele como “Barfield”, pelo sobrenome e não pelo prenome. Mas os dois eram amigos. Em relação a Lewis, os familiares e os amigos de infância o chamavam de Jack. Os amigos de escola e os colegas de profissão, Lewis ou, então, se eram também amigos íntimos, Jack. O restante das pessoas o chamava de Mr. Lewis.

Em Salto, 7 de Julho de 2020.

Cronologia do Essencial da Vida de C S Lewis

1862 (18 Mai) – Nasce Florence (Flora) Augusta Hamilton, que virá a ser a mãe de C S Lewis, em Queenstown, Irlanda.

1863 (23 Ago) – Nasce Albert James Lewis, que virá a ser o pai de C S Lewis, em Cork, Irlanda.

1894 (29 Ago) – Albert Lewis e Flora Hamilton se casam, em Belfast, Irlanda.

1895 (16 Jun) – Nasce Warren Hamilton Lewis, em Belfast, Irlanda, que será o único irmão de Lewis.

1898 (29 Nov) – Nasce Clive Staples (C S) Lewis, em Belfast, Irlanda (hoje Irlanda do Norte).

1905 (21 Abr) – A família Lewis prospera e adquire uma enorme casa, chamada “Little Lea”, em Belfast,  para a qual a família se muda, e que será muito importante no desenvolvimento de Lewis até que ele vai para a escola, em 1908.

1908 (23 Ago) – A mãe de Lewis, Flora Hamilton Lewis, morre de câncer, em Belfast, quando Lewis tem apenas 9 anos e 9 meses.

1908 (18 Set) – Sem a esposa, e estando seu filho mais velho já internado em uma escola, Albert Lewis coloca Jack, como C S Lewis era chamado na intimidade, em uma escola internato, a Wynyard School.

1910 (Set) – Lewis muda para uma escola chamada Campbell College, em Belfast, que ele acha simplesmente insuportável.

1911 (Jan) – Lewis muda para uma escola chamada Cherbourg House, em Malvern, Irlanda.

1911 – Enquanto frequenta Cherbourg House, estando com 12 anos completos, Lewis admite ter se tornado ateu, em momento não identificado com precisão, e não mais aceitar a religião cristã (anglicana) adotada pelos seus pais.

1913 (Set) – Lewis se matricula no Malvern College, em Malvern, Irlanda.

1914 (19 Set) – Lewis deixa Malvern College, que também detestou, e, nessa data, vai estudar, em um sistema “one-to-one”, com um conhecido tutor, William T. Kirkpatrick, em Great Bookham, Surrey, Inglaterra, tendo Kirkpatrick, um ex-presbiteriano que havia se tornado ateu, sido tutor de seu irmão mais velho, Warren, e professor de seu pai, Albert Lewis, na infância deste. A experiência de estudar com Kirkpatrick foi marcante para o desenvolvimento intelectual de Lewis.

1917 (29 Abr) – Tendo completado seu estudo com Kirkpatrick, que era preparatório para ingresso na universidade, e tendo solicitado ingresso na Universidade de Oxford, Lewis é, nessa data, aceito pela Universidade.

1917 (8 Jun) – Lewis se muda para Oxford, onde passa morar, com outros futuros estudantes da Universidade, numa república na casa de Mrs. Janie Moore, de cujo filho havia se tornado amigo.

1917 (25 Set) – Antes de começar a estudar em Oxford, Lewis, que havia se alistado, é convocado para servir no Exército Britânico, na Divisão de Infantaria Leve de Somerset, com o objetivo vir a participar da Primeira Guerra Mundial.

1917 (17 Nov) – Lewis é enviado para lutar na França, onde chega em 29 Nov.

1918 (1-28 Fev) – Lewis, ferido, fica em um hospital.

1918 (15 Abr) – Lewis novamente ferido em combate.

1918 (Abr) – O filho de Mrs. Moore é declarado morto em combate.

1918 (25 Mai) – Lewis é devolvido para a Inglaterra, para convalescer de outro ferimento, ficando em hospitais e casas de convalescença até 17 Nov.

1918 (11 Nov) – Assinado o armistício, a guerra acaba.

1918 (23 Nov) – Lewis chega de volta em casa de seu pai, na Irlanda.

1918 – Os outros quatro (além do filho de Mrs. Moore) dos seis membros da república de Mrs. Moore, em que Lewis morava, morreram na guerra, sendo Lewis o único sobrevivente.

1919 (13 Jan) – Lewis volta para Oxford, onde Mrs. Moore aluga uma casa, passando ele a morar com ela e sua filha adolescente Maureen, por haver prometido ao filho dela que cuidaria da mãe dele, caso ele viesse a morrer na guerra, como de fato morreu. [Na ocasião Lewis não poderia saber do fato, mas ele vai morar com Mrs. Moore por exatos 32 anos, até a morte dela em 13.1.1951. Em 13.1.1919, Mrs. Moore, que nasceu em 28.3.1872, tinha quase 47 anos, e Lewis tinha acabado de completar vinte. E Mrs. Moore era uma mulher casada (casou-se em 1.8.1897, antes de Lewis nascer), embora tenha se separado do marido cerca de dez anos depois (em 1907). Ela tinha um casal de filhos: Edward, apelidado “Paddy”, nascido em 17.11.1898, que era, portanto, doze dias mais velho do que Lewis, e que em pouco tempo se tornou seu melhor amigo, até que Paddy morreu na guerra, em Março de 1918, antes de completar vinte anos; e Maureen, nascida em 19.8.1906, que mais tarde se tornou uma baronesa. A natureza exata do relacionamento de Lewis e Mrs. Moore, pelo menos no período anterior à conversão de Lewis ao Cristianismo, em Setembro de 1931, talvez seja a questão mais debatida, e uma das mais delicadas, de sua biografia. Depois de sua conversão, a maior parte dos biógrafos acha provável, ou, talvez, mais do que isso, que o relacionamento dos dois não tenha incluído envolvimento explicitamente sexual, mas certamente era bastante afetivo, mais do que mero cumprimento de promessa feita ao amigo.  Lewis não raro se refere a Mrs. Moore como sua mãe. Vide 1930, a entrada sobre a aquisição da casa da família, The Kilns, que foi a residência oficial de Mrs. Moore e de Lewis para o resto da vida dos dois. A compra da casa se deu, porém, antes da conversão de Lewis ao Cristianismo, e envolveu a participação de Warren, seu irmão, seja qual for o significado desse fato.]

1919 (20 Mar) – O primeiro livro de Lewis, Spirits in Bondage (Espíritos em Cativeiro), é publicado, quando ele tem 20 anos, sob o nome de Clive Hamilton, que é o seu primeiro nome e o sobrenome de solteira de sua mãe.

1920 (31 Mar) – Depois de um pouco mais de um ano de estudos na Universidade, Lewis completa seu primeiro Programa de Estudo dos Clássicos (Filosofia Grega e Latina e História da Grécia e de Roma), com honras (First Honours Classical Moderations), que é equivalente a um bacharelado sofisticado. [Esse exame é considerado por alguns o exame mais difícil de passar no mundo, segundo indica uma nota na Wikipedia.]

1922 (4 Ago) – Lewis completa seu segundo Programa de Estudos na Universidade, equivalente a um segundo bacharelado, este basicamente sobre Grandes Pensadores da Filosofia e da Literatura Ocidental antes da era moderna (Literae Humaniores).

1922-1923 – Depois de complicados processos políticos a parte centro-sul da Ilha da Irlanda, predominantemente católica, se separa da parte norte, predominantemente protestante (anglicana), e se torna independente do Reino Unido, passando a primeira a se chamar República da Irlanda, com capital em Dublin, e a segunda, que continua parte do Reino Unido, Irlanda do Norte, com capital em sua maior cidade, Belfast, na província de Ulster, a cidade em que Lewis nasceu.

1923 (16 Jul) – Lewis completa seu terceiro Programa de Estudos, este em Língua e Literatura Inglesa (English Language and Literature), equivalente a um terceiro bacharelado, depois de apenas quatro anos e meio na Universidade, proeza rara em Oxford, que o torna famoso na instituição, na cidade e além.

1924 (5 Mai) – Lewis é convidado a dar aulas como substituto no University College (em geral mencionado como Univ) da Universidade de Oxford, na área de Filosofia, assumindo as aulas de E F Carritt, enquanto este passava seu sabático nos Estados Unidos, ao longo do ano letivo de 1924-1925. [Univ é a unidade da Oxford University em que Lewis estudou de Jan 1919 a Jul 1923. Em  26 de Março de 1959 Lewis foi eleito “Honorary Fellow” do University College da Universidade de Oxford.]

1924 (10 Out) Primeira aula de C S Lewis na Universidade de Oxford (ainda como substituto). O tema foi “The Good: Its Position Among the Values”. Suas aulas, em substituição a E F Carritt  continuaram até o fim do ano letivo 1924-1925, isto é, por volta de Maio-Junho de 1925.

1925 (20 Mai) – Lewis é eleito “Fellow da Universidade de Oxford”, na unidade chamada Magdalen College, na função de “Tutor” (Tutor) e “Lecturer” (Preletor), que ele vai exercer durante 30 anos, até o final de 1954, basicamente sem interrupção. [Ele recebeu um “Sabático” da Universidade para o ano acadêmico Out 1951 – Out 1952 de modo a poder terminar um livro sobre Literatura Inglesa no Século 16, mas permaneceu na Universidade para concluir o livro, o que de fato fez.]

1926 (20 Set) – O segundo livro de Lewis, Dymer, é publicado.

1929 (25 Set) – O pai de Lewis, Albert Lewis, morre de câncer em Belfast, na Irlanda.

1930 – Lewis, seu irmão Warren, e Mrs. Moore compram a casa em Oxford em que ele vai residir o resto de sua vida, The Kilns, através de um contrato complexo em que os dois irmãos entram com parte do dinheiro (herdado do pai) e Mrs. Moore entra com a parte majoritária dos recursos, ficando acordado que os três serão proprietários da casa até a morte do primeiro deles que morrer, ficando a casa propriedade dos outros dois até que morra mais um, e, depois de mortos os três, ficando a casa propriedade da filha de Mrs. Moore, Maureen Moore. [As mortes vieram nesta ordem: Mrs. Moore, em 1951, Lewis, em 1963, e Warren, em 1973.]

1931 – Depois de ter atravessado um processo complicado de conversão em três estágios, em que ele passou a acreditar, primeiro, na existência de uma “força maior” que controlaria o universo, tornando-se um teísta; segundo, passou a admitir que essa força maior poderia ser identificada com o Deus dos cristãos; e, terceiro, e finalmente, passa a crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e que sua morte e ressurreição de fato expia os pecados da raça humana, tornando-se um cristão no sentido pleno (segundo alguns, nem tanto…) do termo. A cronologia desses três passos é disputada. O maior desacordo é quanto à data do primeiro estágio. A maior parte dos biógrafos, com base em uma afirmação explícita de Lewis em Surprised by Joy, afirma que a data aproximada em que ele passou a acreditar em uma força genérica é o segundo trimestre de 1929. Alister McGrath, em sua primeira biografia de Lewis, afirma que Lewis errou de ano ao fazer referência ao primeiro estágio de sua conversão, e que a data correta é Março a Junho de 1930. Todos concordam que em Outubro de 1931 a conversão ao Cristianismo estivesse basicamente completada. O processo todo durou, para McGrath, basicamente um ano menos do que o próprio Lewis (que era ruim de datas) e todos os seus biógrafos, menos McGrath, acreditavam. [Confesso que acho os argumentos de McGrath, em sua primeira biografia, e no primeiro capítulo de sua segunda biografia, incontestáveis.]

1933 (25 Mai) – Lewis publica sua primeira biografia, de forma alegórica, The Pilgrim’s Regress (O Regresso do Peregrino), na qual relata a sua conversão ao Cristianismo. [Surprised by Joy, a biografia não alegórica da primeira metade de sua vida,  é de 1955.]

1935 (Jun) – F P Wilson, um dos editores escolhidos em Março de 1935 pela Oxford University Press (o outro era Bonamy Dobrée) para publicar a enciclopédica série The Oxford History of English Literature (OHEL), e que havia sido tutor de Lewis em Inglês no ano acadêmico 1922-1923, escolhe e convida (em Junho de 1935) seu ex-aluno para escrever o volume sobre Literatura Inglesa no Século 16 (incluindo prosa e poesia, mas não drama). Lewis é o primeiro a ser convidado para escrever um volume da série. No início, imaginava-se que a série teria doze volumes. [Quando a obra foi concluída, nos anos 50, eram quinze volumes. Lewis só veio a concluir o seu volume, que ele apelidou de “Oh Hell!, e ao qual se referiu como “aquele livro infernal”, em Maio de 1952, dezessete anos depois do convite — que equivalia a um contrato. Ele esteve a ponto de desistir do empreendimento várias vezes. Vide Outubro de 1951 e Maio de 1952.]

1936 (21 Mai) – O primeiro livro de peso de Lewis em sua área acadêmica, The Allegory of Love: A Study in Medieval Tradition (A Alegoria do Amor: Um Estudo na Tradição Medieval), é publicado pela Clarendon Press, de Oxford, e, em 1938, pela Oxford University Press.

1938 (23 Set) – Lewis publica Out of the Silent Planet (Fora do Planeta Silencioso), que será o primeiro volume de sua série The Cosmic Trilogy (A Trilogia Cósmica). [Os outros dois livros da trilogy são Perelandra e That Hideous Strength.]

1940 (18 Out) – Lewis publica The Problem of Pain (O Problema da Dor), pela Editora Geoffrey Bles. Este é um livro significativo, do ponto de vista teológico, porque trata do difícil problema do sofrimento, que tanta dificuldade tem causado aos teólogos. Contudo, no Prefácio, ele procure reduzir a importância do livro, caracterizando-o como o produto de um teólogo amador. Ele insiste que qualquer teólogo profissional reconhecerá, ao ler o livro, quão poucas, e quais, foram as leituras que ele fez à guisa de estudo e pesquisa do tema. Declara ainda que, na sua forma de ver, o livro não tem originalidade, pois quase tudo que nele está incluído já foi dito antes e, de resto, faz parte da doutrina da Igreja Anglicana. Ele, também, até de forma um pouco exagerada, afirma no Prefácio que o livro é puramente teórico e que, na prática, ele próprio não consegue ser fiel aos princípios que expõe e defende. A despeito de tudo isso, o livro é o segundo livro importante que ele escreve na área teológica, vindo na sequência de The Allegory of Love, de 1936.

1940 (19 Jul) – Lewis, ao ouvir pelo rádio um discurso de Hitler, e impressionado com a capacidade de persuasão de Hitler através do discurso oral, fica a refletir sobre o fato de que ele próprio, homem maduro e inteligente, que sabe que aquilo que Hitler está dizendo é falso e mentiroso, fica meio “balançado” enquanto ele está ouvindo aquela voz e aquela retórica tão persuasivas. Ele decide escrever alguma coisa sobre o assunto, conforme relata a seu irmão Warren, por carta, no dia seguinte (20.7.1940). Um dia depois, um domingo, enquanto ele assistia ao culto, Lewis decidiu o que escrever e como abordar o que queria dizer. O tema é algo assim: “O que um diabo deve dizer ao outro quando quer convencê-lo a fazer algo mau”, conforme ele relata a seu irmão Warren, em outra carta, esta de 21.7.1940. O escrito em questão será, naturalmente, The Screwtape Letters (Cartas de um Diabo a Outro).

1940 (Natal) – Lewis provavelmente conclui a redação de The Screwtape Letters, que consiste de 31 cartas de um diabo sênior, Screwtape, a outro, bem mais jovem. [Poderia se chamar “Como se Educa um Diabo”.]

1941 (7 Fev) – J W Welch, Diretor de Transmissões Religiosas da British Broadcasting Corporation (BBC) entra em contato com Lewis para agradecer-lhe pelo conteúdo do livro The Problem of Pain, que ele havia acabado de ler,  e para indagar se Lewis teria interesse em gravar uma série de falas de 15 minutos cada para transmissão pela BBC, destinadas à população em geral, durante o período em que a Grã-Bretanha está em guerra, com transmissão também para as forças britânicas lutando no continente europeu. Depois de alguma hesitação, e de dúvidas sobre como seria sua voz no rádio (ele nunca havia falado para um microfone antes), Lewis resolve aceitar, se se sentir bem em um teste de estúdio, e sentir que pode se comunicar de forma eficaz com sua audiência através do rádio. Tendo se convencido de que o resultado foi positivo, ele começou a preparar uma série de falas sobre “Certo ou Errado: O Desafio da Moralidade”. Não havia propriamente gravação anterior: as falas seriam ao vivo.

1941 (2 Mai a 28 Nov) – As 31 cartas de The Screwtape Letters são publicadas, uma por semana, no jornal The Guardian, que pagou a Lewis duas libras por carta — dinheiro que ele destinou a um fundo destinado a obras de caridade. Com os artigos no jornal Lewis começa a se tornar famoso fora da Academia.

1941 – (Ago) Quatro falas foram apresentadas na BBC nas quartas-feiras à noite, das 19h45 às 20h, durante o mês de Agosto de 1941, sobre o tema “Certo ou Errado: O Desafio da Moralidade”. Essa primeira série de falas teve um resultado extremamente positivo e a BBC foi inundada com cartas para Lewis. Nascia o comunicador de massa.

1941 (6 Set) – Dado o nível da resposta à primeira série de falas de Lewis, a BBC o convenceu a voltar ao microfone para responder às principais perguntas e contestar algumas objeções, o que ele fez, em 6.9.1941.

1941 (11 Jan – 15 Fev) – Uma segunda série de falas foi apresentada de 11 de Janeiro a 15 de Fevereiro de 1942, agora sobre o tema: “O que Acreditam os Cristãos?”.

1942 (9 Fev) – The Screwtape Letters (Cartas de um Diabo a Outro) é publicado em forma de livro, dedicado a seu amigo J R R Tolkien, pela editora Geoffrey Bles. [No Brasil o livro foi publicado em Português com o título Cartas do Inferno (1964). Posteriormente saiu uma nova edição com o título Cartas de um Diabo a seu Aprendiz (2017).]

1942 (Jul) – Dado o sucesso de The Screwtape Letters, a editora Geoffrey Bles resolveu publicar as duas primeiras séries de falas de Lewis na BBC em Julho de 1942, com o título de Broadcast Talks (Conversas pelo Rádio).

1942 (20 Set a 8 Nov) – Uma terceira série de falas, agora sobre o tema de “Christian Behaviour” (O Comportamento [ou: A Conduta] do Cristão), que discute questões relacionadas à moral sexual, ao casamento cristão, ao divórcio, ao perdão, à fé, à esperança, ao amor, etc., com oito transmissões, vai ao ar.

1942 (8 Out) – A Preface to ‘Paradise Lost’ (Prefácio ao ‘Paradise Lost’ de John Milton), importante obra acadêmica de Lewis, é publicada.

1943 (24-26 Fev) – Lewis profere, naturalmente a convite, a 15a. Série das Riddell Memorial Lectures, na Universidade de Durham, em New Castle upon Tyne, Inglaterra.

1943 (Abr) – A editora Geoffrey Bles publica a terceira série de falas com o título Christian Behaviour (Comportamento Cristão [Conduta Cristã]).

1943 (20 Abr) – Lewis publica Perelandra, o segundo volume de sua trilogia The Cosmic Trilogy.

1944 (6 Jan) – O texto da série de conferências proferidas por Lewis, na 15a. Série das Riddell Memorial Lectures, proferidas na Universidade de Durham é publicado com o título The Abolition of Man (A Abolição do Homem) pela Oxford University Press. Trata-se, segundo alguns, da obra mais importante de Lewis na área da educação. [NOTA: Várias referências dão a data dessa publicação como sendo 6 de Janeiro de 1943. No entanto, como as conferências foram proferidas em 24-26 de Fevereiro de 1943, e não faz sentido imaginar que o texto das conferências tenha sido publicado antes de elas serem proferidas. Além disso, Walter Hooper e outros biógrafos afirmam que o livro foi publicado depois das conferências terem sido proferidas. Finalmente, a minha cópia do livro tem 1944 como a data do copyright original. Por isso, coloco o ano como sendo 1944, e não 1943, sendo 1943 o ano em que as conferências foram proferidas oralmente na Universidade de Durham.]

1944 (22 Fev a 4 Abr) – Negociada no segundo semestre de 1943, vai ao ar uma quarta série de falas, sobre temas mais teológicos (Trindade, Criação, Encarnação, as Duas Naturezas e a Divindade de Cristo, a Ressurreição de Cristo, a Ascensão, etc.). Houve bem mais discussão sobre esses temas, dentro da BBC, do que no caso das três séries anteriores. A BBC até procurou colocar essa quarta série no ar depois das 22h. Mas elas finalmente foram transmitidas. Seu texto publicado em The Listener, sempre dois dias depois de sua transmissão pelo rádio, ou seja, de 24 de Fevereiro a 6 de Abril de 1942.

1944 (Out) – Geoffrey Bles publica a quarta série de falas em Outubro de 1944 com o título de Beyond Personality (Além de Personalidade).

1944 (10 Nov) – Lewis publica The Great Divorce: A Dream (O Grande Divórcio: Um Sonho, ou O Grande Abismo, na tradução brasileira para o Português), em 15 partes, em The Guardian, de 10.11.1944 a 10.4.1945.

1945-1952 – As quatro séries de falas de Lewis pela BBC, juntadas ao livro The Screwtape Letters, tornam Lewis uma celebridade.

1945 (16 Ago) – Lewis publica That Hideous Strength (Aquela Odiosa Força), o terceiro e, naturalmente, o último volume de sua trilogia The Cosmic Trilogy. [No Brasil, o título da tradução para o Português, Aquela Fortaleza Medonha (2019), deixa a desejar.]

1946 (14 Jan) – Lewis publica The Great Divorce: A Dream (O Grande Divórcio: Um Sonho, ou O Grande Abismo, na tradução brasileira para o Português), em livro, pela editora Geoffrey Bles.

1947 (12 Mai) – Lewis publica Miracles: A Preliminary Study (Milagres: Um Estudo Preliminar), pela editora Geoffrey Bles.

1949 – A primeira biografia de Lewis de que se tem conhecimento é publicada, coerente com o interesse despertado por suas ideias nos Estados Unidos, por um pastor episcopal americano, Chad Walsh, com o título de C. S. Lewis: Apostle to the Skeptics (que transformou em livro um artigo que havia escrito poucos anos antes, com basicamente o mesmo título), que teve grande repercussão, principalmente nos arraiais evangélicos americanos (apesar de Walsh ser episcopal), e, interessantemente, entre pessoas céticas, agnósticas e ateias que, apesar dessa condição, continuavam em busca de uma visão de mundo que desse mais sentido à sua vida. Foi essa biografia que chamou a atenção de Joy Davidman Gresham, judia étnica, escritora, ateia e comunista, para a pessoa e a obra (ainda pequena) de Lewis e que a levou, primeiro, a se converter ao Cristianismo, e, em seguida, a entrar em contato com Walsh e, por recomendação dele, com Lewis, por correspondência, no final de 1949 (a carta iria ser recebida por Lewis em 10.1.1950, como se verá). [Joy viria a se casar com Lewis em 1956, como se indicará adiante. Aqui é interessante acrescentar que, em 1979, trinta anos depois da publicação do seu primeiro livro, quando Joy e C S Lewis já estavam mortos há mais de quinze anos, Chad Walsh publicou um outro livro sobre Lewis, com o título The Literary Legacy of C. S. Lewis, em que afirmou, erroneamente, que o interesse em Lewis estava diminuindo significativamente. Em 2014, 65 anos depois da biografia de Walsh, e 35 anos depois do segundo livro de Walsh sobre Lewis, Walter Hooper publicou um livreto com um título basicamente idêntico ao do primeiro livro de Walsh, exceto por dois pequenos sinais de grafia: C. S. Lewis – Apostle to the Sceptics. Ele fez isso através de uma editora que se chama Catholic Truth Society, que se descreve como “Publishers to the Holy See” (Editores da Santa Sé). Sinal dos tempos, que indica quão errado estava Chad Walsh em 1979. O interesse pela obra e mesmo pela pessoa de Lewis continua em alta.]

1949 (13 Set) – Lewis publica Transposition and Other Addresses (Transposição e Outras Palestras), pela editora Geoffrey Bles. [Nos Estados Unidos o livro apareceu com o título de The Weight of Glory (O Peso da Glória). A tradução brasileira para o Português seguiu o título da edição americana.]

1950 (10 Jan) – Lewis recebe a primeira carta de Joy Davidman Gresham (Gresham é seu sobrenome de casada), escritora americana, etnicamente judia, que havia sido ateia e comunista, e que havia se convertido ao Cristianismo através da leitura da obra de Lewis, que ainda era uma obra pequena, na época, que ela descobriu através da biografia de Lewis escrita por Chad Walsh. Os dois, Davidman e Lewis, se engajam em uma correspondência intensa e prolongada, que vai acabar, em 1956, com o casamento dos dois, estando Lewis com 57 anos.

1950 (16 Out) – Lewis publica, pela editora Geoffrey Bles, The Lion, the Witch and the Wardrobe (O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa), que será o primeiro volume de The Narnia Chronicles (As Crônicas de Nárnia).

1951 (12 Jan) – Morre Mrs. Moore, aos 78 (quase 79) anos, depois de prolongada doença, e, pelo contrato firmado entre eles, The Kilns, a residência em que os três moravam passa a pertencer aos dois irmãos, Jack e Warren Lewis, até a morte deles, ocasião em que passará a pertencer à filha de Mrs. Moore, Maureen Moore.

1951 (Out 1)-1952 (Out 1) – Lewis recebe um “Sabático” da Universidade para o ano acadêmico Out 1951-Out 1952 de modo a poder terminar o livro sobre Literatura Inglesa no Século 16, mencionado atrás (1925, 1935) que estava mais do que atrasado, fato que lhe trouxe várias cobranças sutis pela Oxford University Press e críticas, estas não tão sutis, de alguns de seus colegas, que morriam de inveja de seu sucesso fora dos muros da academia. Durante seu Sabático, Lewis permaneceu na Universidade para concluir o livro, o que de fato fez, entregando-o à editora em Maio de 1952.

1952 (Mai) – Lewis conclui o livro que ele havia se comprometido a escrever, lá atrás, em 1935, para a Oxford University Press, na série Oxford History of English Literature (OHEL). O livro, concluído e enviado à editora em Maio de 1952, só foi publicado em 1954, com o título English Literature in the Sixteenth Century, Excluding Drama, título que, subsequentemente, em 1990, foi alterado para Poetry and Prose in the Sixteenth Century, junto com a alteração nos títulos de vários outros volumes, que são quinze ao todo. É seu opus magnum no cenário acadêmico.

1952 (7 Jul) – Os três livros com o texto das quatro séries de falas radiofônicas na BBC, de 1941-1944, são, depois de revisados e expandidos por Lewis, transformados em um único livro, que se tornou, em termos de popularidade, o seu livro mais famoso. O livro unificado foi publicado em 1952, por Geoffrey Bles, com o título de Mere Christianity (Mero Cristianismo, em tradução literal). [No Brasil o livro veio a ser publicado em Português com dois títulos diferentes: primeiro, A Razão do Cristianismo (1964) e, depois, Cristianismo Puro e Simples (2005), que é o título com que ele é comercializado hoje.]

1952 (25 Set) – Lewis pela primeira vez se encontra face-a-face com Joy Davidman Gresham, com quem vinha se correspondendo há quase três anos (desde 10 de Janeiro de 1950, quando recebeu sua primeira carta), e Joy permanece na Inglaterra até o início de Jan 1953, passando o Natal em The Kilns, com Lewis e Warren. Ela volta, entretanto, antecipada e apressadamente, para os Estados Unidos, no início de Jan 1953, diante do pedido de divórcio, por carta, de seu marido, que alega ter se apaixonado por Renée, a prima de Joy que ficara em sua casa, cuidando dos filhos do casal durante a viagem de Joy à Inglaterra. Diante da informação de Joy de que não contestaria a sua decisão, William Lindsay Gresham dá início imediato ao processo de divórcio, que, no entanto, vai tramitar lentamente, apesar de acordo total entre as partes, só sendo concluído em 5 de Agosto de 1954.

1953 (Nov) – Embora seu divórcio ainda não estivesse concluído, Joy Davidman Gresham retorna para a Inglaterra, agora com seus dois filhos, David e Douglas, nascidos, respectivamente, em 1944 (27 Mar) e 1945 (10 Nov), com um ano e meio de diferença, para lá viver definitivamente, tudo, naturalmente, dando certo. [O “tudo”, neste caso, é abrangente: conforme seu filho mais novo posteriormente admitiu, ela se mudou para a Inglaterra decidida a se casar com Lewis.]

1954 (4 Jun) – Depois de ter sido preterido em várias eleições para o cargo máximo da carreira universitária em Oxford, o de Professor (seu título era Fellow), Lewis é eleito para a cátedra de Professor de Inglês Medieval e da Renascença (Medieval and Renaissance English) na maior concorrente de Oxford, a Universidade de Cambridge. Para que ele pudesse se transferir para lá, Cambridge criou uma cátedra especialmente para lhe ser oferecida. Ele, naturalmente, aceita o convite para ocupá-la, nesta data (4 de Junho de 1954), e em seguida pede demissão de Oxford, a se efetivar no final do ano de 1954. [Em 1955 Lewis completaria trinta anos em Oxford. Pelas regras da Universidade, ele teria de se aposentar compulsoriamente quando completasse 35 anos na instituição. Indo para Cambridge, ele fugiu da compulsória, além de se “vingar” da instituição que não lhe concedeu a honraria maior. Em Cambridge ele ficou desde o início de 1955 até bem próximo de sua morte, em 1963.]

1954 (5 Ago) – O divórcio de Joy Davidman e William Lindsay Gresham é oficialmente consumado.

1954 (29 Nov) – Lewis profere, no dia de seu aniversário, sua Aula Inaugural no Magdalene College da Universidade de Cambridge. [Curiosamente, ele sai de um College chamado Magdalen e vai para um College Magdalene, com um “e” a mais no final…]

1954 (3 Dez) – Lewis realiza seu último tutorial no Magdalen College da Universidade de Oxford, concluindo uma gloriosa carreira na instituição que começou no ano letivo de 1924-1925, como tutor e preletor substituto, e, em 1925, oficialmente como Fellow de Magdalen College.

1955 (7 Jan) – Lewis começa efetivamente a trabalhar na Universidade de Cambridge, como Professor do Magdalene College, na cátedra de Medieval and Renaissance English, onde apenas dá preleções magistrais e pesquisa, estando dispensado de exercer a função de Tutor. Devidamente autorizado pela universidade, ele estabelece a rotina de passar a semana em Cambridge e retornar para Oxford no fim de semana, que se estende até a noite de segunda feira.

1955 (Jul) – Lewis é eleito para a importante British Academy.

1955 (19 Set) – Lewis publica a autobiografia da primeira metade de sua vida, com o título Surprised by Joy (Surpreendido pela Alegria), pela editora Geoffrey Bles.

1956 – Vence o visto de permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra e sua prorrogação, segundo tudo indica, não será autorizada.

1956 (23 Abr) – Alegando que o faz para resolver a questão da permanência de Joy Davidman e seus filhos na Inglaterra, Lewis se casa com ela, diante do Registro Civil de Oxford, tendo o casamento se mantido em segredo quase universal e sido, segundo ele assevera, exclusivamente pro forma.

1956 (10 Set) – Lewis publica Till we Have Faces: A Myth Revisited (Até que Tenhamos Rostos: A Releitura de um Mito), pela edita Geoffrey Bles.

1956 (19 Oct) – Joy Davidman descobre que está com câncer, posteriormente a uma queda que causa a fratura de seu fêmur. Como se constata nos exames médicos, o câncer havia começado no seu seio direito e, quando foi descoberto, já estava em metástase, tendo alcançado os ossos, sendo esse o fato que ensejou a fratura do fêmur, quando de um tropeço.

1957 (21 Mar) – Em cerimônia religiosa realizada no hospital em que Joy está interenada, diante de um sacerdote anglicano, mas realizada sem a autorização e contra a vontade do bispo anglicano da região, Lewis se casa no religioso com Joy Davidman. Desta feita o casamento é para valer, havendo até mesmo anúncio posterior na imprensa, através de nota discreta e sucinta (que, entre outras coisas, solicita que não sejam enviadas cartas), apesar de o estado de Joy ser considerado terminal pelos médicos.

1957-1960 – O câncer de Joy Davidman Lewis surpreendentemente parece ter parado de avançar e até mesmo regredido, permitindo que o casal faça sua viagem de núpcias à Irlanda, no ano de 1958. [Misteriosa ou miraculosamente, a dor de Joy passa gradativamente para Lewis, que havia orado pedindo que Deus transferisse para ele a dor dela. Logo depois do início dessas “orações substitucionárias”, Lewis começou a sentir um problema nas pernas e foi diagnosticado com osteoporose, a tal ponto que passou a precisar usar um aparelho no quadril (“braces“) e bengala. Lewis continuou com esse problema de saúde até morrer, não tendo tido coragem de pedir a Deus que o livrasse daquilo que ele próprio havia pedido que Deus lhe desse. A possibilidade desse tipo de substituição havia sido defendida por um grande amigo de Lewis, Charles Williams.]

1959 (26 Mar) – Lewis é eleito “Honorary Fellow” do University College da Universidade de Oxford, College ao qual ele esteve vinculado enquanto foi aluno de Oxford, de Jan 1919 a Jul 1923.

1959 (Out) – O câncer de Joy retorna forte.

1960 (28 Mar) – Lewis publica The Four Loves (Os Quatro Amores), pela editora Geoffrey Bless.

1960 (3-14 Abr) – Lewis e Joy, junto de um casal amigo de Lewis (ele, Roger Lancelyn Green, sendo ex-aluno de Lewis, autor já reconhecido de biografias e livros para crianças, e a pessoa a quem Lewis havia solicitado que escrevesse sua biografia oficial, depois que ele morresse), fazem, contra indicação médica, uma viagem à Grécia, que era um sonho que Joy queria realizar antes de morrer.

1960 (13 Jul) – Joy Davidman Lewis morre, depois de três anos e quatro meses de casamento com Lewis — quatro anos e três meses, se o casamento pro forma de 23 de Abril de 1956 for levado a sério.

1961 (24 Jun) – Lewis recebe diagnóstico de que está com um quadro complexo de doenças, envolvendo, além da osteoporose, crescimento exagerado da próstata e problema nos rins, e os médicos acham arriscado operá-lo da próstata por causa da situação delicada de sua saúde geral.

1961 (29 Set) – Lewis publica, sob o pseudônimo de N W Clerk, A Grief Observed (A Anatomia de uma Dor, na tradução brasileira para o Português), pela editora Faber & Faber.

1961 (Out) – Lewis interrompe temporariamente suas aulas em Cambridge, por causa da condição precária de sua saúde, só voltando a trabalhar seis meses depois, em Abr 1962, quando seu quadro de saúde tem alguma melhora.

1962 (Abr) – Lewis volta a dar aulas em Cambridge.

1963 (7 Jun) – Lewis retorna a Oxford para lá passar o Recesso de Verão, e, como havia sido combinado, lá encontra, naquele mesmo dia, e pela primeira vez, Walter Hooper, o jovem professor universitário americano, então com 32 anos, que se correspondia com Lewis há quase 10 anos, a quem “contrata” como seu secretário pessoal, para cuidar da organização de sua vida, dado o fato de que seu irmão, Warren, que era responsável pela correspondência e pela agenda de Lewis, e que estava em crise depressiva e alcoólica por causa da morte de Joy (de quem gostava muito) e da saúde ruim de Lewis, havia se mudado temporariamente para a Irlanda.

1963 (15 Jul) – Lewis tem um ataque cardíaco, entra em coma, mas no dia seguinte volta da coma, permanecendo no hospital, no entanto, até 6 Ago.

1963 (Set) – Walter Hooper retorna aos Estados Unidos para exercer seu último período letivo como professor da Universidade de Kentucky, permanecendo lá até o final do ano.

1963 (22 Nov) – Uma semana antes de completar 65 anos, C S Lewis morre, no mesmo dia e ano em que morreram o Presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy e o filósofo e escritor Aldous Huxley, sendo (Lewis) enterrado em 26 Nov, sem que seu irmão Warren, que estava de volta a Oxford, tenha comparecido nem à cerimônia religiosa nem ao enterro, propriamente dito, que foi realizado no cemitério da Holy Trinity Church, em Headington, Oxford. Com a morte de Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente ao seu irmão Warren, até a morte deste.

1964 (7 Jan) – Walter Hooper chega de volta para Oxford e é contratado para ser Assessor Literário de Owen Barfield, grande amigo de Lewis, que, depois da morte de Lewis, foi escolhido para ser o que no Brasil se chama de Testamenteiro (“Executor“) de seu espólio. Hooper ficou responsável por uma série de importantes tarefas: (a) coletar e organizar os papeis que Lewis deixou que constituíam trabalhos publicáveis e ainda não haviam sido encaminhados para publicação; (b) acompanhar os trabalhos de Lewis que já estavam no prelo, mas não haviam sido publicados ainda; e (c) elaborar uma bibliografia completa e confiável de C S Lewis, algo que, surpreendentemente, inexistia até então.

1964 (7 Mai) – Postumamente é publicado The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature (A Imagem Descartada: Para Compreender a Imagem Medieval do Mundo, na tradução brasileira para o Português), pela Cambridge University Press.

1973 (9 Abr) – Nove anos e meio depois de C S Lewis, morre Warren Lewis, seu irmão mais velho, sendo enterrado no mesmo túmulo que o irmão mais novo. Warren lega seus próprios volumosos papéis para o Wheaton College, de Wheaton, Il, EUA, aparentemente contra a vontade de Walter Hooper. Com a morte de Warren Lewis, The Kilns passa a pertencer exclusivamente a Maureen Moore, então já uma baronesa, por ter herdado o título em decorrência da morte do seu pai (em um desses intricados processos que apenas os ingleses entendem direito).

1974 – A biografia oficial de Lewis é publicada, com texto de Roger Lancelyn Green & Walter Hooper, e com o título de C. S. Lewis: A Biography. [Na segunda edição, de 2002, 28 anos depois da primeira, o título se torna C. S. Lewis: The Authorised and Revised Biography, mas a autoria continua de Green & Hopper, embora Green tenha morrido em 1986.]

1975 – Sem a sombra de Warren Lewis, Walter Hooper assume total controle do legado intelectual de C S Lewis, como seu Testamenteiro Literário (“Literary Executor“).

O resto é história.

Cronologia originalmente elaborada por Eduardo Chaves, com base em inúmeras fontes, e publicada em Salto, 6 de Julho de 2020, com base nas biografias de C S Lewis resenhadas em artigo anterior, e, depois de várias revisões, em que foi corrigida e ampliada, publicada agora nesta versão também em Salto, mais de quatro meses depois, em 15 de Novembro de 2020.

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

C S Lewis, Aldous Huxley e John F Kennedy

Esses três homens, com o nome acima e a foto abaixo, cada um deles grande do seu próprio jeito, morreram num mesmo dia do mesmo mês do mesmo ano: 22.11.1963.

C S Lewis, A Huxley and J F Kennedy

Ironias do destino.

Eu estava numa praia de Florianópolis naquele dia. Todo mundo que estava vivo na época se lembra de onde estava quando Kennedy, o mais conhecido deles, morreu.

C S Lewis talvez seja o mais conhecido e famoso hoje, 57 anos depois de sua morte, pelas novas gerações, por causa de The Chronicles of Narnia.

https://www.thedailybeast.com/three-great-men-died-that-day-jfk-cs-lewis-and-aldous-huxley

Em Salto, 6 de Julho de 2020.